Inês Pedrosa: “A grande resposta que a literatura nos dá é não julgar”

Chama-se O Processo Violeta e apresenta-nos um amor proibido que vem abalar a ideia de que não temos preconceitos. Em conversa com a Estante, Inês Pedrosa fala-nos do seu mais recente romance.


Quem foi a Mary Kay?

Quem foi?

Quem é?

Isso toda a gente soube. A Mary Kay [Letourneau] é uma mulher que foi presa durante, salvo erro, sete anos por ter tido uma relação com um jovem aluno de 12 anos do qual teve dois filhos. Quando saiu da prisão, ele já era maior e casaram.

Foi ela que, em parte, inspirou a narrativa principal de O Processo Violeta?

Sim, em parte. Fiquei muito interessada a seguir aquele caso. Depois li em Elogio da Intolerância, do filósofo Slavoj Žižek, que aquele caso era a grande história de amor do nosso tempo. E concordei.

Era uma história a partir da qual poderia criar uma outra história para tratar do tema que me andava a interessar: a maturidade. O que é isso da maturidade? O que é a idade do consentimento? O que é isso da responsabilidade? O que é um adulto? Será que alguma vez somos adultos? Quando acaba a infância? O livro é sobre isso.

Podemos dizer que, no fundo, a maturidade é fazermos o que está certo?

E agora pergunto-lhe: o que está certo?

O que nós achamos que está certo.

Pois, mas nós achamos sempre isso em todas as idades. Quando uma criança de 2 anos vai pôr os dedos na ficha acha que está certo.

Refiro-me à diferença entre aquilo que temos vontade de fazer e aquilo que achamos que devemos fazer.

Não sei o que é a maturidade. Supostamente é conseguirmos tomar decisões corretas para nós e também para os outros do ponto de vista que coincide com o nosso interesse e com o interesse social – o que leva a muitos conflitos e paradoxos, porque nem sempre o nosso interesse coincide com o interesse social.

Claro que o interesse social exige que nos conduzamos segundo uma série de parâmetros que até já vem dos mandamentos bíblicos: “Não matarás.” E quem matar é punido, porque se cada vez que nos apetecesse matar alguém o matássemos, imaturamente o mataríamos e a sociedade não se poderia desenvolver.

Agora, o que é concretamente a maturidade? Quando é que um jovem atinge a maturidade? E será que há uma maturidade derradeira que todos atingimos? São perguntas para as quais não tenho resposta, mas que são centrais na vida humana. É em torno dessas perguntas que o romance vive.


O que é isso da maturidade? O que é a idade do consentimento? O que é isso da responsabilidade? O que é um adulto? Será que alguma vez somos adultos? Quando acaba a infância? O Processo Violeta é sobre isso.


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O caso de uma professora que engravida de um aluno de 14 anos vem abalar aquela que a Inês diz que é a nossa maior ilusão, a de que não temos preconceitos?

Como outras coisas. Como a ilusão de que não somos racistas – e achamos mesmo que não somos. Achamos que na sociedade ocidental não há amores proibidos, mas depois vemos que há uma mulher e um rapaz que querem ficar juntos e ela é presa por causa disso. Portanto há amores proibidos.

E este é um deles.

Foi o que disse o Žižek: é uma grande história de amor e prova que a liberdade – nomeadamente a sexual – que dizemos que vivemos hoje não é absoluta.

Apesar dos preconceitos que possamos ter, em questões de consciência cada um sabe de si?

Não sei. Claro que cada um sabe de si em questões de consciência, mas nunca houve uma sociedade sem limites e preconceitos. Esta sociedade que entende que não tem preconceitos tem de ter a humildade de reconhecer que os tem. Depois vamos ver se se justificam e até que ponto, mas a ideia de que há uma liberdade sem limites é falsa.

Mesmo o conceito de maturidade (que entendemos que é o facto de sermos capazes de tomar decisões que nos interessam a nós e aos outros) não é propriamente o “cada um sabe de si”. Se bem que uma das características da imaturidade é um autocentramento muito grande. Mas nesse sentido provavelmente todas as paixões são imaturas, porque quem está apaixonado está centrado em si, no seu amor e na relação entre si e o outro.

