Domingos Amaral: “Gosto de escrever sobre contextos difíceis”

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Apesar de até já ter publicado dois livros sobre a Segunda Guerra Mundial, Domingos Amaral nunca tinha escrito sobre o início do conflito. Até que a filha lhe deu a inspiração que lhe faltava para o seu novo romance, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães.

A Segunda Guerra Mundial continua a ser um tema incontornável da literatura. Porque o decidiu explorar, e em particular as invasões alemãs de França, no seu mais recente livro, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães?

Já tinha escrito dois livros passados durante a Segunda Guerra Mundial: Enquanto Salazar Dormia (cuja ação se desenrola em 1941) e O Retrato da Mãe de Hitler (no fim da guerra). Faltava-me escrever sobre o princípio desse período que foi a época de maior pressão sobre as fronteiras portuguesas, com a chegada dos refugiados.

Há cerca de um ano, a minha filha mais velha, que também se chama Carolina [como a personagem principal], entrou na universidade em Barcelona e foi viver para lá. Esteve lá 15 dias, porque afinal também tinha entrado em Santa Maria e teve de voltar para Portugal. Mas ficou fascinada com Barcelona. Nesse momento, tive a ideia de escrever sobre uma estudante portuguesa que estivesse feliz a estudar em Paris e, de repente, fosse obrigada a sair da cidade.

Depois surgiu a ideia da bicicleta. É curioso que há imensas histórias de pessoas que fugiram de Paris de bicicleta. Até John Kerry, secretário de estado de Obama, quando foi à Normandia festejar os 70 anos do Dia D, fez um discurso em que disse que tinha uma relação pessoal com a Segunda Guerra Mundial porque a mãe vivia na Bélgica e fugiu de lá de bicicleta com um grupo de amigos. Foi começando, assim, a surgir a ideia de fazer uma história sobre uma rapariga e um grupo de amigos que fugiram de bicicleta. Depois também queria ter uma família judaica na história.

Quando se escreve sobre a Segunda Guerra Mundial é incontornável falar dos judeus e das perseguições de que eram alvo por parte dos alemães?

Acho que sim, embora não tenha muitas histórias que envolvam judeus nos outros dois livros que escrevi sobre a Segunda Guerra Mundial. Havia centenas de outras histórias naquela época: espionagem, a relação entre os alemães e os portugueses, e entre os ingleses e os portugueses.

Mas neste período, de facto, a grande maioria dos refugiados eram judeus e, por isso, achei que tinha de haver um grupo de pessoas que pudesse contar essa história. O Aristides de Sousa Mendes ajudou-os imenso com os vistos que lhes passou. Conjuguei todos esses ingredientes para poder contar uma história que também envolve outros personagens, como um piloto inglês, o Rover, que teve um acidente de aviação, ou a americana Polly – sobretudo até 1941, os americanos ainda não tinham entrado na guerra, por isso ainda tinham alguma liberdade para circular em França.

Ela tem algum cuidado a falar do Hitler.

Exato, parece que não os quer ofender, porque os Estados Unidos naquela época ainda eram neutrais. Até aos finais de 1941 os americanos podiam circular livremente em França e muitos deles ajudavam pessoas. Peguei em todos os resultados da pesquisa para compor os meus personagens e contar uma história parecida à que milhares de pessoas viveram.

Achei que o primeiro ano da guerra era uma realidade que ainda me faltava explorar, porque é uma altura em que acontecem várias coisas: Churchill torna-se primeiro-ministro em Inglaterra, Dunquerque cai, a forma como os alemães derrotam França em cinco ou seis semanas, os bombardeamentos das estradas por parte dos alemães enquanto as pessoas fugiam de França, etc.

Depois há a parte da chegada a Portugal, que também foi um bocado como conto no livro: de repente chegaram a Vilar Formoso e eram milhares à espera de poder entrar. A zona torna-se quase um acampamento. Salazar mandou fechar a fronteira durante uns dias, mas depois lá se organizou a entrada. A maioria dos refugiados ficava durante pouco tempo em Portugal.

O facto de já terem bilhetes para saírem do país até lhes facilitava a entrada.

