Sónia Morais Santos (Cocó na Fralda): “O clube de leitura foi a ideia mais extraordinária que já tive no blogue”

Sónia Morais Santos, a autora do blogue Cocó na Fralda, é o rosto por trás de um clube de leitura que tem dado que falar na FNAC.


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No seu blogue Cocó na Fralda diz que criou o clube de leitura em parte para se “obrigar” a si e a outras pessoas a lerem um livro por mês. Porque sentiu necessidade de estabelecer esta meta?

Na verdade, começou com os meus filhos. Eles estavam muito arredados da leitura porque são solicitados para outras coisas mais tecnológicas que ocupam grande espaço na vida deles: os computadores, os iPados telefones… Para contrariar isso achei que era preciso tomar medidas. Mandá-los ler já não estava a dar resultado, portanto decidi criar uma obrigação. Mas como eu e o meu marido também andávamos a ler muito menos, decidimos que essa obrigação seria para todos: tínhamos de ler pelo menos um livro por mês e, no fim do mês, fazíamos uma tertúlia todos juntos em que cada um contava o seu livro.

A coisa começou a resultar muito bem. Começaram muito contrariados mas depois passaram a gostar imenso e a fazer resumos cada vez mais aprimorados, com inteligência e citações. Comentei isso no blogue e disseram: “Isso é espetacular, vou aplicar em minha casa!” Então decidi que era capaz de ser uma coisa gira para instituir no blogue.

Cheia de medo, achei que ninguém ia aparecer no primeiro clube de leitura que fiz, que foi aqui [no escritório no Chiado, em Lisboa]. Mas foi uma surpresa: apareceram logo nove pessoas e depois foi sempre a crescer. Até que me associei à FNAC.

Como surgiu essa oportunidade?

Contactei a FNAC a perguntar o que achavam de fazer uma parceria e acolherem-nos uma vez por mês. As inscrições começavam a ser cada vez mais e aqui [no escritório] já não dava. Precisava de um espaço com livros onde houvesse cadeiras para toda a gente. Por isso lembrei-me da FNAC.

A meta de um livro por mês evoluiu desde que começou o blogue até agora?

Não. No clube de leitura da FNAC as pessoas às vezes leem cinco livros – não é obrigatório ler só um, quanto mais lerem melhor! – mas em casa e no clube a ideia é pelo menos um livro por mês. E às vezes há pessoas que não leem e vão à mesma. Vão ouvir, explicam porque é que não leram, mas participam na conversa. Porque não falamos só de livros. Os livros falam da vida e, portanto, falamos também de vida.

No seu blogue também diz que às vezes as pessoas pensam que o clube de leitura é apenas um sítio onde se partilham sinopses. Que informação é efetivamente discutida nestes encontros?

É muito sobre livros. Não sou de literatura, portanto ninguém espera que vá falar sobre metáforas e analepses. Podemos dizer que foi muito interessante, que os livros faziam essas viagens para trás e para a frente e mencionar esses detalhes, mas o objetivo não é esse. O objetivo é fazermos uma espécie de resumo daquilo que lemos e explicarmos porque mexeu connosco ou porque foi interessante.

Às vezes há pessoas que leram o mesmo livro, mas uma adorou e a outra odiou, e cruzam informação. Temos sempre cuidado para não dizer o fim, porque muitas vezes a explicação do livro interessa tanto que outras pessoas vão ler para a próxima vez. E depois a reboque das histórias das personagens acabamos por contar histórias pessoais.


Precisava de um espaço com livros onde houvesse cadeiras para toda a gente. E lembrei-me da FNAC.


Que balanço faz deste ano e meio do clube de leitura?

Nos dez anos de blogue, esta foi sem dúvida a ideia mais extraordinária que tive – e já fiz imensas coisas! Estou sempre a inventar, porque também me canso de estar sempre a fazer a mesma coisa.

Esta foi a melhor ideia de todas, não só porque me obriguei a ler muito mais mas também porque tenho um feedback extraordinário das pessoas que estão no clube. São pessoas que até podiam já ler imenso, mas agora leem com o prazer da partilha. Porque ler um livro é um ato solitário mas é um prazer partilhá-lo.

Depois há pessoas que levam os filhos que não liam e que agora gostam de ir ao clube, porque é um momento em que estão com adultos e sentem-se crescidos, onde também falam e lhes é dada uma voz igual aos outros, com o mesmo respeito e espaço. Sentem que foi um upgrade na vida deles e começam a ler.

Há lá um miúdo, por exemplo, que já está completamente viciado na leitura – e não lia nada!

Como conseguiram que ele começasse a ler?

Ele começou a ir ao clube e passou a estar presente no meio dos adultos que lhe dão voz. Isso é muito estimulante para alguns miúdos. Para outros não será, mas para aquele miúdo funcionou, achou que era espetacular ir ali todos os meses apresentar o seu livro como as outras pessoas e passou a ler.

E depois o bichinho também se pega. As pessoas começam a aperceber-se que é maravilhoso conhecer histórias, personagens e vivências.

Como decidem os livros que vão ler entre cada encontro?

Durante o primeiro ano cada pessoa lia o que queria. Agora continua assim, mas algumas pessoas pertencem a outros clubes de leitura onde só leem um livro, portanto começámos a alternar: um mês é livre mas no outro lê-se só aquele livro. O meu medo era que ao fim de 10 minutos já estivesse o livro todo esmiuçado.