Outro dos preconceitos que a Inês diz que existem é o de que um adulto é sempre visto como mau e opressor e o jovem é visto como seduzido e inocente. A idade tem a capacidade de nos inocentar ou de determinar a nossa culpa?

Eu, pessoa cívica, penso que tem de haver limites. Como há. A condenação de um adolescente ou de uma criança não pode ser semelhante à de um adulto, precisamente porque se considera que o dito menor tem alguém que se responsabiliza por ele e até ele próprio sabe que é menor, que não é responsável. Claro que isso também dá para muita perversidade e nós temos neste livro um menor que viola uma professora sabendo-se protegido pela sua condição de menoridade.

O que quero dizer com isso é que as relações de poder não são evidentes e não estão predefinidas. Uma pessoa aparentemente fraca pode ter um poder extraordinário que determina a vida do outro. Vou dar o exemplo mais corriqueiro e comezinho: as mulheres sempre foram chamadas de sexo fraco, mas conhecemos o poder das mães sobre os filhos e filhas. Às vezes há poderes que se exercem na obscuridade que têm mais força do que poderes explícitos.

O Presidente do Brasil pretende baixar a idade da responsabilidade civil para condenar definitivamente jovens, o que me parece uma atitude deplorável – mesmo criminosa – porque muitos desses jovens são completamente desadaptados e vêm de ambientes e famílias completamente desestruturadas. Estar a queimar-lhes a vida em vez de tentar recuperá-los parece-me que é reagir a um crime com outro crime.

Mas também não sou pela desconsideração que se faz dos sentimentos e da capacidade de escolha dos mais jovens. Um rapaz de 14 anos não é a mesma coisa que um miúdo de 5. Antes as crianças não existiam, depois passaram a ser protegidas e agora são protegidas de uma maneira que vivem até à maioridade sem andar num transporte público. São tratadas como seres não menores mas diminuídos.


Achamos que na sociedade ocidental não há amores proibidos, mas depois vemos que há uma mulher e um rapaz que querem ficar juntos e ela é presa por causa disso. Portanto há amores proibidos.


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A narradora refere que durante a história da literatura só tem havido dois tipos de mães: as que se anulam e as que têm um sentimento de posse absoluta. Nesta infantilização dos jovens de hoje, em parte provocada pela sobreproteção dos pais, vemos que tipo de mães: as que se anulam ou as que controlam tudo?

Vemos onde? 

Nesta sobreproteção dos filhos.

Às vezes é um misto das duas. Por acaso é um tema muito interessante e devo dizer que estou a pensar escrever um romance em torno das mães. Se uma pessoa se anula sacrifica-se, mas o peso do sacrifício cai completamente sobre o filho. Conhecemos muitas mães que dizem: “Eu sacrifiquei a minha vida profissional (ou afetiva) por ti.”

Ou mulheres que ficam sozinhas a criar os filhos. Até há uma no livro, mas isso é nos anos 80. Hoje em dia vemos muitas famílias só de mãe e filho em que a mãe nunca volta a casar para não traumatizar o filho, para não lhe dar um padrasto, ou para que o filho não a julgue.

Se a pessoa prescindir da sua vida vai necessariamente cobrar isso mais cedo ou mais tarde. Sinceramente, acho que quem faz isso – e não queria usar uma palavra muito forte – está a dar maus-tratos aos filhos, porque educar não pode ser desresponsabilizar mas também não pode ser culpar. Montes dos problemas do mundo são de ressentimentos e culpas mal digeridas.

Apesar de uma mãe fazer isso por vontade própria poderá acabar sempre por se ressentir?

Poderá ressentir-se, mas de qualquer maneira o filho sentirá. Há sempre um momento em que – mesmo que não o diga – a mãe dirá: “Eu fiz tudo por ti.”

