Valter Hugo Mãe: “O escritor é um indivíduo com poucas desculpas”

Valter Hugo Mãe (Créditos - Rita Rocha)Fotografia: Rita Rocha

Valter Hugo Mãe desvenda o título do seu novo livro de contos, explica o processo de escrita e confessa que os seus primeiros rascunhos nascem no ecrã do telemóvel.

 

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Contos de Cães e Maus Lobos

O mais recente livro de Valter Hugo Mãe é uma antologia de 11 contos ilustrados por artistas como Graça Morais, Ana Aragão e Joana Vasconcelos.

 

 

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Veja o vídeo desta entrevista.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

A Loucura Total [risos]. Não, qualquer coisa que tivesse a ver com o imaginário. Tenho uma crónica chamada Autobiografia Imaginária, talvez esse mesmo. Eu tenho a sensação de que a vida é uma coleção de coisas nas quais não acreditamos. Essa dimensão do incrível, a perplexidade com que olhamos para aquilo que afinal somos, interessa-me muito. Acho que é, em última análise, aquilo que nos define. A minha vida daria sempre um título que envolvesse essa dimensão imaginária da factualidade.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

As mais rotundas vieram, desde muito cedo, das imagens e da pintura. Acho que as primeiras coisas que me fascinaram têm a ver com Goya, Velázquez, Francis Bacon ou Paula Rego. E depois, paulatinamente, a música também. De início uma música pop da qual hoje tenho um bocado vergonha, mas a relação que estabeleci com as Variações Goldberg de Bach, com Glenn Gould, com as Suítes para Violoncelo de Bach, foram sempre motores muito fundamentais na minha inspiração. E depois a literatura entra quando eu próprio já escrevo sem me conter e sem me policiar demasiado, porque a necessidade já era tão concreta que eu precisava de escrever. E aí começo a ler outras coisas, quase como uma necessidade de comparação ou de termo de vergonha para ver quanto eu era mauzinho e quanto tudo me deslumbrava. E aí entra a poesia: Fernando Pessoa, Herberto Helder, mais tarde Adília Lopes. São essas as minhas referências.

O que é para si um bom livro?

É quase impossível termos uma definição absoluta do que é um bom livro. Os livros serão bons dependendo da qualidade do leitor. Mas eu afunilei um critério que a mim me interessa encontrar num livro: a capacidade de um autor expressar algo que até ali estaria numa espécie de escuridão. A capacidade de colocar em discurso algo que podemos reconhecer, com que nos podemos identificar e que parece de alguma forma solucionar um problema nosso mas que até ali ninguém tinha expressado daquela forma. O livro tem de proporcionar em vários momentos ou no seu todo um processo de superação. Tem de trazer algo ao mundo do pensamento ou das sensações que até ali pertencia à escuridão.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

É um livro brilhante de Juan Arnau, um livro publicado em Espanha e que eu encontrei na Colômbia, chamado Manual de Filosofía Portátil. Chamou-me atenção porque parecia uma coisa metida a Enrique Vila-Matas, uma ligeireza para a filosofia, mas na verdade é um conceito que o autor traz para uma espécie de visão do intricado do pensamento. É a maneira como o pensamento parece surgir originalmente num determinado indivíduo com um determinado autor mas o quanto ele deve a outros. Por isso é, no fundo, a problematização da originalidade na filosofia. Gostei muito.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

É muito destrambelhada, porque não sou obediente nem a mim próprio. Normalmente o que acontece é que tento seguir as pulsões. É claro que não acredito naquela ideia romântica pura da inspiração – a inspiração é sobretudo uma predisposição para trabalharmos – mas há alturas em que subitamente, e por algum tipo de disposição, o trabalho acontece generosamente. Quase que o texto nos encontra mais do que nós o procuramos. Procuro potenciar esses momentos. Isso faz-se ouvindo a música certa, criando um certo conforto, uma certa fuga. Há uma necessidade muito grande de fuga para encontrar uma disciplina de solidão ou às vezes até de uma certa espiritualidade a quem de Deus. E é isso: fomentar, criar, alimentar esse estado de espírito e depois obstinadamente escrever. É o que me acontece quase sempre: ter tempos de alguma calma e depois passar um período profundamente aflito, porque é um período da aplicação técnica da vontade de ser escritor.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Devo admitir que as primeiras notas acontecem no bloco de notas do telefone, fazendo de conta que estou enviando mensagens a alguém de quem gosto. Às vezes posso passar uma noite inteira entre amigos, num concerto, no cinema; retiro o brilho ao ecrã e, se de facto me estiver a surgir uma boa ideia, substituo a realidade evidente por uma imaginação de escape.


