Anna Todd: “O Hardin Scott não tem nada a ver com o Harry Styles”

Anna Todd tem um novo livro. Em conversa com a Estante, a autora de After, uma série young adult inspirada na banda One Direction, explica o que faz de As Estrelas Mais Brilhantes o seu livro mais pessoal até à data.

O seu novo livro é sobre uma rapariga que se apaixona por um militar que ainda está a recuperar de duas missões no Afeganistão. O seu marido também foi militar, certo?

Sim.

Também teve de enfrentar alguns dos desafios que Karina, a personagem principal, enfrenta?

Sem dúvida. O meu marido foi para o Iraque três vezes em oito anos de exército, por isso o meu caso foi muito parecido ao de Karina. Mas diria que no meu caso foi muito mais intenso, porque éramos casados quando ele estava destacado.

Estar com alguém com stresse pós-traumático que não sabe lidar com a situação é complicado. Nem o governo sabe.

Também passou por isso?

Sim.

Foi devido ao que passou que escreveu a Karina como uma personagem que já sabe lidar com essa situação?

Acho que ela até pode ter mais dificuldades do que eu a lidar com a situação. Especialmente no próximo livro. Mas é por isso que o livro é realista.

Para mim, este livro foi uma espécie de terapia, mesmo sem me aperceber disso. Há uma conversa no livro em que as personagens estão a discutir se o Shawn Mendes é o próximo John Mayers e eu e o meu marido tivemos essa mesma conversa! Até me tinha esquecido de que tinha escrito isso. Acho que o livro tem muito mais de mim do que inicialmente tinha previsto.

Este é o seu livro mais pessoal até à data?

Sem dúvida.


O novo livro tem muito mais de mim do que inicialmente tinha previsto.


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Acha que esta nova série vai seguir a mesma onda erótica que a série After?

Não tenho a certeza. No segundo livro há mais sexo do que neste, mas acho que não tem tanto como nos livros da série After

Disse anteriormente que as pessoas têm pedido mais sexo nos seus livros e que algumas até os comparam a As Cinquenta Sombras de Grey. Acha que é uma comparação justa?

Acho que são diferentes. Adoro As Cinquenta Sombras de Grey e a E. L. James, por isso, para mim, compararem os dois livros é um elogio. Mas há pessoas que compram os meus livros à espera que sejam parecidos com As Cinquenta Sombras de Grey. Uma leitora até me chegou a enviar um e-mail a dizer: “Isto não é nada como As Cinquenta Sombras de Grey, não acredito que comprei isto!”

Acho que o facto de os dois livros terem nascido como fan fiction faz com que as pessoas pensem que são o mesmo. Mas se estão à procura de uma história erótica com BDSM não estão no sítio certo.

Como lida com essas críticas? Tenta aproximar-se do que os leitores pedem ou segue as suas próprias ideias?

Sigo as minhas ideias. É impossível que toda a gente goste do mesmo livro – até o livro mais bem escrito do mundo tem pessoas que não gostam dele. Se escrever para os críticos, nunca vou escrever um livro que goste mesmo.

Então para quem escreve?

Principalmente para mim. Agora que sei que tenho um público tento falar para eles, mas continua a ser sobretudo aquilo que está na minha cabeça.

Quem é o seu público-alvo?

Para este livro, diria que são pessoas entre os 16 e os 50 anos, porque acho que conseguem identificar-se com uma história sobre o primeiro amor e essa experiência traumática. Toda a gente tem dificuldades, apesar de as circunstâncias da vida serem diferentes – é o que os humanos fazem.

Neste arranque da nova série, sente pressão para criar uma série como After?

Nem por isso. Estou consciente de que só se tem um sucesso tão grande como o da série After uma vez na carreira. Por isso não tenho essa pressão. Se tivesse dava em maluca.


Estou consciente de que só se tem um sucesso tão grande como o da série After uma vez na carreira.


Em relação a After, está a ser produzido neste momento um filme com base nestes livros. O que nos pode contar sobre ele, uma vez que é uma das produtoras?

Mal posso esperar! Nos Estados Unidos sai no dia 12 de abril [de 2019]. Em Portugal não sei qual é a data exata, mas sei que estão a tentar que as datas sejam semelhantes em todos os países. Hero Fiennes-Tiffin e Josephine Langford [que vão desempenhar, respetivamente, os papéis de Hardin Scott e Tessa Young, as personagens principais] são exatamente o que imaginei, se não melhores!

Estou muito feliz. Foi muito divertido estar tão envolvida nos castings, no guião, nas filmagens… Estive no estúdio todos os dias, por isso foi uma grande aprendizagem. 

Está confiante de que o filme vai fazer jus ao livro e que os leitores não vão ficar desapontados?

Acho que alguns vão ficar desapontados independentemente do resultado. Enquanto leitora, fico desapontada com quase todas as adaptações de livros ao cinema – mesmo quando adoro o filme, continuo a achar que não é igual ao livro. Mas tentámos criar um filme o mais aproximado possível do livro.