Lembro-me que, quando a minha filha tinha 2 anos, em 2000, houve uma iniciativa que reuniu cem escritores de toda a Europa, dois ou três por país, durante três meses, para atravessar a Europa fazendo palestras sobre a necessidade das traduções, das pequenas línguas e a harmonia entre todos os povos europeus. E havia um júri para decidir quem eram os escritores que iam de cada país. Um dos jurados era o Eduardo Prado Coelho, que me viu um dia na rua com a minha criança e me disse que não me tinham escolhido porque eu tinha uma filha pequena e não a podia largar durante três meses. Fiz-lhe logo ali um discurso a dizer: “A minha filha tem um pai.” E eles disseram: “Achámos que o pai não era do género de Interrail.” Achei graça. O pai não, porque não gostaria, e tu não, porque tens uma filha.

A ironia de isto ser Portugal é que, passado um mês, ele telefona-me a dizer que a outra escritora não poderia ir e perguntou-me “sempre aceitas?” e eu lá aceitei. Mas houve muita gente à minha volta que disse: “Três meses? Deixar a criança? E se ela começa a dizer mais alguma palavra?” E eu dizia: “Paciência, gravem.” Porque não queria ter de dizer à minha filha que poderia ter ido neste projeto único e que não fui por causa dela. A ela moeram-lhe tanto o juízo que me disse recentemente: “Daquela vez em que me deixaste seis meses…”

Já ia em seis meses.

E eu disse-lhe: “Não foram seis, nem chegaram a três.” E ela responde: “A mim pareceu-me imenso tempo, lembro-me que estava cheia de saudades tuas.” Ela tinha 2 anos. Lembra-se do que lhe foram dizendo. Mas há este peso de que…

De que ser mãe define as mulheres.

Sim. Como se os gatos, os cães, os coelhos e os ratos não tivessem mães. E os pombos e as andorinhas…

A maternidade é muito interessante, mas não é nada tão interessante… Não é especificamente humano sequer. Humanizá-lo é criar pessoas para a sua autonomia e liberdade e olhar para elas como pessoas, não como bonecos ou como a segunda oportunidade de fazer o que queriam fazer na vida. A maternidade tem de ser um ato de generosidade e raramente o é.

Criei a minha filha para lhe dar liberdade, para poder ir à rua a partir dos 13 anos, e ela não tinha com quem. Ela queria ir a um cinema perto de casa, apanhar um transporte curto, tomar um lanche com as amigas e…

Não tinha companhia.

Não tinha porque os pais das amigas achavam que elas não tinham idade. E eu com 13 anos andava na rua e ia para um liceu que era longe. E dizem “ah, porque agora…” No meu tempo também diziam isso e já havia a droga e a loucura.

Há uma sobreproteção que cria medo do mundo. O mundo é inseguro (sempre foi), mas criar seres assustados que vivem na bolha é terrível.

E criar seres que depois não têm capacidade para fazer escolhas.

Vemos tantos miúdos que querem engenharia, depois querem música, depois não sabem e não querem nada. No fundo o que eles queriam era ficar em casa dos pais. Pois, se ali estão protegidos. É que estas pessoas criam os filhos e depois, de repente, dizem: “Agora és adulto, hello!”

É uma mudança muito drástica.

A pouco e pouco têm de aprender a fazer uma compra e a defenderem-se, mas não vamos impedir as crianças de ir à rua só porque podem ser apanhadas por um pedófilo.

A minha filha, aos 16 anos, tomou a iniciativa de ir estudar para os Estados Unidos para aqueles sistemas de intercâmbio com outra família. E tratou de tudo. Mas enquanto ela era pequena olhavam para mim como se fosse…

Uma má mãe.

Uma má mãe. Mas estou consciente de que criei uma pessoa que é livre, responsável, e que não há uma relação de culpa e de cobrança. As famílias são nós de culpa e de cobrança e só serão famílias quando deixarem de o ser.

