Catarina Furtado: “Não há cultura que possa ser defendida quando há uma violação dos direitos humanos”

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Catarina Furtado decidiu escrever sobre a “fase mais incrível” da vida, a adolescência, para inspirar a criação de pessoas melhores. Em Adolescer é Fácil #sóquenão, aborda os problemas que todos os adolescentes enfrentam. E que a própria enfrentou.

Apesar das diferenças que existem no mundo, a Catarina diz que todos os adolescentes são iguais ou, pelo menos, têm as mesmas dúvidas. Este livro é mais uma prova de que somos todos diferentes mas todos iguais?

Sim, acho que é uma prova de que, independentemente do contexto social, a verdade é que cada adolescente sentirá as mesmas angústias, dúvidas, medos, hesitações, alegrias, etc. Porque é uma fase de crescimento em que as hormonas estão verdadeiramente aos saltos, mas é também a fase mais incrível das nossas vidas.

Aquilo que me parece importante dizer é: “Vocês não estão sozinhos. Não são os únicos a sofrer todas estas mudanças. Há não sei quantos mil jovens que estão noutros países cujas vidas são ainda mais complicadas.” Acredito que a comparação e a relativização são aquilo que nos pode trazer alguma serenidade.

A mensagem que quero passar é que são [os adolescentes] que têm agora o poder nas mãos, uma vez que são a maior geração. Por isso não deixem de acreditar em vocês, não se deixem machucar pela pressão – que é maior hoje do que no meu tempo, por causa das redes sociais –, pela competição, pela exigência de ter uma carreira de sucesso… Porque normalmente isso oprime as pessoas (e os jovens ainda mais).

Para este livro fiz uma investigação do que já havia no mercado e, com base nisso, percebi o que poderia faltar e que fosse direto ao coração dos adolescentes. Modéstia à parte, achei que, com a minha experiência enquanto embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) há 19 anos e presidente da Corações com Coroa há sete, tinha autoridade para, de uma forma informal e descomplicada, ser uma ferramenta de auxílio. Queria muito que [os adolescentes] percebessem que a empatia tem de ser trabalhada, que vão ser mais felizes se de facto estiverem mais atentos aos outros.

A Catarina decidiu escrever para adolescentes porque esta é a fase da vida em que aprendemos a distinguir o certo do errado e construímos os nossos valores?

Sim. Acho que se nós, adultos, investirmos verdadeiramente no barro que é a adolescência, vamos ter adolescentes mais conscientes dos seus direitos, com mais proatividade cívica, com vontade de serem cidadãos completos, atentos aos outros, e que não vão ser tão ansiosos com o seu futuro.

Mas as nossas expectativas e ambições para o futuro são condicionadas pela realidade que conhecemos.

Por isso mesmo é que tentei fazer uma triagem da informação que está disponível – se formos ao Google, há tanta informação que os jovens até se sentem atolados. Tentei distinguir aquilo que era essencial e organizei o livro em cinco capítulos. Além disso, fiz uma coisa que acho que é eficaz: dei o meu exemplo. E mais outros exemplos.

Pus o dedo na ferida – uma rubrica em que abordo os tópicos mais polémicos, aquilo que não está bem no mundo – e tentei não ser paternalista. Acho que é muito aborrecido quando um adulto tenta ser paternalista.

O livro tem um prefácio do Ricardo Araújo Pereira e acho que é importante que alguém como o Ricardo, que tem muita influência junto dos jovens, diga: “Olhem, malta, não era mau lerem isto.” E, vindo do Ricardo, acho que eles ouvem.


Queria muito que os adolescentes percebessem que vão ser mais felizes se de facto estiverem mais atentos aos outros.


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Começa o livro a referir que somos uns sortudos só pelo facto de termos nascido em Portugal. O facto de os jovens serem hoje tão protegidos leva-os a negligenciar estes aspetos? Ou esta é uma regalia que até muitos adultos não valorizam?

