Clara Cunha e Paulo Galindro: “O Cuquedo personifica o mais antigo e universal sentimento do mundo – o medo”

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Clara Cunha e Paulo Galindro têm um novo susto para nós. Em entrevista à revista Estante, a escritora e o ilustrador apresentam-nos O Cuquedo e os Pequenos Aprendizes do Medo, o terceiro livro desta série ilustrada sobre uma pequena criatura que adora pregar sustos que, no entender dos autores, pode ser vista como uma metáfora da humanidade.

O grande mistério dos livros da série O Cuquedo sempre foi: o que é um cuquedo? Os criadores sabem a resposta?

PG: O cuquedo é um bicharoco bastante cabeludo – a antítese de mim, em termos capilares –, irascível e cheio de carisma. Apesar de, literariamente, ter sido criado pela Clara Cunha enquanto lavava a loiça, a sensação que tenho neste momento em que acabei de ilustrar o terceiro livro é que esta criatura sempre existiu no bestiário do mundo e que nós apenas fomos os instrumentos da sua efetiva materialização.

É uma sensação estranha que por vezes raia a loucura: acreditam que cheguei a sonhar que a National Geographic lhe tinha dedicado uma edição especial?

CC: Posso dizer-vos que, sem nos conhecermos nem nunca termos falado um com o outro, eu e o Paulo o vimos com o mesmo aspeto: muito peludo, assim um pouco despenteado, negro como o carvão, pequenote tipo rabino, irrequieto.

O que é um cuquedo? Eu digo que é um animal que não está em nenhum jardim zoológico do mundo e que nunca foi fotografado – nem pela National Geographic. É selvagem, muito selvagem, tão selvagem que ninguém o consegue ver. Mas conseguem senti-lo. E quando o sentem, faz arrepios!

Qual foi a inspiração para criar esta série de livros?

CC: O primeiro livro, O Cuquedo, foi uma agradável surpresa, um surto (muito feliz) de criatividade e inspiração enquanto lavava a loiça do jantar – que é quando a nossa mente não está ocupada e vagueia ao som da água a correr e da espuma do detergente que nos toca suavemente a pele e produz uma ligeira cócega.

Eu tinha um sentido quando o comecei a imaginar, relacionava-se com o medo do escuro – o meu filho Rafael tinha, nessa altura, medo do escuro. Tudo começou com a imagem de um elefante a ter medo de um rato (que é ridícula e divertida). As ideias e os personagens foram nascendo e as palavras e as emoções foram detalhando toda a história. Em vinte minutos nasceu O Cuquedo.

Os outros dois Cuquedos nasceram de ideias comuns, como num debate. “Eu tenho esta ideia”, “eu tenho esta”… e entre nós, autores, e a editora construíram-se hipóteses. Imaginámos vários cenários e procurei aquele que para mim fazia mais sentido e se escrevia já no meu pensamento.

PG: Como um todo, esta trilogia foi fruto de uma interação perfeita entre a autora do texto e o autor das ilustrações. Houve sempre uma maravilhosa empatia entre nós e, acima de tudo, uma abertura total para absorvermos as ideias um do outro nos vários brainstorms que fomos fazendo – sempre, é curioso, no café da FNAC Almada.

Agora que penso nisso, o ecossistema da FNAC foi muito importante para criarmos o ecossistema do Cuquedo.

Nesse sentido posso afirmar que, de certo modo, tanto o texto como a imagem foram feitos a quatro mãos, porque desde sempre estivemos cientes de que este livro teria de nascer de uma simbiose perfeita entre essas duas faces de uma mesma moeda. Sem reservas. Escusado será dizer que ficámos muito amigos.

“O ecossistema da FNAC foi muito importante para criarmos o ecossistema do Cuquedo.”

Paulo Galindro
No mais recente livro da série, O Cuquedo e os Pequenos Aprendizes do Medo, o Cuquedo surge como uma criatura que, apesar de gostar de assustar, até parece bastante inofensiva. Quiseram passar a ideia de que o único medo que podemos ter é do desconhecido?

PG: O medo do desconhecido sempre foi o tema de fundo do Cuquedo. Claro está que essa temática é mais explorada no primeiro livro, mas o bicharoco cuquedo personifica esse sentimento, que é o mais antigo e universal do mundo: o medo.