Esta coisa de as famílias serem criadas por escolha, de os casais se escolherem, de viverem em esquemas mais individuais, com as famílias mais separadas, e terem uma família paralela de amigos (também de escolha) é muito recente. Falamos muito da evolução tecnológica do século passado, mas não nos damos conta da extraordinária evolução que houve nas relações humanas. Digo evolução no sentido de transformação, sem juízos de valor, porque é a primeira vez em que podemos escolher tudo. Até ao século XX as mulheres não tinham de escolher o marido. Já estava escolhido. Não tínhamos de escolher os amigos porque o mundo era pequenino. Agora a escolha é radical e permanente para tudo. Tudo é escolhido permanentemente.

E com isso vem uma responsabilidade que nos assusta.

Depois tentamos proteger as crianças, infantilizamo-las. E depois queixamo-nos da infantilização.


Não vamos impedir as crianças de ir à rua só porque podem ser apanhadas por um pedófilo.


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Falando um pouco do livro e dos tipos de mães, a Violeta é uma mãe que trata os filhos de acordo com os sentimentos que tem pelos seus pais?

Sim. A Violeta é uma mulher traumatizada que fez sempre o que era esperado sem questionar, com uma raiva acumulada, e também teve aqueles filhos porque era esperado. Na verdade não amava o marido e tinha uma vida de aparências da qual ela não tinha consciência. Quando sente aquela atração por aquele miúdo é a primeira vez que vai fazer uma coisa por ela – se calhar é uma grande loucura, mas provavelmente é por isso que se apaixona pelo miúdo, porque precisa de fazer alguma coisa por ela. E se calhar precisa de chocar o mundo à volta dela, ao qual obedeceu o tempo inteiro.

Por outro lado, o Ildo é um miúdo de 14 anos mas que parece até mais maduro do que a Violeta. É uma exceção à regra ou essa “maturidade” é apenas produto da marginalização de que é alvo?

Cada pessoa é uma pessoa. Aqui imaginei que assim podia ser verosímil, mas vejo miúdos de 14 anos muito maduros. É na adolescência que começamos a lidar com o que sentimos, de quem gostamos, como gostamos de nós, quem somos e quem são os outros. Provavelmente pensamos nisso muito mais horas por dia do que os adultos que trabalham das 9h00 às 17h00. [Os adolescentes] são filósofos mais profissionais do que os adultos.

E claro que o miúdo que cresceu com a mãe a sentir-se o único homem da casa, num mundo em que o mito do homem provedor existe, se sente responsável pela mãe – até porque, lá está, a mãe vive para ele. Tenderá a ser mais responsável e, sobretudo, mais autocentrado. Está apaixonadíssimo pela professora mas não desiste de si mesmo, do que quer. O que se calhar é uma atitude madura. É sobretudo uma atitude masculina que os homens tomaram ao longo da vida, muito mais do que as mulheres.

Não desistirem do que querem?

Porem os seus objetivos à frente de tudo. O Ildo tem um sonho que persegue e o sonho dele nunca é só o amor, é a realização pessoal dele.

A Inês diz que Portugal é um país “antiquíssimo” com uma “identidade nacional muito segura”. É assim que se explica alguns dos problemas de racismo que retrata no livro?

Não sei. Há um mito da boa colonização de Portugal, ao contrário da dos ingleses que eram muito snobes e não se misturavam com os nativos. Que Portugal inventou a mestiçagem. Também por ter sido sempre um país marítimo, porto de partida e chegada, teria um racismo muito mais mitigado. E de facto tem um racismo mitigado, como tem tudo mitigado.

Não somos um povo aguerrido para o melhor nem para o pior. Por isso também tivemos a revolução do 25 de Abril com tranquilidade e uma espécie de bom senso. Essa bonomia dá para manter muita coisa calafetada. Nós temos a ideia de que não temos racismo porque são poucas as criaturas que dizem: “Este é inferior porque tem uma cor de pele diferente.” Mas são muitas as boas pessoas que dizem: “Se a minha filha se casar com um negro, depois os meus netos vão ser discriminados.”

Acho que há uma cultura de condescendência, de paternalismo, em Portugal. O abuso das mulheres sempre foi e continua a ser fortíssimo. As violações e os abusos sexuais na família também são fortíssimos.

