Catarina Sobral: “É difícil separar o texto da ilustração”

Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

Catarina Sobral fala em exclusivo à Estante do seu novo livro Tão Tão Grande. Revela ainda que gostava de ilustrar um livro de Richard Zimler e que os filmes são grandes fontes de inspiração para o seu trabalho.

 

Tão Tão Grande

O  novo livro de Catarina Sobral inspira-se em Franz Kafka e explora as várias fases de crescimento de uma criança. Chega às livrarias em abril.

 

Veja o vídeo desta entrevista.


Escreve e ilustra livros para crianças mas disse uma vez numa entrevista que não pensa em crianças quando escreve, escreve muito para si. Pode explicar um pouco este processo?

O Shaun Tan disse uma frase com a qual eu me identifico muito que é: “The artists’ responsibility lies first and foremost with the work itself, trusting that it will invite the attention of others by the force of its conviction” [A primeira e principal responsabilidade de um artista está relacionada com o seu próprio trabalho, acreditando que este chamará a atenção de outros pelo poder das suas convicções]. E eu acho que é isso, ou seja, nós temos de ser fiéis a nós mesmos e àqueles que são os valores orientadores da nossa arte.

E em última análise, eu faço os livros que gostaria de ter. Claro que há um momento da parte da edição, da ilustração, do texto, em que penso na audiência, no leitor. E há coisas que são demasiado complexas para pôr e imagens e que se calhar podem ser tratadas de uma forma mais apelativa. Mas eu acredito que se um livro não é bom para adultos também não o devemos dar a uma criança.

O que significam para si prémios como o da Feira do Livro de Bolonha, por exemplo?

Uma confirmação de que estou no bom caminho. Trouxe-me mais reconhecimento dos meus pares, trouxe-me mais trabalho também a nível internacional, mais editoras estrangeiras a comprar títulos que eu já tinha. Mas sobretudo, maior confiança no meu trabalho.

Há mais responsabilidade?

Sim, muito mais responsabilidade. E o livro que eu fiz depois de ganhar o prémio foi bastante assustador porque sabia que ia ter uma exposição individual em Bolonha com as ilustrações desse livro. Não é brincadeira. Aí tive bastante medo e senti o peso da responsabilidade.

E de que forma lida com esse medo de que fala, ou seja, quando está em processo de construção de um novo livro?

Procuro validar aquilo que estou a fazer com o que já é o meu conhecimento em termos da arte, da ilustração, o que ajuda à leitura, o que é uma composição equilibrada… São conceitos que não são absolutamente objetivos mas que nós treinamos e vamos, enquanto ilustradores, entendendo com o tempo e com o desenvolvimento do nosso trabalho. E tento questionar aquilo que estou a fazer por essas, digamos assim, normas, lá está, que não são absolutamente estanques, mas que nós podemos avaliar. Em termos da área de cor, por exemplo, conseguimos perceber em termos de cores frias, cores quentes, linhas de força numa página, essas pequenas coisas. Vou testando à medida que vou fazendo, não vou fazendo só intuitivamente.

Há algum escritor para o qual gostasse de ilustrar um livro?

Sim, sim, há vários. Gostava muito de ilustrar um livro do Richard Zimler, por exemplo.

Porquê?

Porque ilustrei uma vez um artigo dele para o Diário de Noticias e, além de gostar muito dos livros que tem para crianças, depois de ter ilustrado o texto dele e ter conseguido fazer uma interpretação minha do texto – que é uma das ilustrações editoriais de que eu mais gosto –, acho que gostava de ilustrar uma coisa dele que não fosse um artigo mas que fosse um livro, um picture book.

Que título daria a um livro que descrevesse a sua infância?

Não sei se existe. Não sei descrever a minha infância, sequer.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Muitos ilustradores contemporâneos. A ilustração portuguesa em especial influencia-me bastante, a ilustração espanhola também, checa, polaca, francesa, italiana. Mas sobretudo a ilustração contemporânea portuguesa e as vanguardas artísticas do século XX. E muitos autores, filmes, autores de texto, filmes que vejo e que depois acabo por citar e por colocar nas minhas obras.

Os filmes como fonte de inspiração para o texto ou para a própria ilustração?

Para tudo, mas normalmente mais para o texto. Ou para a ideia. É difícil separar o texto da ilustração. Porque há um texto no álbum ilustrado que está entre os dois, ou melhor, o texto do álbum ilustrado não é só uma das duas linguagens, da verbal e da visual. O facto de elas estarem em simultâneo na página modifica o significado da outra. E esse é que é o texto. E eu só consigo pensar nesse texto, que é esse bolo, essa mistura, essa relação de reciprocidade entre texto e imagem.

Tendencialmente, o que aparece primeiro? É a ilustração ou a frase?

A frase aparece normalmente primeiro para estruturar o livro. A ideia, que é o core, o centro do livro, aquilo que posso dividir quase numa sequência que eu às vezes até faço nos meus workshops que é “o problema, a solução e a catarse”. Isso, que é a ideia geradora do livro, é o que surge primeiro. E isso às vezes não tem cara, às vezes ainda não sei qual é a linguagem visual que vou utilizar. Mas o texto também normalmente é a ultima coisa a ser alterada. Depois de já ter o livro todo pronto, há sempre alguma coisa a fazer no texto. Não são coisas de conteúdo, são mais de construção.