Penso que é exatamente aí que reside o segredo do sucesso do Cuquedo. Gostamos de sentir medo e, se esse sentimento surgir no conforto e na segurança da cama enquanto os nossos pais nos contam uma história, tanto melhor. Recentemente tenho feito uma reflexão fora da caixa em relação ao universo do Cuquedo e, de um modo geral, em relação ao que chamamos de literatura infantil. Há uma ideia generalizada de que a literatura dita infantil é um género relativamente inócuo, sem grandes pretensões a reflexões profunda e filosóficas. Mas, na verdade, não é assim… Até um livro aparentemente simples como O Cuquedo pode esconder importantes chaves para descodificar e compreender um pouco melhor o mundo que nos rodeia e pôr crianças em tenra idade a Pensar (com “P” maiúsculo, não acidental), que é coisa que parece estar em desuso.

Reparem… um monte de animais anda a correr de cá para lá e de lá para cá, com medo de algo que nunca viram. Surgem mais animais, que vão sendo contaminados por esta onda de medo irracional de algo que ninguém consegue definir com rigor, uma emoção descontrolada que é representada por uma mancha que se vai agigantando no plano de fundo. No final aparece um pequeno animal, com uma imagem tão desfasada da imagem que se foi formando no grupo que ninguém sequer o reconhece como uma ameaça… A montanha pariu um rato, ou melhor, um cuquedo.

Se por momentos desfocarem os pormenores desta história tão simples, o que fica? Uma metáfora da humanidade: as decisões irrefletidas que tomamos quando temos medo; o medo que nos é deliberadamente plantado através dos média (as fake news são disso um exemplo); as pessoas perigosas que, com os nossos valiosos votos, colocamos no poder porque nos prometem defender das causas desse nosso medo irracional; o medo de tudo o que é diferente, seja religião, cor de pele, orientações sexuais… Mas não estávamos só a falar de um livro infantil inofensivo?

CC: O tema fulcral de O Cuquedo é sem dúvida o medo, que no meu ver surge sempre do desconhecido: porque é fisicamente diferente; porque pensa diferente; porque dizem que não é de confiança. O medo surge do desconhecido e da capacidade que o ser humano tem para imaginar e alterar perante ele próprio aspetos que na realidade são simples, transformando-os em verdadeiros pesadelos. O medo está sempre presente na imagem pré-concebida de que “o cuquedo é muito assustador” e vem para assustar.

Neste último livro a ideia principal foi criar uma relação com a família e falar da importante missão que ela tem de educar os “pequenos”. Não é a creche, o jardim de infância, a escola ou a universidade, é a família. A família é o principal educador. Os cuquedinhos precisam dos seus pais para perceberem quem são e como é fácil assustar. No fundo é mostrar que é a família que dá as principais ferramentas para a vida enquanto ser autónomo, individual, único no seu pensamento, enquanto cidadão consciente e responsável, enquanto ser humano.

Pela vida vamos sempre encontrar quem se ria de nós. O importante é que sejamos capazes de ultrapassar algum incómodo que isso nos possa causar. A família é o nosso pilar e a partir dela construímos a nossa casa.

Independentemente da realidade apresentada, é correto dizer que esta série é também, e talvez acima de tudo, uma homenagem à imaginação?

CC: Falar de coisas que não existem, criar elementos ou fantasiar a realidade e transformá-la em acontecimentos fantásticos e surpreendentes onde a realidade é elevada ao infinito… Sim podemos dizer que esta série é uma homenagem à imaginação, como todas as coisas que passam por processos de criação. É muito bom ter esta responsabilidade de poder imaginar e fazer imaginar num processo comum mas tão individual.

PG: Todos os livros são uma homenagem à imaginação: à imaginação dos que os criam, que transformam em palavras e imagens tempestades elétricas que antes só existiam no interior das suas caixas cranianas, e à imaginação dos que os leem, porque pegam nos livros e os traduzem novamente em tempestades cerebrais que ocorrem de forma pessoal e intransmissível dentro das suas caixas cranianas. E ainda daqueles para quem, eventualmente, estão a ler esse livro.

É por esta razão que é praticamente impossível que um filme suplante o livro a partir do qual foi adaptado. Porque todos temos um realizador, um ilustrador, um fotógrafo, um escritor dentro das nossas cabeças.

A narrativa animada, com diálogos alegres e repetitivos que reúnem diferentes personagens, foi idealizada também para levar as crianças a realizarem atividades interativas, como contar a história de memória ou organizar leituras teatrais?

