Enrique Arce: “La Casa de Papel foi uma bênção e mudou a vida de todos”

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A vida de Enrique Arce deu uma volta de 180 graus nos últimos anos. Alcançou o sucesso, perdeu tudo e voltou a conquistá-lo. Agora integra o elenco de La Casa de Papel e do próximo filme da saga Exterminador. Também escreveu um livro: A Grandeza das Coisas Sem Nome. Em conversa com a Estante confessa que a maior transformação na sua vida foi a nível pessoal.


Começou a escrever este romance depois de uma fase menos boa da sua vida. Foi durante essa temporada que descobriu A Grandeza das Coisas Sem Nome?

Talvez sim. Talvez tenha sido o início dessa viagem de transição. Cheguei ao final de um caminho que tinha muito a ver com a procura obsessiva do êxito profissional, em que descobri que a sensação de sucesso não existe e nunca chega a ser aquilo que esperas. Quando cheguei lá e vi que não estava aí a felicidade fiquei um pouco deprimido porque não sabia o que fazer com a minha vida.

Na altura, vivíamos uma muito má época de produção em Espanha, por isso fui para Londres. Foi aí que começou uma fase de desconstrução da minha vida. Passeava muito e estava muito tempo sozinho, porque não conhecia ninguém, e tive a sensação de que o meu propósito na vida era contar estas coisas através da literatura.

Tive uma ideia e comecei a desembrenhá-la e a construir esta história, que é uma viagem de transformação interior. O livro fala de emoções e das coisas que não se podem nomear – que agora têm toda a importância na minha vida – enquanto que coisas como o êxito ficaram para segundo plano.

A Grandeza das Coisas Sem Nome marcou um ponto de viragem na sua vida?

Também. Mas não sei se este livro foi um ponto de viragem na minha vida ou se foi consequência dessa mudança. Comecei a questionar muito e a ler muitos livros de crescimento espiritual. Essa procura faz parte da história. Descobria coisas sobre mim, fazia perguntas e depois escrevia isso no livro.

Tanto era assim que diz que este livro podia chamar-se A Bênção de Bater no Fundo. É nos momentos de dificuldade que descobrimos mais sobre nós?

Completamente. A maioria das pessoas vive na zona de conforto e tem medo de tocar no fundo. Acho que bater no fundo foi a maior bênção da minha vida porque depois só há espaço para subir.

À base de perguntas e da busca por coisas profundas – não só pagar a renda, ter um trabalho e uma família –, procurei a felicidade. O que é a procura da felicidade? A felicidade é polarizada. Procurei sempre com estas coisas sem nome encontrar coisas que não têm polaridade, que são estáticas e que não têm o seu oposto (como a felicidade tem).

Agora acredito que a felicidade é um produto da serenidade e da paz anterior. Podem acontecer coisas fora e não têm importância porque estás sólido por dentro.

Fazer com que a felicidade dependa de nós e não daquilo que nos rodeia?

A felicidade depende normalmente de coisas externas, mas a serenidade do ser e a paz interior não. Ter uma conceção clara de quem tu és e o que estás a fazer na vida é o mais importante. E são coisas sem nome.

Acho que bater no fundo foi a maior bênção da minha vida.

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O livro acompanha a viagem à terra natal de um ator que acabou de receber um prémio. Por mais que nos afastemos acabamos sempre por voltar às nossas origens?

Acho que o Samuel volta para Espanha porque precisava de voltar à infância. Não necessariamente aos lugares, mas às sensações e à infância. Há uma personagem que diz: “A infância é mais larga do que a vida.” Acho que há um bocadinho de realidade nisso. Para curar as coisas e perdoar tens de ir até à infância. É disso que fala este livro: o regresso de um gajo de 40 e tal anos aos 12, quando deixou o seu país natal.

O funeral da irmã é um pretexto para o Samuel regressar sem ter de admitir que é essa a sua vontade?

Totalmente. Ele precisava de algum motivo para voltar, porque depois de 33 anos [fora de Espanha] tinha de haver uma razão forte. Pensei que isso pudesse ser a morte da irmã que estava numa cadeira de rodas. Depois percebemos que ele também teve culpa nisso e que ainda não se perdoou a si mesmo.

Apesar de o romance ser uma ficção, com história e personagem inventadas, o Enrique afirma que este livro é a sua própria “história inacabada”. Há semelhanças entre o Enrique e a personagem principal, o Samuel?

Eu gostaria mais de ser o Enrique [outra personagem do romance], mas ainda sou mais Samuel. Quando construí a personagem do melhor amigo do Samuel, o Enrique, dei-lhe esse nome porque é um bocadinho a ideia que tenho…

De como gostaria de ser.

De como gostaria de ser. Uma pessoa que se perdoou completamente apesar da tragédia enorme que viveu. Que está bem, feliz, a trabalhar. É o amigo que qualquer pessoa gostaria de ter. Mas ainda tenho alguns dos problemas do Samuel.