O que é para si um bom livro?

É um livro não estereotipado, que dá liberdade de interpretação ao leitor. Que nesse sentido é desafiante, que o força a criar um texto implícito, a preencher os vazios que o livro não diz.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li foi o Viagens a Roma, gostei muito. Li porque era o livro mais leve que tinha aqui para levar no comboio. Mas gostei muito do livro, achei interessante ver como Roma pode ser tão burocrática. E como os romanos têm uma noção de belo que é tão importante, que para mim também é. Como os romanos confundem os conceitos de “bom” e de “belo”. E que não pode ser bom se não for belo, isso achei muito engraçado. Agora estou a ler Música para Água Ardente, do Bukowski.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Um dia normal em que não tenha de ir a nenhuma reunião ou dar uma aula, trabalho o dia todo em casa. Divido o meu tempo entre responder a e-mails e desenhar. Há dias em que tenho de dar aulas e saio mais cedo e outros em que tenho reuniões ou algum workshop de manhã.

O primeiro rascunho de um texto ou de uma ilustração faz-se à mão ou no computador?

À mão. Às vezes o esboço à mão. Depois faço o esboço no computador, em tamanho real. E depois a arte final à mão. Mas o esboço no computador é importante para ver as cores, é mais rápido do que estar a tentar à mão as cores. No computador é mais rápido. Ao nível da velocidade, as tecnologias ajudam imenso.


“Se um livro não é bom para adultos também não o devemos dar a uma criança.”


Costuma planear todos os detalhes de um livro ou deixa-se levar pelo momento?

Sim, vou-me deixando guiar. O que tenho de definir antes de começar a fazer as ilustrações finais [é] duas ou três ilustrações em que olhe para elas e veja o ADN do livro: o tipo de composição, a paleta, como são as personagens, como é a relação entre os objetos e o fundo… Mas depois vou fazendo, às vezes faço artes finais nalgumas páginas sem ter sequer o livro todo decidido em termos de storyboard. Normalmente tenho o storyboard mas há alturas em que mudo uma ilustração e que depois vejo que encaixa bem.

Como lhe surgiu a ideia de Tão Tão Grande?

Queria fazer um livro para crianças mais pequenas. Por acaso nem sei bem como é que me surgiu. Uma das coisas que nunca fiz foi um livro com um animal como personagem principal. E acho que foi por causa disso, pensei: “Vou fazer um livro para crianças com um animal como personagem principal.” E depois devo-me ter lembrado de A Metamorfose. A ideia do crescimento já era uma das ideias para o livro. Até pensámos em fazer uma régua de crescimento que vinha com o livro ou o próprio livro desdobrado ser uma régua de crescimento.

No livro, inspira-se em Kafka e explora as várias fases de crescimento de uma criança. De que forma adaptou momentos de Kafka a um mundo infantil?

Adaptei a ideia inicial da descoberta de estar num corpo diferente. No caso do meu livro é um corpo mais crescido, não é propriamente um corpo de um animal diferente. Tentei retratar um bocadinho da angústia que a personagem sente enquanto está no quarto, até abrir a porta aos pais e à irmã. E tentei fazer toda a narrativa dentro desse período para conseguir passar essa ideia de que vai descobrindo as mudanças que vão ocorrendo com o corpo dele e a angústia que está a sentir de ser diferente daquilo a que estava habituado.

Estamos a falar de um livro para crianças ou já tem uma componente mais para adolescentes?

Já tem uma parte um pouco mais para adolescentes. Ele vê um bigode, por exemplo. Mas o livro fala mais do crescimento em termos de tamanho. Ele cresce em peso, em apetite. Os sapatos já não lhe servem. E isso são descobertas que nós fazemos normalmente quando somos crianças. A adolescência é uma descoberta um bocadinho diferente.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Já. Mas não quero ainda desvendar porque acho que provavelmente não vou ser capaz de a pôr em pratica. É muito difícil.

Qual é a pior parte de ser ilustradora ou escritora?

Não conseguirmos programar. Temos um trabalho criativo. Eu sei que, em princípio, se eu tiver uma hora para ter uma ideia para uma ilustração, tenho a ideia numa hora. Mas há dias em que é mais difícil ter numa hora. E às vezes penso que consigo terminar uma ilustração numa tarde e leva-me um dia inteiro.

Que conselhos daria a alguém que quisesse enveredar pelo caminho da ilustração?

Dir-lhe-ia que visse muita coisa, consumisse muitas imagens, consumisse muitos livros ilustrados, consumisse capas de livros ilustrados, capas de discos ilustrados, cartazes ilustrados. Acho que só quando temos uma grande bagagem visual é que depois conseguimos criar a nossa autoria. E é uma coisa engraçada porque a raiz das palavras “inventar” e “inventariar” é a mesma. Nós precisamos de ter uma grande inventariação primeiro para depois conseguirmos inventar.

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