Sim, mas havia outros casos em que tinham de esperar para poderem arranjar bilhetes, vistos e essas coisas todas. Portugal era uma espécie de oásis para os refugiados que vinham de uma Europa totalmente destruída. Bom tempo, praia, ninguém os perseguia. Muitos refugiados guardaram uma memória muito agradável e hospitaleira de Portugal, porque representávamos o ponto de fuga de um continente que estava a ser completamente vandalizado pelos nazis. Era um sítio onde não havia guerra.

Acho que, se olharmos para o regime do Estado Novo, esse pequeno período da guerra é provavelmente o momento em que Portugal é um país mais agradável, porque Salazar tinha dificuldade em controlar tudo aquilo. Ou seja, a guerra permitiu que as pessoas vivessem com algumas liberdades que vão acabar a seguir.

Costumo dizer que Portugal não entrou na guerra mas a guerra entrou em Portugal. Seja por causa dos refugiados ou por causa dos nazis que andavam por cá. As histórias que conto da Gestapo que andava por cá a eliminar pessoas são verdadeiras. Há três ou quatro casos de pessoas que pura e simplesmente desapareceram. Ao mesmo tempo, os refugiados estão cá felizes por não estarem na guerra e por se poderem reencontrar com as famílias.

Esse oásis que diz que Portugal era pode comparar-se ao oásis que é hoje a Europa para os refugiados?

Um bocadinho. Não fazemos ideia do que é viver sem esta estabilidade e segurança, o drama que deve ser para milhões de pessoas de cada vez que há um conflito e o país se desestrutura. Elas olham para nós como um sítio onde podem viver livres e tranquilas, sem receios, o que faz da Europa um lugar privilegiado. Durante a Segunda Guerra Mundial era praticamente só Portugal. Suíça era para os milionários, mas de resto não havia nada. Por isso, acho que Portugal nessa altura funcionou como uma espécie de boia de salvação e um oásis onde as pessoas podiam ser livres, respirar fundo sem medo de morrerem no dia seguinte.

Procurei mostrar o caos da guerra em Paris, as dificuldades da viagem e a chegada a Portugal. Depois tenho a minha Carol a ir à procura do seu Rover outra vez.


Portugal não entrou na Segunda Guerra Mundial mas a guerra entrou em Portugal.


Apesar de o narrador ser o Jack Gil, personagem que já foi protagonista em livros anteriores, ele tem um papel secundário e a personagem principal é a sua prima, a Carol. Quis contar a guerra do ponto de vista feminino?

O Jack é uma personagem que ficou muito forte por causa de Enquanto Salazar Dormia e O Retrato da Mãe de Hitler, por isso achei que devia ser um bom narrador para a história. Já tinha uma consciência muito grande do que era a guerra – mais do que a prima. Mas gostei muito de descrever a guerra do ponto de vista dela. O que sentia, a forma como foi ultrapassando as dificuldades. Depois achei que a própria história das bicicletas era muito gira porque não era óbvia.

Em português, o nome da bicicleta, hirondelle, significa andorinha. Escolheu este nome para simbolizar de alguma forma a viagem constante da Carol entre Portugal e França?

Sim. Hirondelle era uma marca de bicicletas que entretanto descontinuou, mas naquela altura era muito considerada. A Carol consegue comprar uma em segunda mão e torna-se quase uma parte dela, mas é evidente que o facto de hirondelle em português significar andorinha dá-lhe um significado adicional. Havia outras marcas de bicicletas naquela altura que podia ter escolhido, mas o facto de ser a andorinha fazia sentido.

A história de amor que acaba por envolver Carol é também uma boia de salvação que a ajuda a suportar as provações que o tempo de guerra lhe colocam ou o sentimento que nutre pelo piloto britânico é genuíno?

Acho que ela fica um bocado fascinada com ele, primeiro, por causa das histórias que a Polly lhe conta. Depois, porque o primeiro encontro deles é um pouco estranho. Mas acho que o que mais a liga a ele é o seu desespero, porque tem uma pistola apontada à boca. Ela sente que tem de o ajudar.

Mas eles ajudam-se mutuamente.

Sim, ele depois também acaba por ajudá-la. Se fosse sozinha, se calhar a Carol não tinha forças para se ir embora e superar as dificuldades que lhe vão aparecendo. Mas há logo ali uma ligação especial que vai crescendo ao longo da viagem. Acho que se apaixonam mesmo um pelo outro, mas ela depois fica completamente desesperada quando se convence de que ele morreu. Está convencida de que encontrou uma espécie de alma gémea, alguém que era muito fiável e protetor.

