Gonçalo M. Tavares: “Num mundo irreal seria possível internar uma multidão louca”

O tom é bíblico ou mitológico, uma fábula onde real e irreal surgem misturados, num “estudo sobre a desordem”. Chama-se A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, é o mais recente livro de Gonçalo M. Tavares e inaugura uma nova série ficcional. Depois de O Bairro e O Reino, aqui estão as Mitologias.

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Gonçalo M. Tavares em números

1970
Ano de nascimento, na cidade de Luanda, em Angola.
2001
Ano em que publicou a sua primeira obra: Livro da Dança.
35
Idade com que foi distinguido com o Prémio Literário José Saramago, pelo romance Jerusalém, o que levou Saramago a declarar: “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos. Dá vontade de lhe bater.”
50
Número aproximado de países nos quais os seus livros estão traduzidos.

Como nasceu a ideia para este livro?

Este livro faz parte de um enorme espaço de ficção a que chamo Mitologias. É o primeiro. Muitas destas personagens vão aparecer noutros livros. E muitas outras personagens que não apareceram ainda em A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado vão surgir mais tarde.

É um espaço. Quase como O Bairro ou O Reino. Neste caso, é um espaço mitológico e do mundo do impossível. Interessa-me muito esta suspensão do possível. Levantamos um metro acima do solo o possível e ele fica ali, na expetativa. E fazer também isso um pouco com a História, suspendê-la. Fazer com que os factos possam dissolver-se noutros acontecimentos impossíveis, se afastem das causas e dos efeitos e possam ser ligados a ficções.

É como criar uma história paralela, que mistura factos concretos, reais, com ficções puras, com impossibilidades. É também uma aceleração narrativa. A ideia de que o destino arrasta tudo à frente, as coisas acontecem e não se analisa porque não há tempo, apenas se pode agir, reagir.

É uma parábola sobre a civilização?

Isso depende do leitor, do que ele vê no livro. Penso que, como noutros livros, quero sempre entender os acontecimentos, os factos, os comportamentos humanos. E, muitas vezes, colocando situações improváveis, personagens imaginárias e impossíveis. Escavamos em sítios do solo que não escavamos com outras ferramentas. São diferentes caminhos.

Há muitas interpretações para este livro, para cada episódio. Mas estes acontecimentos não tentam explicar. É uma história. Conta-se a história de uma mulher sem cabeça que é procurada pelos filhos, de um homem de mau-olhado que tem um certo pudor em levantar a cabeça, etc.

Mas não há simbolismos, não gosto de simbolismos. Uma personagem não quer significar outra coisa, um acontecimento não quer significar nem interpretar. Cada interpretação pertence a cada leitor, não a mim. Não quis dizer outra coisa senão aquilo, aquela história.

É mesmo um regresso ao contar tradicional, por um lado, e ao contar mítico. Era uma vez um homem, uma mulher sem cabeça; era uma vez um homem que foi atacado pela Velocidade – como se esta fosse um qualquer animal selvagem. Enfim, há uma mistura, uma fusão entre alguns factos históricos e acontecimentos imaginários e míticos – mas é uma nova história, não quer interpretar nem explicar a outra.


Não gosto de simbolismos. Cada interpretação pertence a cada leitor, não a mim.


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A Mulher-Sem-Cabeça
e o Homem-do-Mau Olhado
Um livro que é uma fábula
“Penso que o material de um escritor não são os géneros literários, mas sim o alfabeto, em primeiro lugar. É essa a sua matéria. Como a matéria de um pintor são as tintas, e de um escultor que trabalhe a pedra é a pedra. E depois os humanos, os acontecimentos, etc.” Gonçalo M. Tavares evita catalogar os seus livros. A ideia de conto, romance, novela, não está presente no seu ato de criação. “Não me parece que a ideia de género literário traga algo de bom para a criação. A criação deve partir daquele material base e não de uma lógica taxinómica de receção.”
Vê neste primeiro livro da coleção a que chama Mitologias qualquer coisa de paralelo com o que fez na série O Reino – de que fazem parte Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a Rezar na Era da Técnica –, que considera “um estudo sobre o mal, ou mais precisamente, sobre a desordem”. Neste, esse estudo continua mas “com a liberdade de estar afastado do real”. Real e impossível estão misturados e, diz Gonçalo M. Tavares, “a quantidade de impossível é bem maior do que a quantidade de possível”.
Se tiver de chamar alguma coisa a este livro será fábula. “Aqui interessa-me a fábula, a narrativa tradicional, a repetição. E há uma energia narrativa do contador de histórias. Que não para para dissertar sobre o porquê ou sobre as causas.”

O medo é central neste livro. O medo é também central neste momento civilizacional. Como lê o medo, hoje?

O medo ou é uma coisa monstruosa ou é algo subtil, de que mal se dá conta, mas existe de forma constante. Há muitas formas de medo e elas andam em definitivo por aí. Há muitas variantes, um medo que vem do terror explícito, um medo pós-terror. E há um medo pré-terror, que receia que a qualquer momento apareça algo de destrutivo, de terrível, de monstruoso. E talvez estes dois medos estejam ligados hoje.

