Camilla Läckberg: “Uma Gaiola de Ouro é um tributo às mulheres que se defendem”

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Com milhões de livros vendidos em todo o mundo, Camilla Läckberg é um caso sério de sucesso. A autora conhecida como “Agatha Christie sueca” falou com a Estante sobre o seu mais recente romance: Uma Gaiola de Ouro.

Uma Gaiola de Ouro tem um estilo muito diferente de outros romances que já publicou. O que a fez querer mover-se dos romances criminais (e das histórias infantis) e a inspirou a escrever este livro?

Tenho andado com a história de Faye comigo há mais de uma década. Queria escrever uma história sobre uma mulher-demónio moderna e investigar quão longe pode uma mulher ir. Que direito tem ela de se defender e à sua filha? Quanta escuridão podemos permitir numa mulher?

Depois de publicar o décimo livro da série Fjällbacka, A Menina na Floresta, que foi um grande sucesso para mim, perguntei-me: enquanto autora, devo optar por permanecer confortável ou desafiar-me mais do que nunca? O timing fez sentido e orgulho-me de ter ousado sair da minha zona de conforto.

Tal como Faye, a Camilla também nasceu em Fjällbacka, mudou-se para Estocolmo e estudou Economia. Existem mais semelhanças entre vocês?

Na verdade, estudei Economia em Gotemburgo e mudei-me para Estocolmo apenas após os meus estudos. Mas sim, claro que existem semelhanças entre eu e a Faye.

Quando a Camilla se divorciou, criou um negócio de sucesso, um pouco como o marido de Faye. A situação relatada no livro entre Faye e Jack tem alguma semelhança com a sua própria experiência?

Quero realçar que tanto a Faye como Uma Gaiola de Ouro são obras de ficção e que consigo ver partes de todas as mulheres que já conheci na Faye. A Faye e o Jack são personagens ficcionais e, enquanto autora, inspiro-me em todos os lugares, tanto na minha própria vida como nas de outras pessoas, e ainda em coisas que leio e sobre as quais ouço falar.

As zonas de comentários nas minhas redes sociais também são uma grande inspiração. As pessoas partilham histórias e experiências cativantes. Sinto-me agradecida pelos dedicados seguidores que tenho.

Devíamos trabalhar juntos rumo a um mundo em que as mulheres possam fazer tudo o que os homens têm feito sem serem julgadas.

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O início de Uma Gaiola de Ouro centra-se numa mulher que começa a “perder pedaços” dela própria durante o casamento. O abuso psicológico que ela suporta é resultado de um marido abusivo ou de uma esposa demasiado desejosa de agradar?

Acredito que a situação é mais complexa do que isso. A Faye é um excelente exemplo de “boa rapariga”. Uma mulher que faz o que é esperado, cuida de toda a gente e se comporta de forma correta. “Boa rapariga” no sentido de alguém que gostamos de exibir. “Boa rapariga” no sentido de silenciosa. O Jack, de forma mais ou menos consciente, está a tirar partido disto.

Os contos de fadas fazem com que as mulheres acreditem que só encontrarão o príncipe encantado uma vez na vida e que, por isso, têm de fazer tudo o que puderem para o conseguirem manter?

É claro que a narrativa dos livros e filmes românticos reforça a imagem de que existe um príncipe encantado pronto para te salvar e de que só existe uma história de amor imaginável na vida inteira. Com a Faye quis mostrar que é possível libertarmo-nos destas normas e criarmos uma vida só nossa, não obstante a pressão da sociedade.

A certa altura o narrador refere que as mulheres “viram a raiva para dentro, contra si próprias”. E acrescenta: “Meninas bonitas não discutem. Meninas bonitas não levantam a voz.” Quem é responsável por este padrão comportamental?

A responsabilidade recai em toda a gente. Em nós enquanto sociedade. A sociedade adora julgar as mulheres. No trabalho, em casa. Enquanto mães é suposto que forcemos os nossos corpos e almas a obedecer. Acima de tudo, não podemos criar caos. Mas devíamos trabalhar juntos rumo a um mundo em que as mulheres possam fazer tudo o que os homens têm feito sem serem julgadas ou cuspidas por outras mulheres, homens ou pela sociedade.

No livro as mulheres unem-se em redor de um único propósito: vingança pelas crueldades a que os homens as submeteram. Poder feminino é sinónimo de retaliação contra os homens?

Poder feminino é quando as mulheres se unem. Geralmente o sentimento de grupo torna-se mais forte quando estás unida na luta por um objetivo comum.

Acredito que atualmente é bastante fácil prestar tributo à irmandade, mas honestamente apenas quando a lealdade ao homem não é desafiada. Quando a mulher coloca em primeiro lugar a lealdade a si própria ou a uma amiga, a irmandade torna-se ameaçadora e não feminina.

Uma Gaiola de Ouro é, na verdade, um longo e afetuoso tributo às mulheres que se defendem e são leais a outras mulheres, que é algo que eu valorizo.

A redução da disparidade salarial entre homens e mulheres é uma causa importante para si. Que progressos considera que a sociedade tem feito nessa direção?