Muitas vezes atribuímos esse sexismo aos homens, mas não há muitos casos em que as mulheres são as maiores inimigas das mulheres?

Mas esta cultura de machismo também adota um tom levezinho porque é um machismo de linha matriarcal. As mulheres dão educações diferentes aos filhos e às filhas, mesmo aquelas que dizem que não, e caem no engodo criado pela sociedade patriarcal de ver as outras mulheres como rivais. Mas pegam-se muito entre elas porque os lugares de poder para as mulheres são sempre muito menos e os próprios homens acirram-nas para que vivam em competição. Se não houvesse machismo nas mulheres, o machismo já estaria mais diluído.

A cultura do “politicamente correto” também mascara os preconceitos que possamos ter, porque ouvimo-nos a dizer uma coisa e nem nos apercebemos que nos contradizemos nas ações do dia a dia.

Sim. Agora critica-se o politicamente correto em abstrato, mas acho muito bem, porque o politicamente correto existe para combater o politicamente incorreto. O politicamente incorreto é discriminar as pessoas. Insurjo-me quando as pessoas dizem que o politicamente correto está a estragar Portugal. Onde? Eu vejo é muita incorreção, ainda, por isso não estou preocupada com o politicamente correto. O que vejo muitas vezes é substituir-se o tratamento igual das mulheres por um tratamento condescendente. E uma cultura de virar mulheres contra mulheres às quais estas são muito permeáveis.


Se não houvesse machismo nas mulheres, o machismo já estaria mais diluído.


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Diz que o valor das mulheres na literatura tem sido pouco reconhecido ao longo dos tempos. Hoje é diferente?

Começa a ser. O meu agente Thomas Colchie disse-me que hoje em dia tem mais mulheres do que homens porque, quando há dois escritores de que ele gosta, um homem e uma mulher, escolhe sempre a mulher. Por ação cívica, porque sabe que os outros vão escolher sempre primeiro o homem. E porquê? Porque o homem vai ter mais prémios literários, por isso vai ser traduzido mais depressa. À partida um homem, um romancista, vai ter mais sucesso porque quem vai ler mais romances são…

As mulheres.

E o que elas preferem em geral?

Ler homens?

Sim. E se for um homem que elas achem sexy… As filas são sempre gigantescas das mulheres para os homens. Também porque fantasiam muito com escritores. Este mercado continua a ser muito mais difícil para as mulheres do que para os homens.

E a Inês? A nível pessoal, sente-se reconhecida enquanto escritora?

Reconhecida por quem?

Reconhecida pelo público, por quem gostaria de ser reconhecida.

Como toda a gente que escreve, gostaria de ter leitores em todo o mundo e de ganhar o Nobel porque nunca mais tinha de trabalhar na vida. Há quem goste dos meus livros e quem não goste. Há quem nem sequer os conheça e que embirre comigo porque tive muita visibilidade muito cedo – comecei no jornalismo aos 19 anos e estou na televisão e na rádio. Há quem se enjoe de mim só de me ouvir.

Agora… tenho tido a sorte de ter leitores fiéis em Portugal e noutros países, nomeadamente no Brasil. No Brasil sinto-me muito amada e reconhecida, quer pelos leitores quer pela Academia. O sítio onde tenho mais reconhecimento e leitores é no Brasil, mais ainda do que em Portugal, o que me alegra imenso porque adoro o Brasil. Sinto-me muito compreendida lá, às vezes mais do que aqui. Mas digo isto sem desfeitear os meus leitores portugueses.

Em relação ao jornalismo, a narradora revela que já nos anos 80 havia uma preferência pelo sensacionalismo em detrimento da reportagem e de uma análise crítica dos acontecimentos. As redes sociais apenas vieram ampliar – e não criar – o problema?

Só ampliaram. Não sou nada demonizadora das redes sociais, porque acho que também são um instrumento democrático extraordinário. Qualquer substância pode ser mal ou bem utilizada e é do veneno das cobras que se faz o antídoto.