CC: O primeiro Cuquedo foi escrito sem pretensão de edição. Escrevi-o por brincadeira e por necessidade de sair da rotina e me divertir. Aquilo que procurava era um texto desmistificador do medo em que o medo fosse ridicularizado e se tornasse algo divertido, com movimento, sonoramente apelativo. Os Cuquedos seguintes têm como obrigatoriedade a mesma forma do primeiro e respeito todas as suas características com intencionalidade.

PG: Todos os livros que ilustro são pensados de forma a conter o máximo de estímulos, para que possam ser trabalhados de múltiplas formas e interpretações, seja em ambiente escolar, familiar, no teatro, ou de outra forma qualquer que a imaginação dos leitores ditar. Essa é, para mim, uma das funções mais importantes do ilustrador enquanto contador de histórias gráfico: ir muito mais longe do que as palavras, contando a história que lhes está na base mas também as muitas histórias que vivem nas suas entrelinhas.

E depois há os segredos… Gosto de inserir um sem-número de segredos mais ou menos subtis nos meus livros. Alguns são fáceis de descobrir, outros estão tão escondidos que só eu sei da sua existência. Um bom exemplo disto é o livro O Cuquedo e Um Amor que Mete Medo. Entre os vários segredos que contém, um deles, o mais gritante, está na base do terceiro livro da série.

Desde que esse livro foi lançado, sempre fiz referência a esse enorme segredo, e muitas foram as tentativas para o descobrir. Houve mesmo quem dissesse que era uma manobra de marketing. Pois bem… olhem atentamente para a última ilustração. Do lado direito, verão um pequeno palito com linhas azuis e vermelhas. O que acham que é?

“É muito bom ter esta responsabilidade de poder imaginar e fazer imaginar.”

Clara Cunha
Na lista de agradecimentos de O Cuquedo e os Pequenos Aprendizes do Medo, o Paulo agradece à Clara por o ter escolhido como ilustrador do projeto quando ainda só tinha ilustrado um livro. Como foi esse processo?

PG: Quando a Clara Cunha pensou na história, foi desafiada pela editora Livros Horizonte para pensar num ilustrador. De armas e bagagens, a moça foi para a FNAC ver livros. No meio de um sem-número de ilustradores que abundavam pelos escaparates, muitos deles com nomes bem vincados no panorama da ilustração portuguesa, a Clara deparou-se com um livro de findo branco, grafismo minimal, intitulado Chiu!.

Esse livro, editado pela Bichinho de Conto, era o primeiro e único livro que tinha ilustrado até á data, e tinha sido coescrito por mim e pela Mafalda Milhões (razão pela qual fiz questão de também lhe dedicar o novo livro do Cuquedo).

Foi esse o livro que trouxe a Clara Cunha até mim, guiada em parte pela intuição feminina — esse maravilhoso dom das mulheres — e em parte pelo desejo de que o universo estético do Cuquedo se assemelhasse de algum modo ao do Chiu!.

Obviamente que nesta última parte a Clara falhou no seu juízo… Não podiam ser livros mais diferentes e antagónicos.

No mesmo texto, o Paulo revela que foi a Clara que fez “300 dos 1.000.325 cuquedos” que aparecem no livro. Embora isto possa ser um exagero, é verdade que ajudou em algumas ilustrações? Como foi assumir o papel de ilustradora?

CC: Pode até parecer um exagero, mas foram literalmente 300 cuquedinhos, cortados, enrolados e colados. Foi apenas isso, mais um trabalho de equipa. O Paulo precisava de muitos cuquedinhos e o tempo estava a esgotar-se. Ele fez-me a proposta e eu aceitei.

Sou uma grande admiradora do trabalho do Paulo, pelo que para mim foi muito engraçado participar desta forma. Um motivo de orgulho e de desespero. Já não podia ver cuquedos à minha frente.

Como é trabalharem um com o outro? De que forma se organizam?

PG: No primeiro livro a história chegou até mim já escrita. Marcámos uma reunião para nos conhecermos e, a partir daí, os dois mundos começaram a contaminar-se. A minha visão de ilustrador acabou por ditar, entre outras coisas, a ordem com que os animais aparecem, para garantir o máximo impacto cromático. No segundo e terceiro livros tudo foi diferente e a interação muito maior, porque desde sempre sentimos uma responsabilidade enorme por estarmos a intervir num universo que há muito tinha deixado de ser nosso.