Há um pânico que surge nas cidades que sofrem atentados, logo nos instantes a seguir. A ideia de que a morte, que é intencionalmente enviada ao acaso sobre pessoas de uma cidade, possa surgir de novo a qualquer momento, em qualquer lugar. A tensão que existia em Paris ou em Londres, dias depois dos atentados, é uma tensão terrível. O espaço público torna-se uma ameaça; adquire uma potência perigosa – e até as outras pessoas se tornam essa potência perigosa. Muitas vezes já não há apenas um medo racista, há um medo do humano, de uma forma geral.

Depois dos atentados, as pessoas tentam não se aproximar das outras, afastam-se das multidões e até dos pequenos aglomerados. Sente-se que se afastam fisicamente, algo que pode ser medido quase pela fita métrica. Passam a ser indivíduos atentos e vigilantes, que precisam de espaço à volta para vigiarem qualquer sinal mínimo de perigo. Um ser vigilante é alguém que quer uma espécie de deserto à sua volta para poder ver, pressentir. Há um isolamento humano terrível nos dias pós-atentados nas cidades. E isso é talvez um dos efeitos mais assustadores do medo.

Intui-se a ideia de que civilização pode “evoluir” da anomalia.

Há o que sai do normal e é mais frágil e há o que sai do normal e é mais forte. Julgo que a civilização e a educação começam quando estamos diante daquilo que é mais frágil do que nós. Acho que a civilização, o civil, se forma com a anomalia, ganha ética quando está diante do que é diferente, mais precisamente do que é mais frágil.

Como nomeou as suas personagens e porque apenas cinco crianças, entre elas, têm o que se pode chamar nome?

Os nomes das personagens estão ligados aos seus fazeres, atos, à aparência física. São nomes de acontecimentos. Muitas vezes é como se o nome próprio e o verbo se confundissem. O-Miúdo-Que-Ajuda é um nome e é uma ação. Como se cada personagem se definisse biograficamente pelo ato mais relevante, pelo momento mais alto.

Vejo neste livro uma mitologia que coloca, ao mesmo nível, homens, mulheres, animais, elementos da natureza, máquinas, objetos. O Poço é uma personagem, como é Ber-Lim. Um acontecimento pode ser uma personagem central – ou seja, tem amigos, inimigos, família. As cinco crianças são cinco humanos no meio daquele mundo estranho de seres híbridos. Os Cinco-Meninos que andam pelo meio daquele mundo mitológico a tentar sobreviver serão em livros seguintes personagens centrais destas Mitologias.


O medo ou é uma coisa monstruosa ou é algo subtil, de que mal se dá conta, mas existe de forma constante.


espirito da comedia
O que lê Gonçalo M. Tavares?
As leituras de Gonçalo M. Tavares refletem muito do seu universo criativo. Terminado mais um livro, o escritor lê O Espírito da Comédia, de António Escohotado. “É um livro que reflete sobre a comédia no espaço público. Na política, nos discursos oficiais, nas notícias.” Quanto ao que leu de melhor nos últimos tempos, destaca a poesia do napolitano Erri de Lucca: “Só conhecia a prosa. Gosto daquele tom bíblico, afetivo e forte.”

Nos seus livros, o tempo é quase sempre um tempo bíblico ou mitológico, assim como o espaço. Neste, isso parece mais vincado.

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado é uma ficção instalada num tempo mitológico, sem dúvida. Um tempo que até pode resgatar acontecimentos históricos humanos bem datados, mas que os recoloca numa energia narrativa que não está preocupada com datas, o antes ou o depois. Um tempo que é mais da sincronização do que da sequência, mais ligado à ideia de que tudo pode acontecer ao mesmo tempo. E aqui o tempo é também marcado pela repetição – a sensação de que mais tarde encontraremos o que deixámos para trás. Neste, está muito presente o ritmo das narrativas tradicionais, a repetição de lengalengas ou de atos, que vai, ao mesmo tempo, confortando pela familiaridade e desassossegando pela sensação de que, a qualquer momento, pode acontecer algo.

É um livro político que reflete sobre o poder, questionando o papel das multidões enquanto legitimadoras.

É uma interpretação possível. A multidão está presente, sim, principalmente na questão da cura dos loucos. E é curioso que a maior parte de nós tem um certo receio de multidões. Não há uma crença muito benigna na ação da multidão. Associamos muitas vezes os atos da multidão a atos irrefletidos, fruto do contágio e não da racionalidade. E, no fundo, é isso. Não o queremos dizer, mas muitas vezes pensamos: a multidão é louca. Se fizesse sentido, internávamos uma multidão inteira que fizesse um ato tresloucado. Cada um dos homens seria internado injustamente, pois cada um seria talvez, no limite, inocente. Lá está, no mundo real não é possível, mas neste mundo das mitologias interessa-me a ideia de que possa existir um hospício que interne multidões e não homens isolados. Um hospício e um conjunto de médicos que declarem: esta multidão está louca! E que sejam consequentes: interne-se a multidão! Num mundo mitológico, irreal, seria possível internar uma multidão louca, mantendo livres cada um dos indivíduos que participaram. Gosto da ideia.