A certa altura, o narrador nota que “na literatura, o amor e a morte andavam sempre de braço dado”. O fatalismo de algumas histórias de amor permite dar-lhes uma espécie de final feliz?

Não sei bem se é uma questão de final feliz, acho que tem mais a ver com o fatalismo que há no amor. O amor acaba muitas vezes. Quando estamos apaixonados achamos que não mas, muitas vezes, acaba mal: com morte, com separação. Acho que o final feliz é uma raridade. O que acontece é que a maior parte das pessoas vai tendo vários amores ao longo da vida.

O caso deles é uma situação quase única: nem um nem o outro tinham amado ninguém e têm um amor muito grande mas que desaparece rapidamente. Nesse sentido há um certo fatalismo, mas acho que muitas vezes as histórias de amor têm esse problema – e na literatura isso vê-se quase sempre. Neste caso há um amor improvável, altamente intenso mas que não é mais forte do que as circunstâncias

Há outra relação que duas personagens desenvolvem mais à frente no livro, em que as circunstâncias provavelmente são mais fortes do que o sentimento.

Sim. A Sara é uma personagem especial, não parece estar muito disponível para o amor mas, de repente, sente que a única maneira de conseguir atingir um objetivo é ligar-se afetivamente a alguém de quem não gosta. Não acho que seja bem amor – aliás, acho que ela não é muito de se apaixonar, é mais fria. Mas é uma provação difícil, não é fácil passar por cima das objeções todas que ela normalmente teria ao que está prestes a acontecer.

Até que ponto é que contextos de tensão como a guerra alteram a nossa personalidade ou apenas fazem sobressair aspetos que mantemos escondidos?

Podem acontecer as duas coisas, depende das circunstâncias. Acho que todos temos uma maneira de ser, mas estes contextos obrigam as pessoas a tomar decisões muito complicadas e levam-nas ao limite. A manifestação da personalidade é um bocado condicionada por isso. Uma pessoa como a Sara não faria o que faz se não tivesse receio do que iria acontecer à família. Mas, perante uma certa possibilidade, ela sente uma espécie de dever moral de ajudar.

Acho que em contextos muito complicados as pessoas podem fazer coisas absolutamente boas ou más. Costumo sempre dizer que não me vejo com vontade de matar ninguém mas, se um dia vir uma pistola apontada à cabeça de um filho meu, se calhar…

É muito difícil julgarmos os seres humanos quando são levados a um extremo de violência ou exigência. É bom não termos de passar por esses momentos, mas a verdade é que são esses momentos que dão histórias mais interessantes. Gosto de escrever sobre contextos difíceis. Havia um escritor que dizia que as pessoas felizes não têm história. Épocas conturbadas e caóticas têm uma variedade de histórias humanas que davam para escrever mil livros. É por isso que gosto dessas épocas.


Épocas conturbadas e caóticas têm uma variedade de histórias humanas que davam para escrever mil livros.


Em nome da guerra faz-se muita coisa, mas também há muito que não se faz. É frequente ouvirmos dizer que o potencial de destruição de uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear, é um dos motivos pelo qual ainda não houve um confronto direto entre alguns países. A história deixou-nos mais sábios ou mais medrosos?

Provavelmente as duas coisas. Em período de guerra tudo parece justificado, mas depois há uma espécie de ressaca em que a humanidade fica pesada por ter feito coisas tão violentas. Acho que isso nos torna mais sábios no sentido de tentar evitar que nos volte a acontecer, mas também mais medrosos no sentido de que temos a consciência da violência que pode vir a libertar-se e a cair sobre nós. Mas ao mesmo tempo esse medo faz-nos ser mais sensatos.

Uma das coisas que acho que aconteceu na Europa entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi uma ausência total de sensatez. O final da Primeira Guerra Mundial deixou marcas muito profundas, sobretudo na Alemanha. Isso acaba por ser uma das razões que possibilitam a Segunda, porque há uma espécie de vingança sobre a humilhação que a Alemanha sofreu. Quando França se rende, Hitler obriga-a a assinar o tratado de rendição no mesmo sítio onde a Alemanha o fez na Primeira Guerra Mundial. Inclusive no mesmo vagão de comboio. “Vocês humilharam-nos, agora é altura de serem vocês os humilhados.”