É complicado estar dentro dos pensamentos de alguém quando está a ler um livro para os conseguir pôr no ecrã. Tenho consciência de que algumas pessoas vão achar que o livro foi melhor. Mas para mim isso é positivo. Fui eu que o escrevi.

Quando começou a escrever After, o protagonista chamava-se Harry Styles. Mas quando o livro foi impresso mudou o nome da personagem para Hardin Scott. Sentiu necessidade de se afastar dos One Direction?

Nem por isso, só achei que seria estranho publicar um livro com o nome de uma pessoa real. Mesmo que não fosse fã da banda, acharia que seria estranho e inapropriado fazê-lo. Embora o livro seja inspirado neles.

Honestamente não acho que teria escrito After se não fosse uma grande fã, se não tivesse lido tanta fan fiction e se não fizesse parte do clube de fãs deles. Por isso não estou necessariamente a afastar-me dos One Direction – estou até bastante orgulhosa, porque transformei, literalmente, o facto de ser fã numa carreira. Só acho que temos de separar um pouco as coisas e não usar o nome de uma pessoa verdadeira no livro. 

Mas que peso acha que a “marca” One Direction teve no sucesso da série After?

Não sei e acho que nunca vamos saber. Mas no Wattpad [plataforma digital para publicação de obras originais] havia um sentido de comunidade tão grande [à volta dos One Direction] que mesmo antes de começar a escrever, tinha amigos que escreviam e liam fan fiction [sobre a banda].

Essa comunidade deu-me a confiança para começar a escrever. Ao início nem pensava que a história sairia desse clube de fãs. Quando isso aconteceu foi assustador, porque apercebi-me de que toda a gente no mundo ia ler o que tinha escrito, não só os fãs. Mas o apoio de fãs dos One Direction ajudou-me.

Muitas pessoas pensam que Hardin Scott é uma versão do Harry Styles, mas em entrevistas passadas disse que também se inspirou em Damon de The Vampire Diaries e em Chuck Bass de Gossip Girl. O que tem o Hardin de cada uma destas personagens?

O Hardin apenas tem a aparência do Harry. Mas até isso está um bocado alterado, porque quando comecei a escrever o Harry não tinha tantas tatuagens. É uma espécie de concha com a aparência do Harry Styles, mas acho que o Hardin não tem nada a ver com o Harry Styles. Também fui buscar inspiração ao Damon, ao Chuck Bass, ao Mr. Darcy, a todos os rapazes rebeldes… e depois fiz a minha própria versão.


Tenho consciência de que algumas pessoas vão achar que o livro foi melhor do que o filme de After irá ser. Mas para mim isso é positivo. Fui eu que o escrevi.


O Senhor das Sombras

Cassandra Clare
Disse no passado que não quer criar personagens que sejam magicamente curadas pelo amor. Sente que há um compulsão no mundo literário para criar finais felizes?

Sim, definitivamente! Adoro romances e estou sempre a lê-los, mas às vezes é como se estivesse sempre a ler a mesma história. Mesmo que os rapazes sejam assassinos ou membros de um gangue, basta apaixonarem-se para se tornarem pessoas fantásticas. E isso não é muito realista.

Acho que existe essa compulsão, mas também percebo a sua existência, uma vez que a leitura é uma fuga da realidade e as pessoas querem ler sobre um rapaz que se apaixona milagrosamente e se torna fantástico. Mas não quero escrever histórias apenas com finais felizes, tal como também não gosto de ler apenas esse tipo de livros.

O que é um bom livro para si, então?

Um livro diferente. Gosto de ler fantasia com caçadores de sombras e vampiros. Mas também gosto de sentir que faço parte do mundo, não gosto de ser retirada dele. Gosto que a paixão seja gradual – amor instantâneo é aquilo de que menos gosto num livro. Há muitas coisas que podem tornar um livro bom, mas gosto de histórias de casais que nos deixam ansiosos, em que o amor é gradual.

Qual foi o último livro que leu?

Acabei agora O Senhor das Sombras, da Cassandra Clare.

O que achou?

Foi muito stressante [risos]. Ela é a minha escritora preferida, por isso estava ansiosa por lê-lo. O livro saiu há oito meses e normalmente gosto de os ler assim que são publicados, mas com o trabalho de terminar As Estrelas Mais Brilhantes, e ainda com o filme, só o consegui começar há duas ou três semanas, durante a minha digressão. A autora matou personagens importantes, por isso foi muito stressante – no fim, chorei e tudo.

É importante para si encontrar tempo para ler, mesmo enquanto está a escrever outros livros?

Sem dúvida! Primeiro porque me torna uma melhor escritora – ler muito é a melhor forma de aprender a escrever – e também porque ler é o meu único hobby. Se não tivesse tempo para isso, a minha vida seria apenas trabalho.


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Raquel Wise/4SEE

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