A história, os animais, a ambiência das ilustrações, as grandes ideias, a estrutura, o ritmo das palavras e das cenas — tudo isso foi decidido num ambiente de grande interação entre nós. Confesso que ambos estávamos com medo de não estar à altura das expetativas criadas pelo primeiro livro e acabámos por nos apoiarmos um ao outro — sob a égide da Livros Horizonte, que foi também uma peça fundamental em toda esta viagem louca —, transformando esse receio em combustível criativo.

CC: A primeira vez que trabalhámos juntos foi uma partilha de ideias: construção do cuquedo, cor, forma, tamanho, personalidade… Estivemos de acordo em tudo, até porque a minha imagem do cuquedo era em tudo idêntica à do Paulo: pequeno, preto e peludo.

Trabalhar com o Paulo é sempre uma festa. O Paulo verbaliza muito bem e com grande pormenor o que tem em mente, às vezes parece que estamos em direto com a sua criatividade. A maioria das vezes as nossas ideias são compatíveis, outras vezes mastigamos melhor o que temos. Não somos orgulhosos, temos ambos um bom sentido de humor, fazemos avanços, às vezes com cedências. Estas ideias são sempre partilhadas com a Martina Ricci, da editora, que também tem um papel muito importante na conceção do livro.

Quais são os principais desafios de criar livros infantis? É fácil colocarem-se na pele das crianças que vos vão ler?

PG: Quando ilustro um livro, não penso unicamente nas crianças… Penso essencialmente em leitores, tenham eles 3 ou 100 anos. Mas, num processo de algum modo alquímico que não consigo explicar, consigo conectar-me com o miúdo que vive dentro de mim. É algo que acontece para lá do racional e do consciente sempre que tenho de criar algo… Uma fonte de realismo mágico cuja localização muitas vezes nos esquecemos no processo de crescimento.

CC: A diversidade de literatura infantil, hoje, é um mundo imenso. Estar à altura dos novos desafios e criar livros com qualidade, que cativem a curiosidade e o interesse da criança e sejam em simultâneo originais, são verdadeiros desafios. Mas julgo que o maior desafio está na simplicidade. A criança não quer coisas complicadas; o adulto é que é um prodígio em complicar.

No entanto, chegar à simplicidade da criança é como querer desenhar como ela. Por vezes o andar lá perto ainda é muito longe. Mas são esses momentos que eu considero verdadeiras relíquias, que me trazem emoções que, no mundo real, não vivencio porque não estou na pele do Lobo Mau e normalmente não tenho diálogos com animais, nem ando de lá para cá com medo que me assustem.

“Quando ilustro um livro, não penso unicamente nas crianças. Penso em leitores, tenham eles 3 ou 100 anos.”

Paulo Galindro
Enquanto série, O Cuquedo já vendeu mais de 30 mil livros, tendo-se expandido inclusive através de uma edição especial de autocolantes. Como explicam este sucesso? Porque é que as pessoas gostam tanto do Cuquedo?

CC: Porque o cuquedo é muito assustador, prega sustos a quem estiver parado no mesmo lugar. As crianças aprendem o Cuquedo de trás para a frente e de frente para trás, um privilégio que não têm em muitas histórias. Também o suspense de encontrar a criatura que ninguém sabe quem é e apenas se conhece o nome. Por último, e o mais forte dos motivos: o facto de este livro estar diretamente relacionado com o medo, uma defesa mecânica acionada pelo nosso organismo perante factos reais ou não. Funciona como um jogo sedutor.

PG: O medo é a emoção mais antiga e universal da humanidade, pela qual desenvolvemos uma relação de amor-ódio: adoramos ser assustados, detestamos ser assustados. Este nervoso miudinho sente-se nos olhos das crianças quando ouvem as histórias do Cuquedo. Se lhes lerem dez vezes a história, eles vão reagir dez vezes com a expressão de um medo delicioso na última página.

Depois temos a atração das lenga-lengas… Estruturas simples e repetitivas que ajudam a aprender a ler, que hipnotizam, que nos vão preparando para um final épico. E, claro está, porque tenho de “puxar a brasa à minha sardinha”, as ilustrações: animais meio loucos e tontos, com olhos esbugalhados e assimétricos, com padrões, características e acessórias que subvertem e por vezes complementam muito a sua verdadeira natureza — o afia-lápis ao pescoço do rinoceronte é um bom exemplo do que adoro na minha profissão.