Numa obra literária tens 300 e poucas páginas para escrever, por isso tens de fazer uma transição rápida, mas na vida tudo acontece mais lentamente. Neste momento estou mais perto do Samuel do final do livro do que do Samuel do início do livro.

Um dos temas que o livro aborda é o vazio do sucesso e a vida de aparências enganadoras que as pessoas levam. Porque nos esforçamos tanto para esconder as nossas vulnerabilidades? Por vergonha que outros as vejam ou porque não as queremos admitir a nós próprios?

É uma boa pergunta. Acho que ser capaz de ser vulnerável é uma grande virtude. Na minha profissão é absolutamente vital. No entanto, se perguntares ao homem ocidental, a vulnerabilidade é considerada uma falha.

Um sinal de fraqueza.

Uma coisa de fraqueza. Para o homem anglo-saxónico, americano, britânico e europeu, ser vulnerável é como ser feminino. Acho que o homem ocidental pensa assim não por vergonha, mas por educação.

A sociedade sempre disse que o homem tem de ser forte e não pode mostrar sentimentos. A educação dos homens foi condicionada para isso. Por isso é que há tantos problemas de comunicação entre mulheres e homens: porque o homem não tem as ferramentas para exteriorizar os seus sentimentos.

E as redes sociais vêm perpetuar esta vida de aparências?

As redes sociais podem ser muito úteis ou muito perigosas. As pessoas que estão a viver atrás do Instagram não estão a viver, só se preocupam com uma fotografia e em como impressionar os outros. Toda a gente aparenta estar em lugares maravilhosos, mas isso não é verdade.

As redes sociais são importantes para profissões como a minha, para dar a conhecer o meu trabalho, mas não para colocar todos os dias uma publicação.

Também sinto uma certa responsabilidade depois do sucesso de La Casa de Papel porque tenho muitos seguidores e penso que de alguma maneira posso usar esta plataforma para ajudar alguém. Mas além disso não me interessa nada.

Não acredito muito no êxito. Já o tive, perdi-o, voltei a recuperá-lo e seguramente voltarei a perdê-lo.

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Diz que, desde que participou em La Casa de Papel, toda a gente o convida para os copos e quer estar consigo. Considera-se, neste momento, uma pessoa bem-sucedida ou sente esse vazio do sucesso?

Eu disse isso?

Sim, numa entrevista anterior.

Oxalá! Sinto gratidão porque La Casa de Papel foi uma bênção e mudou a vida de todos – mais para uns e menos para outros. É melhor quererem ir tomar copos contigo do que esquecerem-se de ti. Mas digo sempre que a situação seria diferente se tivesse acontecido quando tinha 20 e poucos anos, antes de fazer este trabalho de transformação interior durante os últimos dez anos.

Agora sei que tudo é volátil e que esta sensação de sucesso acabará algum dia e converter-se-á em outra coisa. É maravilhoso mas não é estável, e não se pode perpetuar durante muito tempo. Agora toda a gente te abraça, quer inclusive tirar fotografias com o Arturito, que é uma personagem tão odiada. Mas sei que esta sensação tem data de validade. Vivo com a sensação de que já faz parte do passado. E não vivo muito no passado.

Quando La Casa de Papel voltar e voltar a ser um sucesso, logo o viverei no presente. Agora falo porque sei que há muito interesse, mas é como se fosse uma coisa do passado que já aconteceu e não tem muito a ver comigo. Não me projeto nesse sucesso.

Quando ganhámos o Emmy ligavam-me de todos os lados a parabenizar, mas para mim era apenas mais uma notícia. Na verdade, não acredito muito no êxito. Já o tive, perdi-o, voltei a recuperá-lo e seguramente voltarei a perdê-lo.

O que nos pode revelar sobre a terceira temporada da série?

Muito pouco. As coisas que saíram na imprensa, novas personagens… Não é que não queira falar disso, mas não posso. E na verdade também não sei muito mais. Pouco a pouco recebemos os guiões, mas não sei como acaba a história nem o que está a acontecer. A Netflix é muito secreta nestas questões, tem muito medo de fugas de informação. Mas uma coisa prometo: é igual ou melhor do que a anterior.

No livro, o narrador diz “o trabalho de um ator não é representar, representar é a tua recompensa ou a tua terapia”.

O trabalho de um ator é procurar trabalho.

O talento desempenha apenas um pequeno papel no sucesso da carreira de um ator?

Sim. O talento surge quando tiveste a capacidade de ser visível neste mundo. A primeira coisa que um ator tem de fazer é saber gerir a sua comunicação: a capacidade de estar presente no mundo e ser visível. O carisma também é muito importante.