Há muitos adultos que não valorizam, logo os seus filhos e os jovens à sua volta também não vão valorizar. Acho que é uma premissa que temos de ter para depois podermos ter uma vida mais tranquila. Se não percebermos o privilégio que é estar numa sociedade onde não há censura, onde há liberdade de expressão, onde raparigas e rapazes podem ter acesso à saúde e educação… Há muita coisa para fazer ainda em Portugal e é preciso vontade política para isso, nomeadamente na área da igualdade de oportunidades, mas é um privilégio.

No livro, faço inclusive um mapeamento dos locais onde as raparigas nem sequer têm acesso à educação. Onde muitas vezes abandonam a escola só por terem a menstruação. Mas também falo para os rapazes e digo que vão ser muito mais felizes se, juntamente com as raparigas, investirem na igualdade de oportunidades e de género e dizerem assumidamente que são feministas. Sem medos.

Outra área que achei muito importante abordar foi a da violência no namoro. Aí sim, acho que é uma verdadeira vergonha para Portugal. Acho verdadeiramente vergonhoso termos as estatísticas de violência doméstica – 15 mulheres mortas só este ano – e de violência no namoro que temos.

Sobre a violência no namoro, a Catarina recorda a pergunta de um jovem: “Se dizem que o acesso à educação resolve todos os problemas, como é que explica que aconteçam situações de violência no namoro nesta escola?”

Acho que também aí é muito importante perceber que questões como a violência no namoro, que parecem estar sempre arrumadas numa esfera que tem a ver com…

Os mais pobres e os menos instruídos.

Exatamente. Com a pobreza, com pessoas de famílias menos instruídas… Não é verdade! E esse preconceito tem de ser erradicado de uma vez por todas. Assim como outras questões.

Já me abordaram dizendo: “A Catarina falou sobre as doenças sexualmente transmissíveis?” Falei, sim, porque também aí as pessoas pensam que só acontece a quem não tem informação. Mas não. Essas ideias são tão feitas que depois acabam por virar-se contra nós. Não acontece só aos outros. E a verdade é que a violência no namoro e a violência doméstica são transversais a todos os estratos sociais.


As estatísticas de violência doméstica e no namoro são uma verdadeira vergonha para Portugal.


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Além de falar sobre os problemas que afetam Portugal, também revela muitas das experiências que a Catarina vivenciou no estrangeiro e que a deixaram com uma sensação de injustiça. Lida-se melhor com a injustiça através da tirania ou da democracia?

Se se lida melhor? Com a injustiça lida-se sempre mal.

Mas para resolver esses problemas por vezes é tentador dizer: isto não devia ser assim.

Essa é uma boa pergunta. Acho que a lei tem sempre de existir e se a lei significar a tirania (porque a lei é imposta), então quem não aceder à lei está em incumprimento. Portanto essa é uma forma forçada de chegar àquilo que se quer.

Sou a favor de que as leis têm de estar ao serviço dos direitos humanos e, necessariamente, ao serviço da justiça. Acho que é uma ferramenta essencial, a lei tem de existir.

Por exemplo, até ser punível a mutilação genital feminina na Guiné-Bissau, várias ONG estavam no terreno a tentar consciencializar quer populações, quer praticantes e fanatecas (as mulheres que fazem a excisão). Mas esse era um trabalho mais inglório. Agora têm ao seu lado a lei que proíbe e penaliza o ato da mutilação genital feminina e isso é uma ajuda crucial. Demora sempre muito tempo até que…

Se mudem mentalidades.

Exatamente. Se se tiver de ir primeiro pelo castigo para chegar a uma efetiva transformação dos comportamentos e das mentalidades, sou a favor desde que esteja ao serviço dos direitos humanos.

No livro, a Catarina fala de um princípio fundamental: o de que a nossa liberdade termina onde a liberdade do outro começa. Até que ponto é que criticar estas práticas comuns em determinados países não vai contra esse princípio?

Devemos criticar tudo o que é uma violação dos direitos humanos – e hoje em dia sabemos quais são os nossos direitos e deveres. A cultura existe e deve ser preservada sempre desde que não viole os direitos humanos. No livro, falo muito do casamento infantil, precoce ou forçado. É cultural, está bem, mas estamos a violar drasticamente os direitos das meninas! Não há cultura que possa ser defendida quando há uma violação dos direitos humanos.