O primeiro livro da série, O Cuquedo, ganhou uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração em 2008. O que sentiram quando receberam o prémio?

PG: Um enorme orgulho e um enorme sentido de responsabilidade. Esse prémio permitiu-me ir a Bolonha, a mais importante feira do livro infantil, representar o nosso país. Tudo isto, logo no segundo livro que ilustrei, foi algo que também me assustou um pouco e para o qual não estava de forma alguma preparado. Mas o mais importante de tudo: este reconhecimento teve o importante papel de me dar a injeção de ânimo necessária para perceber, definitivamente, que este meu sonho de ser ilustrador, verbalizado pela primeira vez quando tinha apenas 6 anos, é de facto o caminho da minha vida.

CC: Senti-me muito orgulhosa deste prémio, até porque só veio a provar que a minha escolha no ilustrador tinha sido a mais acertada.

Como encaram o facto de o livro já se encontrar recomendado no Plano Nacional de Leitura para crianças do pré-escolar, entre os 3 e os 5 anos?

CC: Para mim foi uma enorme alegria ter um livro, o único na altura, e este ser recomendado no Plano Nacional de Leitura. Foi um verdadeiro reconhecimento. Comecei a pensar que provavelmente até tinha algum talento para escrever.

PG: Essa recomendação teve também, obviamente, um papel no sucesso do Cuquedo. No fundo, um reconhecimento oficial da importância deste livro na vida das crianças dessa faixa etária.

“O medo funciona como um jogo sedutor.”

Clara Cunha
Quais são as vossas referências na literatura infantil? Há algum autor ou ilustrador de que gostem particularmente e que queiram recomendar?

CC: Eu sou particularmente fã do David Machado. Adoro a forma como escreve, os temas sobre os quais escreve e a simplicidade com que coloca os sentimentos num papel. Pode ser tão divertido e, por outro lado, tão intenso. É sem dúvida uma das minhas musas inspiradoras. Quando crescer quero ser como ele. Um dos livros que nos marcou a todos lá em casa foi O Tubarão na Banheira. Recordo-me que eu e os meus filhos nos ríamos à gargalhada de todas as vezes que o líamos — e ainda foram algumas. 

PG: São muitas as referências, e o perigo de se enumerar algumas é que deixamos para trás outras igualmente importantes. Na ilustração, o meu herói é, sem sombra de dúvida, Oliver Jeffers. Por tudo: pelo trabalho desenvolvido, pela escrita, pelos temas, pela persona e pelo impacto que tem no mundo, em várias áreas. E também a Rebecca Dautrémer, que tem um trabalho de uma sensibilidade que nos deixa em estado de graça.

Atualmente, muita da minha atenção tem-se virado também para o universo da banda desenhada, da arte urbana e da tatuagem, que são riquíssimos e carregados de grandes fontes de inspiração.

Já têm previstos novos livros do Cuquedo no futuro? Que outros projetos podemos aguardar de Clara Cunha e Paulo Galindro?

CC: Para já não temos projetos, ainda estamos com o último Cuquedo em mãos. Mas trabalhar com o Paulo é sempre um prazer, não sei o que o futuro nos reserva. A título individual, um livro escrito e ilustrado por mim, do qual sinto um orgulho enorme. Será a concretização de mais um sonho. Quem disse que os sonhos são impossíveis?

PG: O processo de ilustrar o terceiro livro do Cuquedo — e muito especialmente a tarefa morosa de fazer tantos cuquedos — foi tão demolidor, tão stressante, tão trabalhoso, que neste momento ainda não consigo pensar em mais nada que não seja desfrutar este novo livro e esvaziar a mente nas coisas mais supérfluas e inócuas que conseguir encontrar.

Durante esta travessia do deserto (na verdade, para mim, ilustrar um livro é sempre uma travessia solitária no deserto), cheguei mesmo a desejar com todas as minhas forças que fosse possível viajar no tempo para poder alterar a técnica que escolhi para construir o cuquedo (e, já agora, para conhecer pessoalmente o Jim Morrison, dos The Doors). Acho que ainda tenho partes inconfessáveis do meu corpo com cola branca e linhas pretas.

Quanto a outros projetos, gostava mesmo de poder responder que tenciono passar os próximos serões no sofá, a assistir à série Peaky Blinders. Mas não, tenho já uma série de livros para ilustrar. Como projeto de fundo, quero começar também a escrever os livros que ilustro.

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