Daniel Silva: “É difícil imaginar que algum dia deixarei de escrever sobre Gabriel Allon”

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A propósito do lançamento, em português, de A Outra Mulher, perguntámos a Daniel Silva, um dos mais populares escritores da atualidade, como se sente ao perceber que os enredos dos seus thrillers se estão a tornar realidade.

Costuma referir-se aos seus livros como “intrigas internacionais”. A escrita de A Outra Mulher foi inspirada em eventos reais?

Considerando o que se tem passado na Síria e no Reino Unido, bem como na própria política doméstica dos Estados Unidos, acho que estava quase predestinado que o romance de Gabriel Allon deste ano abordasse o tema da Rússia. Sou um estudante da história russa e soviética e adoro escrever sobre esta nova Guerra Fria em que nos encontramos. Simplificando, os russos são maravilhosos vilões fictícios. E isto acontece porque são vilões também na vida real.

Esta não é a primeira vez que escreve sobre as intromissões da Rússia na política ocidental. Como se sente ao perceber que os seus enredos se estão a tornar reais?

Depende do livro. Com O Caso Rembrandt foi gratificante estar à frente da curva quando o vírus Stuxnet infetou o programa iraniano de armas nucleares e os leitores começaram a perguntar: como é que sabia? Mas com A Viúva Negra, uma história sobre um ataque terrorista em Paris, senti-me terrível. Tão terrível, na verdade, que me debati se deveria continuar.

Esse livro começa com um ataque em Paris. Escrevi sobre as ligações entre o ataque em Paris e o bairro de Molenbeek, em Bruxelas, antes de tudo acontecer. Foi muito estranho ver algo que tinha sonhado tornar-se literalmente realidade. Vou ser sincero: inquietou-me. Pensei profundamente em colocar o livro de lado e escrever outra coisa. Mas, no final, senti que não tinha escolha a não ser terminar o que tinha começado. Decidi fingir simplesmente que os ataques ainda não tinham ocorrido no mundo fictício dos meus personagens e completar o livro tal como o tinha pensado originalmente – dizendo algo sobre o Estado Islâmico no processo.

Acho que estava quase predestinado que o romance de Gabriel Allon deste ano abordasse o tema da Rússia.

Referiu, no passado, que nunca planeou ter um personagem recorrente nos seus romances, no entanto Gabriel Allon trocou-lhe os planos e A Outra Mulher marca já a sua 18.ª aparição. É um personagem que vai viver para sempre?

A certa altura gostaria de escrever algo diferente. Esticar as pernas, por assim dizer. Mas é difícil imaginar que algum dia deixarei de escrever sobre Gabriel Allon. Adoro-o, com defeitos e tudo.

Escreve um novo livro a cada sete meses. Sobra-lhe tempo para pôr a leitura em dia? Quais são os seus livros preferidos?

1984, de George Orwell, é o meu livro preferido, com The Quiet American, de Graham Greene, e O Céu Que Nos Protege, de Paul Bowles, muito próximos no segundo e terceiro lugares. Dito isto, se apenas me fosse permitido ler dois livros pelo resto da eternidade, seriam O Grande GatsbyA Terna Noite [F. Scott Fitzgerald]. São bons livros para nos acompanharem; ninguém se cansará de prosa tão luminosa e cintilante.

Está a ler algum livro neste momento?

A verdade é que neste momento ando com uma agenda apertada, pelo que não me consigo dar ao luxo de estar a ler. Mas no ano passado li Medo: Trump na Casa Branca, do lendário jornalista Bob Woodward. Não é apenas um incrível trabalho de reportagem, mas um thriller da vida real.

Quando vem visitar os seus fãs de Portugal?

Tão cedo quanto possível! Sonho com Portugal e mal posso esperar para visitar o país!

 

Fotografia: Marco Grob

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