O seu talento, formação e trabalho vêm depois. Primeiro tens de te fazer notar e muitos atores com muito talento não têm essa capacidade de comunicação. Apesar de serem muito bons ninguém lhes dará capacidade de o mostrarem.

São os papéis que desempenham que determinam o sucesso de um ator?

Não necessariamente. O Professor e o Berlin são papéis que têm o poder de condicionar uma carreira positivamente. Mas, para mim, o melhor é ter uma carreira em que fiz muitas personagens. Sei que o Arturito me condicionará por muito tempo, mas fiz muitas personagens diferentes, boas, más, doidas, muitas! Esse é o sucesso para um ator, não ser conhecido por um só papel na tua vida que te levou ao estrelato.

O êxito que não desfrutamos é o mais doloroso dos fracassos. Eu já vivi essa sensação: de ter tudo e não estar feliz.

No livro, uma das personagens diz ao Samuel: “Passas a vida a mendigar o respeito, o amor e a admiração de toda a gente, mas quando por fim consegues isso, quando obténs isso a pulso, não acreditas tê-lo merecido.” Somos os únicos responsáveis pelo que nos acontece na vida, por mais tentador que seja atribuirmos parte dessa culpa a terceiros?

Sempre, sem dúvida. O Samuel é vítima de uma dicotomia muito grande da procura obsessiva do sucesso enquanto vive com a sensação de que não merece esse sucesso. É uma dicotomia completamente maluca. Ele quer obsessivamente ser bem-sucedido para que o seu pai se sinta orgulhoso dele, mas quando o consegue não se sente feliz porque não é a sua natureza. Ele não gosta de ser ator nem de fazer o que está a fazer.

Ele procurava o êxito para que o pai se sentisse orgulhoso – e penso que os homens querem mostrar aos pais que são bons porque ganham muito dinheiro e são muito populares – mas a felicidade não está aí. Quando, como no caso da Samuel, não estás alinhado com o teu propósito na vida, isso é muito doloroso.

O êxito que não desfrutamos é o mais doloroso dos fracassos. Eu já vivi essa sensação: de ter tudo e não estar feliz. Tinha fama e dinheiro e perguntei-me: “Se a felicidade não está aqui, então onde está?” Enganei-me no caminho.

Os traumas de infância podem moldar-nos, mas cabe-nos impedir que nos definam?

Li num livro que 85% de tudo o que nos condiciona inconscientemente se forma até aos 12 anos e custa muito a corrigir.

Mas não há aí uma sensação de fatalidade em que dizemos apenas “fui moldado pela infância, não posso fazer nada”?

Podes dizer isso, mas no final quem vai ser infeliz és tu. Se dizes que a tua mãe ou o teu pai têm a culpa toda, estás-te a tirar poder. E acho que muitos dos problemas das pessoas estão aí: em não aceitar a responsabilidade de que podemos mudar.

O poder da literatura e de um livro em particular de Charles Dickens acaba por precipitar a mudança na vida de uma personagem deste romance.

É uma homenagem ao meu escritor favorito. Li tudo dele. David Copperfield é o meu romance preferido, é o tipo de histórias que gostaria de contar.

Quando falo em Um Cântico de Natal e em Ebenezer Scrooge, que quando chega a velho dá conta de que não mudou nada na sua vida e que já não vai a tempo de mudar, quero dizer que não podemos esperar até sermos velhos.

Há algum livro que possa dizer que tenha mudado a sua vida como este mudou a vida do personagem Enrique?

Não sei. Há livros que me ensinaram muitas coisas, mas um livro que mudou a minha forma de pensar foi Breaking the Habbit of Being Yourself. E o livro mais importante que já li na minha vida foi O Poder do Agora – é o livro mais importante alguma vez escrito.

A nível literário, História em Duas CidadesDavid CopperfieldCem Anos de Solidão e O Inverno em Lisboa são livros que tenho como referências e que guiam a forma como conto as minhas histórias. São os meus “Al Pacinos” literários.

Chegou a dizer que se vê mais como um corredor de 1000 metros do que como um maratonista. Quer isto dizer que olha para a vida a curto prazo sem se preocupar com o futuro?

Tento não pensar muito no futuro e viver no presente. Não é fácil. Sempre tive uma coisa boa, inclusive na minha época mais “escura”: nunca tive medo do futuro. Não me lembro de alguma vez ter experienciado a sensação de medo na minha vida. Medo de fracassar como ator, medo de não ter dinheiro, ciúmes – nunca! São sensações muito destrutivas que nunca compreendi.

Se levas uma vida sem medos é muito fácil que as coisas corram bem. O maior inimigo de uma pessoa é o medo e a curto prazo o medo não existe. Se não estiveres sempre ansioso em relação ao futuro não tens por que ter medo. Por isso digo que sou mais corredor de curtas distâncias.


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Nicholas Dawke e Esfera dos Livros

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