Se se tiver de ir primeiro pelo castigo para chegar a uma efetiva transformação dos comportamentos e das mentalidades, sou a favor.


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É frequente atribuirmos a responsabilidade pela perpetuação destas práticas ao machismo e, consequentemente, aos homens, mas o papel da mulher na perpetuação dessas práticas é ignorado.

Porque durante anos e anos e anos a mulher foi – e ainda é – a maior vítima. Se falarmos das grandes violações do mundo vamos chegar sempre ao tráfico humano (que tem sempre uma grande incidência nas meninas e nas mulheres) e às violações sexuais em todos os contextos, inclusivamente nos de ajuda humanitária – esquecemo-nos de que quem mais sofre nos campos de refugiados são as mulheres. Vamos chegar aos casamentos forçados, à não posse da propriedade, ninguém imagina que, em muitos países, uma mulher não pode ter propriedade em seu nome. Vamos chegar à tal história da menstruação que não permite que as mulheres continuem a ir à escola, à mutilação genital feminina e a muitas áreas que, de uma forma muito crua, dizem que as mulheres são as maiores vítimas.

No entanto, as mulheres depois perpetuam isso. Podem perguntar: “Então porque é que ainda há mulheres que mandam as suas filhas para fazerem a excisão?” Porque foram assim ensinadas. Porque leva tempo até perceberem. Porque acham que é o bem. Enquanto não houver uma transformação geral das mentalidades, elas vão sempre achar que aquilo faz parte.

Mas o facto de a ideia generalizada ser a de que as mulheres são simplesmente obrigadas a aceitar esse tipo de comportamentos também não é uma forma de ignorar o papel das mulheres?

Como assim?

Muitas vezes a responsabilidade destas práticas é atribuída aos homens, ao facto de existir uma sociedade patriarcal e ao machismo.

Na mutilação genital feminina até são as mulheres que praticam.

Exato. Mas a narrativa corrente é a de que são os homens que não querem que as mulheres tenham prazer sexual ou que querem garantir a sua fidelidade. Ignorar o papel que as mulheres têm na perpetuação desta prática não é ignorar mais uma vez o seu papel ativo na sociedade?

É uma pergunta muito inteligente, já percebi o que queres dizer. Por isso é que é tão importante que haja mulheres que deem a cara, dizendo exatamente o trabalho que têm feito na mudança dessas mentalidades. É fundamental. Só que essas mulheres estão em muito menor número.

Uma das coisas que digo no livro é que há uma tendência geral para dizer que as mulheres são mazinhas umas para as outras. É mentira. Se continuarmos a perpetuar isso estamos a ser absolutamente machistas.

E a criar um sentimento de desconfiança.

Exatamente. Nesse sentido é importante que as mulheres venham cá para fora e digam que não é assim e mostrem exemplos disso.

Mas, de uma maneira geral, as sociedades são patriarcais. Depois os exemplos que temos têm a ver com o facto de a mulher nunca ter tido voz. Aliás, é muito curioso porque algumas destas sociedades são matriarcais e são as mulheres que mandam lá em casa mas os costumes de violação de direitos humanos são perpetuados. Nesse sentido, é preciso trabalhar nos campos, nos terrenos com essas mulheres, e trazê-las para o espaço de debate político.

Faço muitas reportagens em tabancas (aldeias) e é importante que as associações vão lá retirar as mulheres das suas casas e lhes digam que elas podem ir falar na assembleia geral da aldeia e dizer o que pensam. Para isso o que é preciso? Um trabalho anterior, para que as mulheres saibam escrever e ler, porque normalmente elas nunca sabem e eles [homens] sabem.

Há todo um trabalho que é preciso para dar o empowerment para que a mulher depois sinta que pode ser um exemplo. E quando é, é fantástico. Elas são muito decididas.