Felizmente as coisas têm melhorado mas as melhorias têm-se verificado de forma bastante lenta. A empresa de investimento da qual sou cofundadora luta por uma representação mais igualitária no domínio dos negócios. Também queremos fortalecer o desenvolvimento de produtos e serviços com o intuito de dar mais poder às mulheres e promover o empreendedorismo feminino.

Traição e vingança são temas fascinantes. Podem evocar em nós coisas que ainda não conhecíamos.

O narrador também escreve que, no geral, todas as mulheres terão sido traídas por um homem pelo menos uma vez e que, apesar disso, são elas que se sentem envergonhadas. Isto acontece, pelo menos em parte, devido à sensação de constante competição que existe entre as mulheres?

Pode ser parcialmente devido a isso, mas também a um sentimento de fracasso criado pela sociedade: para sermos bem-sucedidas devemos fazer parte de uma entidade estável, uma família com um marido e filhos bem-comportados, e cingir-nos às normas. Traição e vingança são temas fascinantes. Podem evocar em nós coisas que ainda não conhecíamos.

A Faye teve uma infância atribulada que procura esconder. Se a nossas fraquezas aparentes acabam por ser as nossas forças, porque nos esforçamos tanto para as enterrar?

Pode ser difícil perceber que algo que é visto isoladamente como fraqueza pode, na verdade, ser uma força. Criticamo-nos muitas vezes em grande medida, o que cria uma imagem distorcida de nós próprios.

A necessidade de transmitir aos outros que vivemos uma vida perfeita move a sociedade numa altura em que as redes sociais parecem ter mais poder do que qualquer outra força?

É fácil ficar com uma imagem unilateral de alguém quando olhamos apenas para o seu feed nas redes sociais, onde a maior parte do que é apresentado é perfeito. É ainda mais fácil ser seletivo e escolher cuidadosamente quais são as partes da nossa vida que queremos mostrar. Mas na Suécia os influenciadores e outras figuras até tendem a falar mais abertamente sobre os seus problemas psicológicos e outros assuntos nas redes sociais.

A minha entrada no mundo da leitura foi através da BD. O meu pai encorajava todas as formas de leitura, o mais importante era ler e descobrir o amor pela literatura.

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Voltando a Fjällbacka, a sua cidade natal e o título da sua série mais conhecida, que tipo de aventuras ou mistérios viveu por lá para lhe terem inspirado tantos romances criminais?

Acho que até tive uma infância e uma adolescência bastante “normais”. A razão pela qual situo nesta cidade os meus romances criminais é apenas porque a conheço perfeitamente. Tem sido, por isso, o cenário perfeito para os meus textos. Além disso, é muito interessante criar crimes tão horríveis num ambiente tão pacífico. Há algo excitante neste contraste.

Considera a versão “sombria” que criou da história do Pai Natal, quando tinha apenas cinco anos, a sua entrada no mundo dos romances criminais?

Na verdade, sim! Curiosamente, diverti-me tanto a escrever sobre esse assassinato brutal que se tornou a forma como ganho a vida hoje em dia.

Foi o seu pai que lhe passou o amor pela leitura. Quais eram as suas inspirações literárias nessa altura?

A minha entrada no mundo da leitura foi através da banda desenhada. O meu pai encorajava todas as formas de leitura, o mais importante era ler e descobrir o amor pela literatura. Um pouco mais velha tornei-me uma grande fã dos incríveis romances de Agatha Christie e continuo a tê-la como uma grande inspiração. Miss Marple e Poirot ensinaram-me a importância de dedicar grande parte do meu tempo a explorar os meus personagens principais.

Ainda reserva tempo para ler?

Ler é uma das melhores coisas que há! Ler muito é fundamental para um autor, especialmente no começo, quando ainda somos um pouco “verdes”, para nos inspirarmos e encontrarmos a nossa própria voz.

O que tem lido mais recentemente?

Leio livros escritos pelos meus colegas escandinavos. Acho que é, ao mesmo tempo, fascinante e inspirador manter-me atualizada quanto ao género e saber o que está a acontecer. Uma das minhas descobertas mais recentes foi Pascal Engman, uma estrela em ascensão no que diz respeito a romances criminais. Os seus primeiros dois livros estão escritos com um ritmo incrível e uma grande paixão por justiça social. Leem-se num instante!

Ler é uma das melhores coisas que há! É fundamental para um autor.

Disse um dia que a primeira coisa que escreve é o final do romance. Sente-se tentada a espreitar o final dos livros de outros autores quando os está a ler?

Tento não o fazer! Dependendo do género, pode ser uma melhor experiência não espreitar antes de chegar lá. Tento não me apressar e desfrutar a viagem.

Já nos consegue dizer quais serão as últimas palavras do seu próximo livro?

Oh, isso ainda é um trabalho em desenvolvimento. Já tenho os contornos pensados, mas ainda estou a estruturar tudo na minha cabeça. E a descobrir mais sobre a Faye. Gosto muito dela e espero que a fiquem a conhecer ainda melhor no próximo livro!

Por: Tatiana Trilho

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