C. J. Tudor: “A comparação com Stephen King é inevitável”

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Depois do sucesso de O Homem de Giz, C. J. Tudor falou com a Estante sobre o seu novo livro, Levaram Annie Thorne. E não fugiu das comparações com Stephen King, que considera um mestre a contar histórias.

O seu novo livro, Levaram Annie Thorne, começa com um homicídio macabro. Quando a lógica não consegue explicar certas ações, é tentador procurar uma explicação sobrenatural?

No início do livro não sabemos nada do que se está a passar. Não sabemos porque esta mãe matou o filho ou qual o significado da mensagem que escreveu na parede: “Não é o meu filho.” Queria manter iguais as possibilidades de os leitores descobrirem o que se passou. Muitos dos mistérios têm uma resposta da “vida real”. Depois, sim, quis enveredar por um caminho mais relacionado com o horror e o sobrenatural.

Mas acho que é importante dar às pessoas uma explicação realista, de modo a que tirem as suas próprias conclusões, mesmo que deixemos algumas pistas de que algo sobrenatural está a acontecer. Acho que é importante dar outras explicações para que tudo esteja assente na realidade e as pessoas não se sintam “enganadas” com as respostas que vão surgindo.

Assim, se lerem o livro apenas como um thriller, vão gostar dele. Mas se gostarem de livros que se tornam estranhos, assustadores e entram num terreno mais obscuro, também vão desfrutar.

Esse aspeto sobrenatural já é uma característica da sua escrita e dos seus livros.

Sim, é. Em O Homem de Giz acho que esta característica estava mais implícita – era mais óbvia. Neste livro quis enveredar por um caminho mais de horror sobrenatural, porque gosto muito desse género e quis misturá-lo com o mistério. Por isso optei propositadamente por uma história mais obscura, mas acho que quando levamos uma história para essa direção temos de fazer com que tudo o resto seja ainda mais convincente e realista.

Quando começou a escrever Levaram Annie Thorne, o título era Os Residentes.

Sim, era. Com um duplo significado, no sentido em que eram os residentes desta pequena aldeia isolada e também no sentido do que mais poderia estar escondido.

Pensei que o título tinha sido alterado porque tinha receio que Os Residentes denunciasse muito da história à partida.

Estranhamente decidimos mudar o título porque a minha agente disse que soava a uma cidade com habitantes muito velhos. Tentámos vários títulos para este livro. O Homem de Giz foi fácil porque criámos o título e toda a gente adorou. Com Levaram Annie Thorne pensámos em várias hipóteses, mas foi a minha editora que insistiu que incluíssemos um elemento humano no título – que acrescentássemos o nome da Annie. E tinha razão, acho que funciona muito bem e confere-lhe um tom sinistro e assustador.

A personagem principal é o irmão de Annie, Joe, que volta à sua cidade natal para descobrir o que aconteceu de facto com a irmã. Há demónios que nunca deixam de nos assombrar?

Sim. Acho que em ambos os livros há uma temática muito interessante: alguma vez deixamos de ser a criança que éramos, mesmo em adultos? Ou vamos apenas pondo várias camadas em cima dessa criança à medida que crescemos?

Acho que quando voltamos à nossa cidade natal descobrimos exatamente isso. Podemos pensar que estivemos afastados daquele sítio muitos anos e nos tornámos uma pessoa muito diferente, mas quando voltamos tornamo-nos outra vez essa criança. Tenho amigas desde os sete anos e, de cada vez que nos juntamos, voltamos aos papéis que tínhamos enquanto crianças.

Por isso, sim, o Joe está de volta à aldeia onde há muito anos a sua irmã desapareceu (e regressou, mas mudada). Vinte e cinco anos depois o Joe volta porque recebe uma mensagem de alguém a dizer que sabe o que aconteceu à irmã – e que está a acontecer de novo. Volta para encontrar respostas, mas como tem uma personalidade difícil – problemas com o jogo, dívidas, etc. –, também volta para se afastar de algumas pessoas e situações desagradáveis. E acaba por reencontrar os seus amigos de infância. E inimigos.

O Joe acha que voltar à cidade natal vai de alguma forma consertar a sua vida?

Acho que o Joe, por um lado, está muito relutante em voltar, mas por outro sente que é inevitável. Há uma parte no livro em que ele diz isso mesmo: que sempre teve a sensação de que iria voltar. Acho que ele volta não necessariamente porque quer mas porque sente que tem de o fazer, uma vez que o que aconteceu há 25 anos nunca ficou resolvido.