Às vezes tenho a sensação de que os europeus (que não estão agora envolvidos em nenhuma guerra) olham para as outras guerras como “aquilo é lá entre os atrasados e os subdesenvolvidos que estão a matar-se uns aos outros”. Não podemos chamar aos outros atrasados e selvagens quando nós já fomos acusados de selvajaria.

Aliás, a Europa e a comunidade internacional sentiu-se tão mal com o que aconteceu que tentou compensar os judeus ajudando-os a criar o seu próprio estado. Esta ajuda foi uma forma de os compensar ou de admitir que não conseguiam lidar com o problema que tinham gerado?

Desde o século XIX que os movimentos sionistas aspiravam à criação de um país só deles. Acho que a Segunda Guerra Mundial criou na comunidade internacional uma consciência muito forte de que era necessário fazer alguma coisa por aquele povo e acharam que essa era uma solução que não só ia ao encontro daquilo que eles pediam há muitos anos como os compensava. Foi uma maneira de tentar resolver o problema. Não sei se foi a melhor.

Não acabou por empurrar apenas o problema para outra parte do mundo?

Sim, mas a verdade é que aquela era a zona para onde eles queriam ir. Eles são dali. Chega-se à conclusão é de que não foi uma decisão consensual entre os vizinhos e essa situação não estará completamente resolvida enquanto não for aceite por todos. Muitas vezes, Israel também não ajuda com as coisas que faz.

A Europa tem má consciência com os judeus porque aquilo que aconteceu na Alemanha não foi por acaso. Há toda uma história de perseguição europeia aos judeus que já indicava de um mal-estar. A própria Igreja Católica tratou os judeus como os responsáveis pela morte de Cristo durante séculos, o que é um estigma bastante pesado. Portanto acho que há ali um calo cultural, sobretudo durante o século XIX e princípio do século XX, que acaba por criar condições para que algo de mau aconteça. Mas também ninguém imaginou que se pudesse ir tão longe. Agora, o preconceito antijudaico não é só dos nazis. É uma coisa muito europeia.

Se há alguma coisa que surgiu da Segunda Guerra Mundial foi a consciência brutal da violência.

Numa altura em que começam a surgir cada vez mais partidos de extrema-direita para dar resposta aos vários receios das populações, o medo está a tornar-se a força motora da sociedade?

Acho que isso é um dos problemas atuais que entronca um bocado com o que estava a dizer ao princípio. A Europa é um íman para milhões de povos desesperados que olham para o continente como um local onde poderão ser felizes. Porém, a migração de locais e culturas diferentes coloca um problema complicado de gerir. Neste momento, estamos a assistir a uma reação hostil a essa generosidade – que em alguns casos poderá ter sido excessiva – mas prefiro um continente que recebe aqueles que estão em dificuldades do que um que os deixe à porta. Depois pagamos é um preço complicado.

A Europa tem uma população infelizmente cada vez mais envelhecida, portanto menos segura de si própria, que de repente se vê confrontada com milhões de pessoas. Acho que em Portugal não temos a pressão cultural que outros países têm. Tenho amigos em França e compreendo o mal-estar que às vezes dizem que sentem quando estão a andar pelas ruas de Paris e já não reconhecem a cidade deles.

Mas essa situação também não se deve ao facto de esses imigrantes serem todos concentrados no mesmo local em vez de integrados?

Claro. Acho que tudo isso também faz com que depois essas comunidades fiquem mais suscetíveis a ideologias de radicalização. Isso põe as comunidades europeias em grande aflição porque temem a descaracterização dos seus países e a hostilidade dos imigrantes que receberam.

Os discursos de extrema-direita ganham força porque são apelativos e simplistas e colocam estas populações como responsáveis de todo o mal que nos acontece. Aquilo que me preocupa muito é que as correntes políticas mais moderadas ainda não encontraram um discurso capaz de fazer frente ao de extrema-direita. Parece que há um enorme desconforto e não sabem o que dizer às pessoas: não dizem bem nem mal, têm receio. Assusta-me o facto de não haver um discurso alternativo. Enquanto isto não existir, vamos ter de assistir à chegada ao poder de alguns desses partidos. Já está a acontecer em Itália e há outros países onde pode vir a acontecer.

