Carlos Ruiz Zafón: “Com esta série quis homenagear a literatura”

“Com esta série quis homenagear a literatura”

Aos 52 anos, Carlos Ruiz Zafón é um dos escritores que mais vende em todo o mundo. Natural de Barcelona, onde nasceu em 1962, começou a carreira em 1993, estabelecendo uma forte ligação literária ao seu lugar de origem. “Sou barcelonês, é uma condição”, afirmou nesta conversa em tempo de pausa criativa. Antes de A Sombra do Vento, original de 2001 que o transformou numa celebridade, publicou quatro romances: O Príncipe da Neblina, O Palácio da Meia-Noite, As Luzes de Setembro e Marina. Aliava a ficção à escrita de argumentos de cinema, o que o levou a partilhar a sua vida entre Barcelona e Los Angeles. Mas foi a história à volta do mistério no cemitério dos livros perdidos, explorada em A Sombra do Vento, que mudou tudo na sua vida. Seria o primeiro livro de uma série de quatro que inclui O Jogo do Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011) e, finalmente, O Labirinto dos Espíritos (2016), o fechar de um ciclo sobre o qual o autor falou em Lisboa.

Entrevista por Isabel Lucas
Fotografias de Bruno Colaço/4SEE

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O Labirinto dos Espíritos
Livro de 2016 que encerra a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos.

Passaram 15 anos desde a publicação de A Sombra do Vento, livro que mudou toda a sua vida, um livro sobre livros que vendeu 15 milhões de exemplares no mundo. Isto quando se fala em crise do livro.

Não acredito nessa crise. Haverá sempre lugar para os livros e acho que se criou um mito; há uma espécie de ânsia em querer enterrar os livros. Desde criança que ouço que os livros vão acabar. Não é o fim. As coisas fluem, sobem e descem, e há livros que continuam a funcionar e outros que não. Foi sempre assim. Há gente que lê, que tem interesse intelectual, e muita gente que não, mas isso não é novo. Também há quem passe pela vida sem ouvir música. Não tenho a perceção de que os livros vão acabar. É verdade que escrever é uma profissão dura, não é fácil e, como grande parte das coisas que se fazem, não resulta como se espera, mas é a natureza do mundo.

O sucesso desse romance levou a uma grande atenção sobre si e colou-se-lhe o rótulo do escritor que vende muito, de uma espécie de receita de sucesso. Acha que o olharam com desconfiança?

Falar em receitas de sucesso parece uma coisa tão parva. Claro que pode existir uma receita ou uma fórmula, mas como pode haver uma receita de sucesso? Se existisse, todos teriam sucesso, tudo funcionaria bem. É absurdo. Há tanto uma receita para o sucesso como uma para ganhar a lotaria. A minha grande pergunta é no sentido de saber porque é que algumas pessoas acham que ter êxito profissional no mundo da literatura é sinal de um pecado pelo qual quase há que pedir perdão. A minha pergunta é: quem diz isso e porquê? Quais são as motivações? Será Mozart o pior compositor da História por ser um dos mais tocados? Porque é que na literatura isso acontece? E se são umas poucas pessoas muito concretas que nos querem convencer de que se uma coisa tem êxito ou é má e há que desconfiar, há sempre alguém que nos sussurra ao ouvido o que se deve ler ou pensar. É um insulto à inteligência das pessoas. Tenho êxito como escritor como terá um arquiteto ou um futebolista, um jornalista, um carpinteiro, e não creio que tenha de me justificar por isso.

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Esse romance foi o início de uma série que termina agora. Era a série que queria desde o início?

Tinha a ideia de que os quatro livros seriam quatro portas de entrada e se podiam ler por ordem diferente.

Disse numa entrevista que este quarto livro foi mais difícil de escrever.

Foi.

Porquê?

Por ser a peça que completa o labirinto, que encerra o mecanismo; o lugar onde tudo converge, todas as intrigas, todas as personagens. Isso fez com que tivesse um nível adicional de complexidade, o trabalho de armar tudo para que o quadro se fechasse e a história funcione. Faz parte do trabalho de escritor armar as ficções, as histórias, a arquitetura.


“Haverá sempre lugar para os livros e acho que se criou um mito; há uma espécie de ânsia em querer enterrar os livros.”