Mas, por exemplo, quando as comunidades imigrantes vêm para Portugal, continuam a manter práticas como a mutilação genital feminina apesar de ser ilegal aqui. Como se explica então que essas práticas façam parte da cultura?

O que é muito curioso é que o trabalho que tem sido feito desde que a lei que proíbe a mutilação genital feminina existe na Guiné-Bissau, por exemplo, é que em muitos sítios as fanatecas estão verdadeiramente a pôr a faca de lado. Depois chegamos a Portugal e as comunidades residentes que estão cá – e não são só guineenses (um povo que adoro) – estão a praticá-las. Porquê?

Porquê?

Porque vieram mais cedo para cá e fecharam-se num gueto onde convivem só uns com os outros e em que de alguma forma ficou frisada a mentalidade que trouxeram de lá quando emigraram. É tão contraditório e ao mesmo tempo tão interessante pensarmos que podemos afirmar que em muitas das regiões da Guiné eles estão mais avançados do que num país dito desenvolvido como é Portugal, porque essas comunidades estão a residir em algumas das periferias da nossa cidade e estão a praticar aquilo que praticavam lá. Porquê? Porque é preciso trabalhar estas comunidades aqui.

A falha é nossa?

É. Onde chegamos? À inclusão. Ou à falta dela. A inclusão é fundamental para quebrar estas barreiras.


A cultura existe e deve ser preservada sempre desde que não viole os direitos humanos.


A Catarina começou a fazer voluntariado porque queria proteger os meninos diferentes. A discriminação positiva é necessária para equilibrar a marginalização de que estas pessoas são alvo ou a educação cívica é suficiente para combater estes estereótipos?

Eu recuso-me a chamar a isso discriminação positiva. Não gosto da palavra discriminação. Acho que é melhor dizer que vamos elogiar a diferença. As palavras têm um peso e as palavras feias têm um peso que, se as perpetuarmos, tenho a sensação de que o poder delas vai continuar a escavar território. Portanto prefiro dizer que fui educada, pela minha mãe em especial, a elogiar a diferença e a ver a diferença como uma enorme qualidade.

Numa altura em que existe alguma confusão sobre o conceito de feminismo, medidas como a obrigatoriedade de contratar uma percentagem de mulheres não alimentam as críticas frequentemente apontadas às feministas?

Quando comecei a pensar nestas coisas das quotas comecei a pensar: “Como é possível? É uma benesse? Estão a ser condescendentes com as mulheres?” Na altura irritou-me imenso, mas ainda não tinha investigado muito sobre o impacto que estas medidas tinham tido nos países que as tomaram. O impacto foi muito positivo no que toca a questões de igualdade de oportunidades para as mulheres.

Não há um mundo ideal. Se houvesse não eram precisas quotas. Mas, como não há, nós caminhamos para um mundo ideal e damos passos que espero que sejam gigantes. Se olharmos para trás, havia mais fome no mundo e muito menos crianças a frequentar a escola – nos últimos anos esse número aumentou verdadeiramente – mas há números, como os da igualdade de género, que ainda estão aquém dos objetivos de desenvolvimentos sustentável (ODS).

O mundo está muito melhor, mas ainda há muita coisa a fazer. Por isso, se tivermos de recorrer às quotas, what else can we do?

Uma das escritoras feministas mais conhecidas, Chimamanda Ngozi Adichie, tem uma amiga que estabeleceu um preço simbólico para cada página que a filha lesse.

Estou a tentar fazer isso com a minha filha mas ainda não decidi. Já convidei [a Chimamanda Ngozi Adichie] para uma das conferências da Corações com Coroa, mas não consegui. Era um sonho, mas como acho que os sonhos se concretizam, acho que vou tê-la um dia destes.

Até que ponto é que os pais e educadores têm a obrigação de cultivar o interesse dos adolescentes quando estes não tomam iniciativa?

Até que ponto?

Até ao ponto de…

De subornar? Acho que sim. Há males que vêm por bem. Desde que não seja uma violação dos direitos humanos. Dou um dinheirinho e tu lês um livro. Não tem mal nenhum. Ela [a filha] vai perceber um dia mais tarde.

Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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