A meu ver – e de uma forma muito tonta – a comunicação social escrita foi atrás da televisão e a televisão, por sua vez, foi ultrapassada na sua velocidade pelas redes sociais. Mas há certos jornais e revistas que sobrevivem porque fazem o contrário, têm o texto longo, de análise, a grande reportagem. A Sangue Frio, de Truman Capote, é uma reportagem sobre o massacre de uma família. A reportagem é o aprofundamento de um caso através do qual se vai perceber um problema social. Mas para isso é preciso tempo e investigação.

Quem é que vai comprar um jornal se já sabe o que lá vem? Se o jornal for só títulos sensacionalistas, as redes sociais ganham – e as televisões também. Por exemplo, quando apareceu o cinema achava-se que o cinema comercialão, que não é arte, ia acabar com a nobre arte do teatro. Certo é que o teatro continua até hoje. Quando o teatro é bom, tem público.

Esta coisa de que para termos mais audiências temos de degradar o ser humano ao limite é gravíssima, mas também penso que há de chegar à banalização e ao cansaço. Há de haver uma altura em que os humoristas perceberão que não tem graça desfibrar alguém que já está morto ou numa cela de prisão. Há de haver uma saturação disso.

É preciso bater no fundo para voltar.

Acho que ainda estamos para bater no fundo. A Natália Correia, que tive a felicidade de conhecer bem, dizia, nos anos 90: “Estou sem vontade de viver porque agora vamos entrar numa época de trevas acentuadas.”

Os anos 80 – e apeteceu-me escrever sobre eles por isso – eram anos de alegria, de euforia e de criação em que parecia sempre que tudo ia melhorar. Mas, nos anos 90, a Natália Correia disse-me que a ansiedade de êxito tinha sido tão grande que se tinha esquecido do mundo real e já não queria viver mais porque não poderia viver até ao fim desse período negro. Disse-me isto uns três meses antes de ter morrido.

Quanto ao que se está a passar nos meios de comunicação, as condenações em praça pública de pessoas que não cometeram crimes, que ainda não foram condenadas e que muitas vezes não vêm a ser, são muito graves. Passou-se recentemente com um ex-ministro e com mais uma série de pessoas. As pessoas veem a vida arrasada pelos meios de comunicação com a cumplicidade da justiça – isso é que a singularidade portuguesa. Temos casos de pessoas que foram ilibadas mas em que as pessoas pensam: “Ah, tu és aquilo.”

Cair é muito fácil e o difícil é voltar?

Lá está. E já tive, à minha modestíssima escala, a prova disso: as acusações vêm em parangonas; a negação das acusações é uma notícia pequenina ou então nem vem. Tantas vezes que uma pessoa se lembra: “Aquele foi acusado, o que aconteceu?”, “Foi a tribunal, provou-se que era falso”, “Ah, mas isso não se leu”. E não se leu. Já aconteceu comigo e com muita gente. Só que em alguns casos desfaz as vidas das pessoas.

O que é a carreira do Kevin Spacey? Do que foi condenado? Estamos a importar o puritanismo americano de uma forma acéfala. Se a moral consiste em espezinhar os outros não estou interessada nisso. Muitas vezes as pessoas confundem isso com moral.


Se o jornal for só títulos sensacionalistas, as redes sociais ganham.


No início de O Processo Violeta, a narradora diz que se encontra “na hipérbole da ficção uma verdade mais cirúrgica do que a fornecida pela científica dieta dos documentos”. Refere-se ao jornalismo?

Não só ao jornalismo. Aí, na verdade, estou a fazer um tom que no fundo era o de Camilo Castelo Branco e Machado de Assis, que interpelava muito o leitor. Acho muita graça a isso. Aí estou a dizer uma coisa que entra um bocado no âmbito da minha tese de doutoramento, sobre a relação entre o romance e a política. Historicamente o romance surge com qualquer coisa parecida com o fim do autoritarismo, que precipita o fim do poder absoluto dos imperadores ou dos reis porque dá voz aos que não a têm. A ficção é uma grande fonte de informação para como se vivia num determinado tempo. Encontramos isso nos romances e não nos documentos, por isso aí não é especificamente contra o jornalismo.