Que não estimulasse o debate.

Achei que podia ser muito redutor. Se toda a gente lesse o mesmo livro, às tantas já não havia mais nada para dizer. Mas não, as vezes que discutimos só um livro foram brutalmente interessantes. Do mesmo livro as pessoas podem ter leituras completamente diferentes: há os que odeiam e os que adoram. Esse debate é muito rico.


Se toda a gente lesse o mesmo livro, às tantas já não havia mais nada para dizer.


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Qual foi o livro que causou mais debate?

Talvez tenha sido O Estrangeirode Albert Camus. Houve pessoas que gostaram muito – poucas – e houve outras que não gostaram nada. Outro que lemos todas foi Os Despojos do Diade Kazuo Ishiguro. Houve quem achasse a personagem irritante, sem voz nem vontade própria, e outras que gostaram imenso do livro.

É um clube só de mulheres?

Não, é aberto a toda a gente. Só que só aparecem mulheres. Houve uma altura em que apareceram casais mas depois os homens deixaram de ir. Eu acho que as mulheres leem mais do que os homens – e, também, quem lê mais o blogue são as mulheres. Mas, de facto, homens só tivemos dois ou três. Mas seriam bem-vindos.

Há pessoas novas a aparecer todos os meses ou é um clube de “clientes habituais”?

Todos os meses aparecem uma ou duas pessoas novas, às vezes mais. Os assíduos agora são mais de 40, nunca vão é todos ao mesmo tempo.

Uma das coisas mais giras que aconteceu foi em setembro deste ano. Como não houve em agosto, as pessoas levaram imensos livros e o clube demorou três horas. Durante esse tempo as pessoas não tocam nos telemóveis, não há interferência de qualquer espécie, são três horas a falar de livros e de vida. É extraordinário porque já não há muito disso, até à mesa com um amigo estamos com o telefone, e ali isso não existe, estamos todos concentrados nos livros.

Mas uma coisa gira que aconteceu desta vez foi que, no grupo de WhatsApp, elas foram mandando mensagens a combinar um jantar. Eu não pude ir, mas elas foram e foi espetacular perceber que aquilo que criei já ganhou vida própria. Ou seja, lancei a semente e a planta já cresceu. Se desaparecesse, se o clube acabasse, elas já tinham um caminho de comunidade feito.

É um balanço positivo.

Não é positivo, é megapositivo. Há um membro que acho que nunca faltou e que leva sempre vinho e copos de vidro para todas. E é um prazer enorme estarmos ali a saborear um vinho e a conversar. É uma tertúlia à antiga, por isso não podia ser mais positivo.


É espetacular perceber que aquilo que criei já ganhou vida própria. Lancei a semente e a planta já cresceu.


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De que forma é que os seus hábitos de leitura mudaram desde que começou o clube?

Não posso ir ao clube de leitura que criei sem ter lido. Seria uma vergonha. Agora estava viciada numa série – felizmente acabou, porque me estava a roubar imenso tempo da leitura – e já só fui com um livro meio lido das férias. Mas obriga-me a ler, o que me dá um enorme prazer. Muitas vezes damos a falta de tempo como desculpa, mas é mentira: temos sempre tempo para ler. Nem que sejam duas linhas. É o que digo aos meus filhos: não me digas que não consegues ler uma página por noite.

O que é um bom livro?

Gosto de dois tipos de livros. Os primeiros são aqueles cuja história me agarra e quero saber o que aconteceu, como os policiais, por exemplo. Se forem bem escritos e a teia estiver bem construída, fico agarrada que nem uma doida e não consigo parar de ler. É um género que adoro ler na praia.

Os segundos são aqueles cuja história até nem me interessa muito mas está tão bem escrita. Normalmente até são mais livros portugueses. As expressões e recursos de estilo usados são tão especiais que nem quero saber o que aconteceu à personagem, fico só a degustar a escrita.

Mas esses livros têm um lado mau – e os outros também – que é o facto de querer de um dia escrever um romance, mas cada vez que leio um desses livros extraordinários penso: “Ah, não vai acontecer!”

Mas a Sónia já escreveu quatro livros.

Mas refiro-me a um livro de ficção. O que já escrevi foi com base em entrevistas e aquilo que faço no jornalismo. Agora um romance… Quando leio um bom livro penso sempre: “Este gajo é tão bom, nunca vou conseguir!”

Já houve algum livro que começou a ler por recomendação de outras participantes do clube?

Montes deles!

Algum que destaque?

O Retornoda Dulce Maria Cardoso. Adorei esse livro. Ainda por cima uma amiga tinha-mo oferecido há imenso tempo e tinha sempre desculpas para não o ler, mas quando alguém mo recomendou no clube de leitura fiquei rendida. É maravilhoso! Já houve mais, mas é o que me lembro.

Planeia oferecer algum livro no Natal?

Não. Sou aquela pessoa que pensa no Natal dois dias antes. Às vezes um. É à portuguesa.

Se escrevesse um livro sobre a sua vida que título lhe daria?

Ui, que pergunta difícil! Algo que tivesse a ver com a espera ou a morte, que são coisas que me inquietam. Talvez 24 Horas Não Chegam.


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Raquel Wise/4SEE

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