Foi esse o início de uma espiral decrescente na vida do Joe?

Sim, sem dúvida. Acho que o Joe não é má pessoa, mas dá-se com más influências. E também acho que se sente muito culpado pelo que aconteceu com a irmã. É isso que o coloca num caminho autodestrutivo. É por isso que digo que ele não é uma personagem muito empática ao início: tornou-se uma pessoa muito fechada, amargurada e sarcástica. Mas, à medida que a história se desenrola, percebemos porque é que isso aconteceu.

Em Levaram Annie Thorne quis enveredar por um caminho mais de horror sobrenatural, mas quando levamos uma história para essa direção temos de fazer com que tudo o resto seja ainda mais convincente e realista.

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O livro também fala de pressão social e bullying. As crianças são mais facilmente manipuláveis e persuadidas ou são mestres a fazê-lo?

É uma pergunta interessante. Acho que as crianças são muito impressionáveis. Quando somos adolescentes, o perigo reside no facto de estarmos tão desesperados em integrar-nos que a escola se torna um lugar perfeito para o bullying. Porque se não nos integrarmos tornamo-nos vítimas e é muito difícil sair desse papel.

Acho que as crianças também podem ser muito manipuladoras. Quando somos novos não temos grande ideia das consequências, não vemos o quadro geral, o que significa que às vezes fazemos coisas que não são corretas sem pensarmos em como isso afeta os outros.

Ser criança é um período difícil, em especial quando temos entre 11 e 12 anos porque já não somos tratados como crianças mas também ainda não somos adultos. Não pertencemos a lugar nenhum, temos as hormonas aos saltos e estamos a tentar descobrir quem somos. E esse é um tempo crucial na formação da nossa personalidade porque é quando tomamos decisões sobre quem nos vamos tornar. Nesta altura somos maleáveis e tanto podemos enveredar pelo caminho certo como pelo errado.

Falou várias vezes sobre o facto de as crianças ainda estarem à procura da sua “bússola moral”. O facto de as crianças que praticam bullying não serem castigadas transmite-lhes a mensagem de que as suas ações não têm consequências?

Acho que há alguma verdade quando se diz que as pessoas que praticam bullying são muito inseguras e, por isso, querem fazer alguém sentir-se pior. O bullying é sobre isso. E quando somos adultos não sei se o perdemos. Isto porque continuamos a sentir-nos melhores quando vemos que as outras pessoas não se estão a safar tão bem como nós.

Acho este assunto complexo e interessa-me perceber se os miúdos que antes praticavam bullying compreendem as consequências das suas ações quando crescem ou apenas continuam com esse padrão de comportamento ao longo da vida adulta.

Não passei muito bem na escola. Não fui vítima de um bullying muito agressivo, mas também não era uma das miúdas populares. E há diferentes tipos de bullying: as raparigas praticam mais o chamado “bullying psicológico” – o poder de exclusão, estarem todas a rir-se (provavelmente de ti) enquanto estás sentada num canto sozinha – e os rapazes tendem a ser mais físicos. Ambos são devastadores e é um tema do qual voltei a falar porque me é bastante pessoal.

No livro refere que, quando alguém defende uma vítima de bullying, por vezes isso apenas acaba por agravar a situação. É um ciclo vicioso que só pode ser quebrado quando o aluno sair da escola?

Não há uma solução simples. Acho que hoje em dia as escolas lidam melhor com o problema, na medida em que o bullying é mais reconhecido. Quando andava na escola, apenas tínhamos de aguentar.

Acho que nenhum dos meus amigos passou um tempo muito agradável na escola e que, de alguma forma, isso formou o meu caráter de uma forma positiva. Mas é algo pelo qual não gostaria que a minha filha passasse. Qualquer pessoa que esteve nesta situação sabe como é sentirmo-nos maldispostas só de pensarmos que temos de ir à escola mais um dia.

No livro, o Joe explica as coisas como são: é um mito dizer que se enfrentares os agressores eles vão deixar de te atormentar. Eles vão ser sempre mais que tu, a única diferença é que te vão bater com mais força. Já vi isso acontecer. Por isso baixas a cabeça e tentas ultrapassar a situação. Mas acho que agora já se pode falar sobre o assunto e ver alguma coisa a ser feita. No meu tempo não havia isso.