Mas, em termos políticos, é curioso que receamos o que pode fazer uma multidão, mas toda a democracia está baseada na multidão. O que é que a multidão decide? Em quem vota? Se as pessoas se juntassem todas numa multidão para votar, ficaríamos assustados. Votar em fila indiana acalma-nos um pouco, o que é divertido e trágico ao mesmo tempo.

Há uma crítica a um tempo comandado pela velocidade, a pressa. O que de mais preocupante a velocidade nos tira?

A velocidade é uma forma mansa de violência, mas não deixa de ser uma violência. Acima de uma certa velocidade deixamos de ver o que está lá fora, deixamos de ver por completo, cegamos. Mesmo em termos políticos.

Escrevi uma vez que a democracia é o reino da lentidão. E ainda bem, acrescento. Por vezes, a lentidão da democracia irrita-nos, claro. O tempo que demora uma lei a ser mudada, a ser cumprida. Mas essa é a parte natural da democracia, a precaução, uma certa sensatez que resulta da discussão. O diálogo nunca é rápido, atrasa sempre. Dialogar não é decidir, é adiar a decisão. Adiar a decisão para encontrar lá à frente aquilo que se acredita ser a melhor decisão. Por isso tenho muito medo quando as democracias aceleram os processos, entrando numa velocidade estonteante. Devemos desconfiar sempre de uma democracia que aprova novas leis a grande velocidade. É um sinal perigoso.

A lei – Aristóteles falava disso – só é lei se é justa e se dura no tempo. Porque se é justa, dura no tempo. Se não dura no tempo, não é justa. Quando rapidamente se troca uma lei por outra e depois por outra, estamos, sem o saber, no campo da dissolução da democracia. Acima de uma determinada velocidade, a democracia corre perigo. Podemos não gostar da ideia de lentidão, mas é assim mesmo. A democracia exige lentidão mínima.


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A normalização e a imprevisibilidade aparecem aqui enquanto ideal – a primeira – e doença – a segunda. É outra vez um questionar deste nosso tempo ou uma característica intemporal?

As histórias aparecem porque aparece o imprevisível. Como se o imprevisível fosse o narrador. Só há história se houver um narrador e só há narrador, alguém que se interesse por contar um conjunto de acontecimentos, se neles existir um qualquer sobressalto. Mas o que é válido para a narrativa muitas vezes torna-se perigoso para uma cidade. A cidade instala uma ordem – é uma grande máquina que tenta limitar o imprevisível. Pode acontecer algo espantoso, mas o espantoso não pode derrubar a cidade no seu todo. A cidade é uma máquina de resistência ao surpreendente.

Um homem sozinho – afastado da cidade – está muito mais frágil, de um certo ponto de vista, muito mais disponível também para o surpreendente. Quando entra numa cidade, entra não apenas num código legal bem claro, mas também numa espécie de segundo código legal urbano, em que a lógica do que é correto fazer está bem presente e produz uma normalização inconsciente. Um louco perigoso na floresta pode continuar à solta; numa cidade, é rapidamente retirado de circulação. A cidade é uma máquina que vai fazendo desaparecer o lixo que se faz em cada casa como se ele não tivesse existido. Para quem não esteja acordado às horas a que passa o carro do lixo, aquele desaparecimento é como o resultado de um ato mágico. E em quase todas as situações anómalas, ou seja, em relação a quase todos os restos, a cidade é rapidíssima na sua eliminação. Há uma incessante ação de tirar corpos da cidade ou do espaço público que de alguma maneira saem da norma – no limite, um cadáver é o maior afastamento da norma de uma cidade. É um espaço para homens vivos se encontrarem, produzirem e reproduzirem. Tudo o resto parece estar a mais.

Mas a cidade não retira apenas corpos, está constantemente a esvaziar-se de objetos estragados ou inúteis, de velharias, de lixo orgânico. A cidade é para mim, quase sempre, o centro das narrativas. Acho-a fascinante. É uma grande máquina e um grande organismo ao mesmo tempo.

Gostava que comentasse esta frase que, penso, resume muito da sua literatura: “Ber-lim foi tratado num hospital psiquiátrico que, em vez de se situar num lugar, se situava num século.”

Este, como os outros livros deste mundo das mitologias, não tem espaço nem tempo reais. Os tempos estão distorcidos, factos reais históricos separados por séculos podem aparecer separados por uma noite, e factos com alguma semelhança com a realidade podem estar ligados a acontecimentos impossíveis. Há tangentes à História, mas é mesmo um mundo paralelo: não se cruza; paralelas que nem se encontram no infinito. É uma outra história. Com uma lógica interna muito própria. Gosto da ideia de cada livro ou de cada mundo instalar uma lógica, uma racionalidade, que é só praticada dentro desse mundo.

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Entrevista: Isabel Lucas
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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