O contador de histórias
A experiência de escrever argumentos para cinema acabou por influenciar o modo como escreve romances. Num caso e no outro, está o modo como se conta uma história. “Acho que uma das funções do romance é incorporar toda a experiência”, diz Carlos Ruiz Zafón. E fala aqui sobretudo da experiência do autor. A sua relação com as várias artes, a experiência profissional, a emocional, a de vida, em suma. Por outro lado, “um romance é sempre resultado de uma evolução e, ao longo da sua história, desde o século xix, tem sabido acolher a evolução da sociedade”, acrescenta. E também ajudado a alimentar o modo como se contam histórias em cinema, televisão, publicidade. “Vou tentando incorporar o que aprendo, o que sei, para enriquecer o trabalho e também a experiência do leitor”, refere este autor que se refere ao seu atual momento como de uma maior liberdade criativa em relação à altura em que escrevia para cinema. “Felizmente consegui comprar a minha liberdade”, ri. Agora depende apenas de si. Terminada a série, está a pensar no que fazer a seguir. Há uma ou outra ideia, nenhuma suficientemente amadurecida. Garante que a pausa não o angustia. É, antes, necessária “para que tudo fique mais claro”.
Fala em arquitetura. Faz algum desenho, algum esquema físico para se guiar?

Reúno muito documentos, notas, elementos e arquivos, diagramas… Isso leva muito tempo. Tomo notas, faço cálculos até que alguma coisa surja construída.

Há uma personagem nova, Alicia, crucial neste quarto romance. Como chegou a ela?

É a personagem central deste último romance e uma das personagens-chave da série, sintetiza- a. Tem o papel de desencadear o fim e impulsiona as outras personagens a seguirem os desafios, a cruzarem o fogo e a enfrentarem os seus próprios infernos para chegar à clarificação de tudo. Apesar de só estar no último livro, não é uma personagem menor. É chave em toda a história.

É verdade que se inspirou em Lewis Carroll?

Com esta série quis homenagear a literatura de todos os géneros. No jogo de referências literárias há muitas influências a muitas obras, como Alice no País das Maravilhas e outras mais obscuras que atravessam também os outros livros e são mais ou menos apreendidas dependendo da bagagem do leitor. Há várias camadas possíveis. Cada leitor vai encontrar referências diferentes. É um jogo onde pode entrar ou não; pode passar ao largo e não ver nenhuma referência e mesmo assim apreender a história.

Quando escreve ocorre-lhe uma ideia de leitor?

Pessoas que gostam de ler e gostam dos livros, que têm curiosidade intelectual, queiram desfrutar de uma história, da linguagem, dispostas a aceitar o desafio de jogar com a ficção. Escrevo para esses leitores, ou esse leitor.

Como foi estar tanto tempo com estas personagens, crescer com elas, e agora dizer-lhes adeus?

Não é bem dizer-lhes adeus. Para mim as personagens não vão embora. Quando se acaba o livro ficam, de algum modo, comigo. Mas é como se estivessem envoltas numa cápsula de tempo que fica na cabeça, e é bom que seja assim. Há que descobrir personagens novas. Convivi com estas muitos anos porque queria explorar as suas vidas, vê-las crescer, vê-las desde muitos ângulos de modo a criar uma perspetiva ampla; vê-las através dos pontos de vista de outras personagens para as compreender melhor. Cada um de nós é apenas uma versão do que somos. São muitas as possibilidades, mas há circunstâncias que comandam ações e umas que levam a outras. Interessa-me explorar essa cadeia e tentar responder à pergunta “quem somos?” É muito interessante tentar perceber porque é que as pessoas se transformam no que são. Tentei explorar isso através da vida de muitas personagens. Mas chega um momento em que o círculo está completo e é como se as personagens fossem de férias.


“É muito interessante tentar perceber porque é que as pessoas se transformam no que são.”


O leitor
Enquanto leitor, Carlos Ruiz Zafón diz-se omnívoro. Lê tudo, de todos os géneros, mas admite que, desde há uns anos, mais não ficção do que ficção. Na sua lista de leituras salienta muitos clássicos do século xix, americanos do século xx, desde Faulkner a Fitzgerald, e afirma que não segue os cânones. “Uma das minhas autoras favoritas vivas é Joyce Carol Oates e acho John le Carré um dos melhores escritores dos últimos 50 anos. No entanto, a maioria do que leio é ensaio: livros de história, de ciência, livros de arte. Cerca de 75 por cento é não ficção e 25 ficção. Quando era mais jovem era o inverso.” E refere o grande livro da vida como uma espécie de metáfora. Se tivesse de escolher um único? “Seria incapaz”, admite, acrescentando que todos os livros “merecem respeito”. “São o repositório da mente, da imaginação, da inteligência e do conhecimento. Qualquer livro merece respeito, como as pessoas merecem respeito e as ideias merecem respeito. Esse é para mim um valor fundamental que esta ideia dos livros esquecidos quer transmitir.”
A ideia de jogo está muito presente. Inclusive o jogo com a geografia, o território. Tudo se passa em Barcelona, mas é uma Barcelona fantasiosa.