Há alguma zona cinzenta entre ser uma vítima e um agressor (ou seu cúmplice)?

Isso é outra das coisas de que o Joe se sente mal quando era adolescente: ver o que estava a acontecer e não fazer nada. Todos podemos ser essa pessoa – e não apenas na escola. Quando vemos algo mau a acontecer preocupamo-nos com o que pode acontecer connosco. Na escola é a mesma coisa: há o medo de que se ajudarmos a pessoa que está a ser vítima de bullying os agressores vão começar a atacar-nos. E o Joe sente-se mal por ter sido uma dessas pessoas.

Quando somos adultos continuamos a sentir-nos melhores quando vemos que as outras pessoas não se estão a safar tão bem como nós.

Quando o Joe volta para Arnhill encontra-se com muitos dos filhos dos seus amigos e conhecidos da altura e apercebe-se que replicam muitos dos comportamentos dos seus pais. Os pais são as pessoas que exercem a maior influência na nossa vida?

Cada vez mais [risos]. Tenho 47 anos e estou cada vez mais parecida com a minha mãe. Tentamos tornar-nos diferentes, mas depois apercebemo-nos que nos estamos a tornar as nossas mães.

No livro, o “mauzão” da altura do Joe é o pai do “mauzão” de agora. Acho que às vezes os pais educam os rapazes para que eles sejam duros e tenham um comportamento masculino. Principalmente nos anos 80, 90, quando se desenrola a ação.

Para uma rapariga, é na boa usar calças e ser uma maria-rapaz, mas se um rapaz tiver um comportamento considerado mais feminino isso já é visto com maus olhos. E às vezes é só brincar com bonecas. Porque não? Por vezes, quando vou com a minha filha ao parque, ouço rapazes a gozar com outros rapazes. Nessas alturas, penso: “Porque é que eles dizem isso?” Obviamente, as crianças não podem saber se é ou não errado um rapaz fazer certas coisas, tem de ter sido algo que os pais lhes disseram.

Há uma altura do livro em que o Joe diz que “a vida é sobretudo perdas”. Isso é algo que ele aprendeu com a idade ou com os problemas que foi enfrentando?

Acho que isso é parte de mim a falar. O Joe não teve uma vida fácil – teve uma vida triste, até. À medida que vamos envelhecendo, apercebemo-nos que a vida é perder coisas e tomamos consciência da nossa própria mortalidade. Quando o David Bowie morreu, pensei: “Isso não é possível.” Mas a vida é perdermos pessoas de quem gostamos, a nossa aparência, etc.

Mas também se ganham várias coisas: a C. J. Tudor teve filhos, publicou livros…

Sim, sou muito sortuda por ter a minha filha e já publiquei o meu livro mais tarde do que os escritores habituais, nos meus 40 e tal anos. Mas quando entramos nesta idade tomamos mais consciência de que não vamos andar por cá para sempre. Quando temos 25 anos nunca pensamos nisso, mas de repente notamos em qualquer coisa e pensamos logo que temos de ir ao médico [risos].

O seu professor de Inglês acreditava muito no sucesso da C. J. Tudor enquanto escritora. Nota algumas parecenças entre ele e o Joe?

Não, o meu professor de Inglês era muito diferente. O Joe é uma mistura de vários professores que tive e gosto da ideia de brincar com as expectativas que as pessoas têm de várias profissões. Os professores são rígidos, corretos, e Joe é o oposto – apesar de se importar com os alunos e de ser um bom professor.

Saiu da escola quando tinha 16 anos. Alguma vez sentiu que isso foi um obstáculo para se tornar escritora ou as experiências que ganhou desde então apenas enriqueceram o seu trabalho?

Como disse, a minha passagem pela escola não foi a mais feliz. Na altura, fartei-me. Os meus professores ficaram horrorizados, porque tinha boas notas e eles estavam à espera que fosse para a universidade. Mas fartei-me do que se estava a passar. Não era bom para mim e achei que era melhor sair. Tive sorte, porque nos anos 80 podia-se sair da escola e arranjar um emprego. Arranjei um estágio como jornalista. Já estava a trabalhar quando tinha 17 anos. A experiência foi toda boa, não me arrependo nem mudaria nada.

Até a experiência da C. J. Tudor como passeadora de cães a inspirou a escrever este livro.