Porque é que as mulheres leem romances? Porque estavam à margem da História, porque tinham mais disponibilidade, mas também porque se interessavam pela vida como ela era. Homens de várias idades dizem que não leem romances porque não têm tempo, porque acham que têm de ler livros formativos e que os romances são distração. Mas chamo à atenção que todo o romance é histórico. É uma fonte de informação extraordinária sobre uma determinada sociedade e uma arte que arreia muitas.

Os romances que a Inês escreveu fazem parte do desejo de intervenção cívica que também têm pautado a sua vida?

Não. Quando desejo intervir civicamente, intervenho. Claro que se nota quem é o autor no romance. Não sou outra pessoa. Até já fui confrontada na televisão: “Como é que uma pessoa tão feminista põe um homem a dizer isto?” É uma ficção, são personagens e, mesmo como narradora, posso ser mais conservadora do que eu própria. A ficção é outro mundo, mas um outro mundo que reflete o meu. O que aparece são os temas que me preocupam e que têm a ver com a pessoa que sou. Um romance é um texto muito mais livre e aberto, que não pretende ser um manifesto.

Às vezes também se escrevem coisas que não são necessariamente aquilo com que o autor concorda, de modo a colocar o problema em evidência.

Claro. E o que penso que é interessante é que as personagens [de O Processo Violeta] são muito diferentes entre si. Nenhuma delas é integralmente má.

O que quero dizer é que as personagens não são eu. Procuro é olhar à minha volta e ver personagens diferente. Elas próprias também me ensinam algumas coisas sobre os meus preconceitos.

Este romance é passado num tempo em que tudo se criminaliza e nada se compreende. Se um rapaz de 14 anos está apaixonado por uma mulher de 30 deve ser proibido de a amar? “Ah, mas ele foi seduzido pela professora.” Terá sido? E ela terá sido seduzida por ele ou pela loucura que estava de sair do mundo em que vivia?

Não há respostas, há o pôr em questão. Num tempo em que achamos que temos os problemas sentimentais resolvidos porque já sabemos tudo e somos muito livres e liberais, vamos pôr-nos perante casos concretos e pensar. Acho que isso é uma das funções mais maravilhosas do romance.

Qual foi o último livro que a Inês leu?

Há pouco tempo acabei de reler um romance em que disse: isto é tão bom. Foi um livro de que gostei tanto… mas não me lembro do nome. Agora, antes de dormir, tenho estado a ler Peregrinação Interior, de António Alçada Baptista, que recomendo muitíssimo.

Diz que escreve “para interrogar o que existe”. Nos livros que lê encontra respostas?

Vou encontrando. No fundo, a grande resposta que a literatura nos dá e que é fundamental no tempo em que estamos é não julgar. Não é não ter valores; o valor principal é não julgar precipitadamente, tentar compreender em vez de julgar.

Passei a perceber o que era o totalitarismo a partir dos romances do Milan Kundera que li muito jovem. Uma pessoa é contra o regime e vai para a prisão, mas os efeitos no quotidiano de uma pessoa não saber quem está a escutá-la e que pode ser apanhada por uma conversa privada… Viver num mundo em que não se sabe…

Em quem se pode confiar.

E em que não se tem liberdade para fazer nada, para ter opinião própria – a não ser no caso da liberdade sexual, que era o caso das personagens do Milan Kundera. Nunca tinha tido essa perceção, até porque vivi muito pouco tempo num regime que era uma ditadura mas não era totalitário.

A seguir fui ler Hannah Arendt e perceber o que era o totalitarismo. Não é já o censurar, é uma pessoa sentir que não pode sequer mexer-se porque qualquer coisa que faça vai ser detetada. Isso aprendi com a literatura. E acho que se as pessoas lessem romances e percebessem o que já se passou na história da humanidade talvez pudessem prevenir repetições – que nunca são repetições exatas, mas que são variações da mesma coisa.


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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