“Preciso de escrever num processo de procura e aquilo que encontro normalmente é uma surpresa para mim.”


 

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Vou muito ao sabor daquilo que vou encontrando. Tenho é uma ideia muito obstinada daquilo que quero encontrar. Há uma necessidade qualquer de responder a uma determinada questão e, por isso, sei mais ou menos o objetivo ao qual quero chegar. Normalmente não faço a mínima ideia do percurso estabelecido, e isso é fundamental. Acho que se soubesse esquematicamente todos os pontos por onde vou passar quando escrevo um livro, não o escreveria. Porque o livro não seria mistério nenhum para mim, não me oferecia descoberta ou entusiasmo nenhum. Preciso de escrever num processo de procura e aquilo que encontro normalmente é uma surpresa para mim.

Como lhe surgiu a ideia do seu novo livro?

Este novo livro chama-se Contos de Cães e Maus Lobos. É um título estranho que eu adoro e é irrevogável. É uma coleção de textos – alguns já eram conhecidos – que aparentemente são dirigidos a um público mais jovem. Admito que, por vezes, não entendo exatamente o que é uma pessoa jovem. Tenho a sensação de que, aos 44 anos, me esqueço do rigor com que se define uma pessoa mais jovem. A honestidade com que escrevo estes textos tem a ver com fazê-los como algo que eu também pudesse querer ler. Por isso fico com a sensação de que eles devem ser bons textos para toda a gente. São 11 contos, ilustrados por 11 ilustradores, e estou muito contente com o resultado.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Tenho uma ideia absolutamente clara do que quero fazer a seguir. Já estou a escrever e inclusive quase a terminar. Mas, ao fim destes anos todos, desenvolvi uma superstição e agora não falo sobre o que vou publicar. Fico com a impressão de que me comprometo. Depois mudo coisas – porque escrevo à procura – e as pessoas dizem: “Então mentiste-me quando disseste que a história era a Carochinha à janela”. E não era mentira. É simplesmente porque eu não sei o suficiente sobre os livros antes que eles estejam efetivamente terminados. Mas espero que seja o meu melhor romance. A grande ansiedade é sempre essa: será possível escrever algo que me satisfaça como nunca me satisfiz?

Qual é a pior parte de ser escritor?

Acho que o mais difícil é que inevitavelmente lidamos com uma permanente consciência. Escrever é um exercício de pensamento, estamos constantemente dominados – pelo menos assim me sinto – pela necessidade de responder a uma ética que nos impõe uma certa timidez, uma certa clausura. Às vezes impõe-nos saber coisas que eventualmente até nos aborrecem mas sobre as quais achamos que não podemos deixar de estar esclarecidos. Essa é a parte mais exigente. O escritor é um indivíduo com poucas desculpas. Podemos eventualmente querer desculpá-lo com aquela coisa genérica de ser artista, mas isso é coisa que não cabe muito na figura do escritor.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Nunca pensem no aparato da literatura, no espetáculo da literatura. O momento em que faz sentido investir em alguma coisa é o momento da escrita. Nunca devemos apressar a escrita de um texto. Nunca devemos achar que as pessoas não vão perceber as deficiências que nós próprios intuímos ou percebemos no texto. A aposta é toda nesse momento. Escrever com a seriedade profunda de quem alcança o melhor de si mesmo e não propriamente com aquele sonho mais imediato de ter um livro nas prateleiras. O sonho deve ser efetivamente o de ter um texto com o qual nos possamos identificar sem vergonha.

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