Exato! Digo sempre que se não tivesse tido uma filha provavelmente não tinha escrito O Homem de Giz, porque a ideia surgiu quando lhe ofereceram um balde de giz. E a ideia para Levaram Annie Thorne surgiu quando estava a passear um cão numa zona de minas – e eu também costumava ir para a escola numa aldeia de antigos maneiros. É engraçado como as ideias surgem. Na vida nada é desperdiçado.

Se não tivesse tido uma filha, provavelmente não tinha escrito O Homem de Giz.

A Coisa Stephen King

Samitério de Animais

A pata do macao

The Seven Deaths of Evelyn Hardcastle

The Perfect Wife

Os seus livros têm sido comparados aos de Stephen King: O Homem de Giz a A Coisa e Levaram Annie Thorne Samitério de Animais. Considera estas comparações elogios ou uma espécie de “fardo”?

Acho que tanto podem ser elogios como críticas. Obviamente que é um grande elogio ser comparada ao Stephen King, porque ele é o meu herói e um brilhante contador de histórias. Até poderia ser escritora se não fosse o Stephen King, mas foi com certeza ele que me inspirou a escrever o que escrevo.

Por outro lado, noto que algumas pessoas me acusam de tentar copiar ou ser superior ao Stephen King. O que não é de todo verdade, porque ninguém é melhor do que o Stephen King – ele é o mestre.

Tenho sido bastante honesta relativamente às minhas influências e certamente que o Samitério de Animais influenciou o meu segundo livro, mas A Pata do Macaco – que foi um dos primeiros livros de ficção que li – também. Quando li o Samitério de Animais pensei logo que era muito parecido com A Pata do Macaco. Com isto quero dizer que tudo é inspirado em alguma coisa. Mas, enquanto livro, acho que Levaram Annie Thorne é muito diferente de Samitério de Animais, porque só tem uma parte semelhante. De resto é um livro mais aberto e ambíguo.

O que é interessante com o meu terceiro livro – que se vai chamar The Other People e já está terminado – é que mudei deliberadamente a direção. Ainda tem elementos de estranheza, mas acho que é menos comparável aos de Stephen King.

Sentiu a necessidade de se descolar dele?

São elogios maravilhosos mas acho que é importante que as pessoas vejam que tenho o meu mérito próprio enquanto escritora. Ainda vou misturar mistério com horror, mas a abordagem da história é bastante diferente.

Acho que uma das coisas que tem mais peso é o facto de aceitarmos que os thrillers tenham histórias e enredos parecidos, mas como não há muitas mulheres a escrever o mesmo género literário do Stephen King, a comparação é inevitável. Se houvesse muitas pessoas a escrever sobre os mesmos temas nos géneros literários mais mainstream, seria apenas um tema sobre o qual muitas pessoas escreviam. Mas como não há muitas pessoas a escrever no género do Stephen King, a comparação é inevitável.

Além de Stephen King, quais são as suas principais influências literárias?

Agatha Christie foi a primeira pessoa que me levou a escrever sobre mistérios. Depois descobri Stephen King e o horror. Mas, no mundo dos thrillers, adoro twists Harlan Coben – é um mestre dos twists.

Já li tantos bons livros, gosto sempre dos que fazem algo de diferente. Um dos últimos que li foi The Seven Deaths of Evelyn Hardcastleque tem um cenário muito ao género de Agatha Christie mas depois tem uma reviravolta em que uma das personagens tem de reviver o mesmo dia repetidamente para descobrir quem é o assassino. É um livro muito inteligente.

Recentemente também li The Perfect Wifede J. P. Delaney, um thriller psicológico e ligeiramente futurístico. Gosto de livros que misturam vários géneros.

Ainda é apanhada de surpresa por algumas das reviravoltas nos enredos dos livros?

Algumas vezes. Acho que, como escritora, é mais difícil. Gosto quando não consigo antever tudo – e às vezes isso acontece. Mas também há aquelas ocasiões em que penso que, se fosse eu a escrever, teria mudado uma ou outra parte.

A última reviravolta que me apanhou de surpresa foi em The Silent Patient e até me martirizei, porque era uma daquelas coisas que devia ter calculado, mas foi feito de forma tão inteligente… Quando surgiu a revelação, pensei: “Devia ter percebido!” Mas, enquanto leitora, gosto de ter essa sensação.

Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bill Waters

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