J. Rentes de Carvalho: “É gratificante ser finalmente lido pelos que falam a minha língua”

J. Rentes de Carvalho relembra o tempo em que foi obrigado a abandonar Portugal por razões políticas, destaca o exotismo dos temas que aborda e fala sobre a fórmula mágica para se ser escritor.

 

 


Nasceu em Monte dos Judeus, Vila Nova de Gaia, um lugar que já apelidou de propício ao convívio com todas as classes sociais. De que forma a infância aqui passada se reflete na sua obra?

Vamos dizer, sem ironia, que me abriu os olhos e alargou as vistas, deixando-me com a impressão de ter nascido, se não velho, pelo menos de uma estranha maneira já meio adulto, intuindo o muito que não podia compreender. Fora isso havia a paisagem, que de lá continua espetacular, e a componente social, mais espetacular ainda, reunindo em torno do pequenino largo: uma família de ingleses abastados, negociantes de vinho; os irmãos Moreira, que eram assim a modos de reis da estiva do rio Douro; o senhor Artur, que tinha um camião; a senhora Mónica, que tinha um amante rico; o meu pai, que era guarda-fiscal; o senhor Pim-Pim, idem; depois, nas traseiras, um número indeterminado de gente boa e má, do tipo a que Karl Marx chamou lumpenproletariat. Todo esse povo, mais o que a minha imaginação tira dele ou lhe acrescenta, está duma ou doutra forma presente naquilo que escrevo.

Que livros e autores costumava ler quando era mais novo?

Por muito boa sorte, nasci de uma gente que, mau grado a modéstia dos rendimentos, tinha o fanatismo da leitura. Considerava o jornal O Primeiro de Janeiro uma obrigação diária. Havia um armário com livros e o que muito me impressionava: o dicionário Torrinha e um calhamaço da Alfândega com a lista das mercadorias que se importavam e exportam. Creio que o primeiro que li foi O Sargento-Mor de Vilar, de Arnaldo Gama. Ainda por sorte, no quartel onde o meu pai trabalhava havia uma boa biblioteca e, entre os 6 e os 10 anos, as horas de leitura que aí fiz foram para mim uma espécie de droga. Recordo que a incapacidade de compreender tudo o que lia não diminuía o prazer nem a fome de leitura.

Ainda se lembra do primeiro texto de ficção que escreveu?

No liceu Alexandre Herculano, no Porto, tínhamos fundado um jornalzinho mimeografado, com o título pomposo de Atena, e foi aí que, por volta dos meus 13 anos, escrevi um conto, de que já só recordo o título: “Os Pobrezinhos”.

Dividiu-se, nos estudos, entre Línguas Românicas e Direito. Porquê estas opções?

Chamar-lhes estudos é excessivo, foi antes uma passagem durante o tempo do serviço militar, e uma espécie de turbilhão mental. Na minha pobre ideia de adolescente, estudar Direito era meio caminho andado para endireitar o que na sociedade estava torto. Alegro-me que desde então a juventude não sofra, ou sofra menos, desses arrebatamentos que vinham do Romantismo.

Já na década de 1950, foi obrigado a abandonar Portugal por razões políticas. Como o informaram disso?

De uma maneira muito portuguesa: o meu pai tinha um amigo da tropa que era o inspetor da PIDE em Vila Nova de Cerveira. O meio era muito pequeno, toda a gente se conhecia, os meus amigos eram “do contra”, e o inspetor avisou o meu pai de que o melhor era eu sair de Portugal, caso contrário, com as “amizades” que eu mantinha, ele um dia ou outro teria de me prender e isso ia dar sarilho.

Mudou-se então para a Holanda, onde continua a viver. Qual é a principal diferença entre Portugal e a Holanda?

Poderá supor-se que a diferença maior seja a do incomparável nível de vida, ou a excelência da organização, mas para mim a que mais conta é, lato sensu, a decência da sociedade e das instituições, a ausência da cunha ou do jeito, as garantias e a imparcialidade da Justiça.


“Por muito boa sorte, nasci de uma gente que, mau grado a modéstia dos rendimentos, tinha o fanatismo da leitura.”


Os seus livros foram sempre grandes sucessos comerciais na Holanda. O que acha que o distingue dos outros escritores?

Talvez o exotismo dos temas, o revelar aos holandeses aspetos de uma sociedade, a da província portuguesa, que lhes são totalmente estranhos. Se bem que o meu primeiro e, de facto, grande sucesso, foi Com os Holandeses, em que não poupei críticas à maneira de ser holandesa.

Sente-se satisfeito com a divulgação da sua obra em Portugal?

Sem dúvida, tanto mais que tem aspetos de milagre, pois já me tinha resignado a que os meus livros fossem apenas publicados na Holanda, e portanto em tradução. Demorou 40 anos a realizar-se, mas é muito agradável, ao vê-los na estante, dar-me conta que o milagre de facto aconteceu. Também é gratificante ser finalmente lido pelos que falam a minha língua.

Como avalia o atual panorama da literatura portuguesa?

Não saberia como fazê-lo. A avaliação cabe aos críticos e aos académicos, eu iria cair na apreciação pessoal, acabando por contentar uns e desgostar outros.

Quais são os temas que mais lhe interessam abordar nos seus livros?

Temas não tenho, fico-me por contar histórias, projetando nelas o que me interessa, aflige, me surpreende na vida, seja ela a do corriqueiro dia a dia ou a dos momentos de tragédia. Devo dizer que, nesse particular, há dias que começo com o Correio da Manhã.

Comparando os seus primeiros livros com os mais recentes, como avalia a sua evolução?

Receio que não haja evolução. Como disse atrás, tenho o sentimento de ter nascido velho e só aos 38 anos vi publicado o meu primeiro livro, de modo que, digamos, tinha uns vinte e tal anos de aprendizagem antes de escrever a sério. A evolução que de certeza houve ocorreu nesse longo período de aprendizagem, embora eu apenas me tenha dado conta de como era difícil chegar onde queria, onde aliás penso que não cheguei, nem sequer chegue. É uma questão de craveira.

Existe alguma fórmula mágica que faça de alguém um bom escritor?

Seria ótimo, mas não há. Fora a vontade maníaca de contar histórias, é necessária boa ferramenta, e essa felizmente não está à venda. Consegue-se à força de muita, muita leitura, amor à língua, algum sentido do ritmo.

O que lhe falta ainda fazer?

Não tenho a mínima ideia. Nunca fiz projetos, esquemas ou alvos, não planeio coisa nenhuma. Também aí me sinto intensamente português: deixo ir andando, depois se verá.

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