Ao contrário do que as pessoas muitas vezes acham, a Europa não é um continente onde os discursos de extrema-direita não são tradicionais – foi aqui que nasceram todos eles e por alguma razão tiveram tanta adesão na Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, etc. A Europa teve várias ditaduras de extrema-direita. Espero que não cheguemos a esse ponto outra vez. Tirando um ou outro caso, ainda não ganharam o poder em nenhum grande país.


Preocupa-me o facto de as correntes políticas mais moderadas ainda não terem encontrado um discurso capaz de fazer frente ao de extrema-direita.


Em A Bicicleta que Fugiu dos Alemães fala de Guerra e Paz, um livro que considera um dos seus preferidos. Este livro despertou de alguma forma o seu interesse para estas temáticas?

Não tanto. Acho que Guerra e Paz é uma obra absolutamente admirável, que também é passada em tempos de guerra mas se desenrola numa época completamente diferente das histórias que escrevi. Também gira muito à volta das histórias de várias famílias e, nesse sentido, não me parece que tenha sido uma força inspiracional para escrever estes romances. Escrever como Tolstói é quase impossível. Acho que é um dos grandes escritores da história da humanidade. [Guerra e Paz] é, para mim, um dos melhores livros de sempre.

Que género de livros gosta de ler?

Gosto de quase todos os géneros. O mais difícil para mim é gostar de romances sobre a atualidade. Até aqueles que escrevi sobre o presente, tenho alguma dificuldade em gostar deles como gosto dos históricos. No caso dos meus, às vezes enerva-me um certo fenómeno de identificação dos leitores com os livros.

Seis ou sete meses depois do meu primeiro livro, Amor à Primeira Vista, que é basicamente a história de um jornalista que se apaixona por uma apresentadora de televisão chamada Raquel, telefona-me uma pessoa que diz que é a Raquel. Pensava que estavam a gozar, mas afinal esta Raquel também era de Moçambique e apresentadora de televisão, como na história. Até nos chegámos a encontrar, mas havia um pormenor: ela queria ser apresentadora de televisão.

Mas o que me surpreendeu é que, por mais que um escritor tente criar personagens e enredos, muitas vezes a realidade é mais próxima do que imaginamos e existem mesmo pessoas com vidas parecidas. O que quero dizer é que os livros do presente têm este fenómeno de identificação dos leitores que me incomoda um bocadinho.

Mas às vezes é esse fenómeno que nos faz gostar dos livros e criar uma ligação com eles.

Eu sei, mas a mim faz-me confusão estar meses a escrever um livro e depois aparecer uma pessoa que diz que aquela é a sua história. Parece que não criámos nada e não tivemos criatividade, por isso acabámos por “copiar” as histórias que existem à nossa volta.

Já sentiu isso com algum livro que tenha lido?

Isso não. Gosto dos livros por aquilo que eles me revelam que não tenha vivido e não tanto por aquilo que já experienciei. Nada ultrapassa a experiência pessoal que tivemos na vida. Por isso gosto de livros que me contam histórias completamente diferentes da minha, que me acrescentam um universo novo que ainda não tenha descoberto.

Há algum livro em especial que lhe tenha feito isso?

Uma vez perguntaram-me que livros levava se fosse para uma ilha deserta e tenho sempre a tendência de responder cinco: Guerra e Paz, Cem Anos de Solidão, Os Maias, Por Quem os Sinos Dobram e o quinto, para levar um livro de alguém que esteja vivo, era um do Cormac McCarthy que se chama Meridiano de Sangue, passado no oeste dos cowboys, um dos livros mais violentos que li na vida mas muito bem escrito e revelador da natureza humana.

Iam dar ação à sua vida na ilha deserta.

Acho que esses cinco davam para viver um ano na ilha deserta, porque são livros fascinantes sobre a história da humanidade e que nos fazem pensar imenso. Nenhum deles tem a ver com a minha existência. Se um dia quiser ler sobre a minha vida, escrevo uma autobiografia. Mas na literatura não, vou à procura de universos diferentes.

Por: Tatiana Trilho
Fotografia: Bernardo Coelho

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