Barcelona é aqui uma personagem, mais do que um cenário. Eu não queria apenas a descrição de um lugar. Queria que Barcelona fosse uma personagem que incorporasse a Barcelona real, que contemplasse a sua história, a sua geografia, a sua cultura, mas que é mais do que isso. Gostava de lhe dar uma personalidade, criar-lhe uma conotação e elementos de uma personagem e não apenas de um décor. O Cemitério dos Livros é um lugar imaginário e há um ou outro cenário mais que é imaginário, mas 99 por cento do que aparece é real. Mas o livro não é o noticiário da noite, é um romance e, por vezes, há uma loja onde ela de facto não existe. É o jogo da ficção.

Como é escrever sobre Barcelona longe dela? A distância ajuda?

Não sei. O que me interessa é ter um espaço onde trabalhar onde haja calma, silêncio, e onde possa pensar. Pode ser em qualquer parte do mundo. A distância, quando realmente se conhece o que se está a escrever, não é um problema. São mundos muito diferentes. Esteja onde estiver, Barcelona está dentro de mim, da minha cabeça. Conheço os cheiros das ruas de memória. Nasci lá, cresci lá, vivi lá muitos anos. Não se entende um lugar, por mais que se leia sobre ele ou se viaje por ele, como o lugar onde nascemos e crescemos. Há uma relação única. Noutro lugar somos sempre visitantes.

Sente-se um visitante em Los Angeles?

Vivo lá há muitos anos, mas Los Angeles é uma cidade de visitantes. Não é o mesmo que uma cidade velha como Barcelona ou Lisboa. Não é por viver em Lisboa cinco anos que posso dizer que sou de Lisboa. Los Angeles é uma cidade muito jovem que se está a renovar constantemente, onde chega gente de todo o mundo. Pela natureza deste tipo de cidades, as pessoas acabam por entrar na engrenagem. Noutras cidades não é assim. Roma, Barcelona, Lisboa, são o que são e não há como entrar na engrenagem. Há pessoas que passam uma vida inteira a viver nessas cidades e continuam turistas. Ser de Barcelona é essencialmente uma condição. É acidental. Cada qual nasce onde nasce e isso não o faz melhor nem pior.

Há muita gente a querer conhecer Barcelona devido aos seus livros.

Sim, existem diferentes roteiros organizados. Não tenho qualquer relação com isso, mas existem utilizando as descrições dos livros; exploram a história da cidade, a fisionomia.

É mais fácil explorar a ideia de subterrâneo, tão presente nos seus romances, em lugares como estes, velhos?

Sim. A cidade é construída sobre si mesma, em muitas camadas, sobre cadáveres de antigas Barcelonas, com séculos de história, memória, tragédia…

E presumo que é mais fácil explorar conceitos como o de sabedoria, a dicotomia entre bem e mal.

É verdade. E são temas clássicos da literatura. O bem e o mal. As inquietações morais. Porque nos comportamos de um modo ou de outro, porque justificamos os nossos instintos. São a matéria da vida e a essência do que é o mal, o bem. Estes romances tentam tratar os temas clássicos da vida e que a literatura sempre quis explorar. |


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Nestes anos o processo de escrita alterou-se? Foi diferente escrever este último livro e o primeiro?

Não necessariamente. O processo de construir os livros é sempre parecido, mas cada um tem as suas particularidades, põe problemas diferentes. Mas acabam por se construir de forma igual. Planeiam-se, concebem-se, desenham-se e, quando isso está mais ou menos decidido, há que ir à escrita propriamente dita, que é sobretudo um processo de reescrita. Escrever uma e outra vez e refazer tudo, e compor as coisas de forma diferente. Não necessariamente uma ordem linear, às vezes é circular. Numa última fase é quase como de pós-produção. Polir, rearmar, até que funcione. Leva meses ou anos. Mas os dias de trabalho são como os de qualquer outra profissão. Há dias mais rentáveis e há momentos em que se sabe que já rendeu o que tinha a render e não adianta fazer mais nada porque não se vai produzir material usável. Há outros dias em que se consegue resolver o que eu chamo de blocos; pode ser um capítulo ou uma cena que funcione por si na lógica interna da narrativa. É um bloco. Tento resolver um bloco de cada vez e não. Alguns são muito pequenos, como os ladrilhos de um pavimento grande. Pode ser reescrito mil vezes. Questiono cada frase até que saia o que queira, o que tem de ser, até ter noção de que não se pode ir mais longe. Não porque não se possa melhorar, mas porque já não se é capaz de o melhorar.

Como sabê-lo?

É a experiência e é muito difícil. Há um momento em que se começa às voltas. É o momento de parar, sempre que se tenta avançar começa-se a retroceder e se não funciona melhor é porque o construí dessa forma. Sou engenheiro que construiu a máquina e mais ninguém sabe como funciona. A única palavra que se pode escrever é “fim”. Acabou-se e é o que é.

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