Joel Neto: “Tudo o que não é íntimo é árido”

Português dos Açores, natural da ilha Terceira, com algum do olhar suplicante que caracteriza muitos terceirenses, Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo em 1974 e define desta forma a tal súplica que parece caracterizar quem, como ele, nasceu na ilha: “Se há um defeito que os terceirenses têm, talvez seja uma certa pressa, um certo sensualismo pelo shot emocional. Quando ele não acontece, às vezes sai em resposta o ar suplicante, pedindo essa descarga, uma súplica pela satisfação desse desejo.” A caracterização sai com a ironia de quem olha para si com uma certa distância e a experiência de ter vivido longe, em Lisboa. Jornalista, cronista, escritor, é autor dos romances O Terceiro Servo (2000), Os Sítios sem Resposta (2012) e O Arquipélago (2015), do livro de contos O Citroën que Escrevia Novelas Mexicanas (2002) e do diário A Vida no Campo.

Entrevista por Isabel Lucas
Fotografias de Rui Soares/4SEE


Quando voltou a Terra Chã, freguesia mais interior da ilha Terceira, Joel Neto estabeleceu uma meta. Seria por quatro anos. Esse prazo passou e está a ser renovado de modo livre, comandado pela vontade de ir ficando no território onde nasceu e cresceu e de onde saiu para estudar e ser jornalista e escritor. O regresso mudou-lhe mais a visão do mundo do que propriamente o quotidiano. Ele é alguém que continua a escrever, só que agora com outro tempo e uma paisagem que interfere e contamina o trabalho, a linguagem. Um dos resultados dessa experiência é A Vida no Campo, um livro em forma de diário que pode ser lido como um romance. Nele, Joel Neto revela uma intimidade com o lugar e quem o povoa através de uma escrita descomprometida e pouco artificiosa.

Até que ponto a ficção entra neste diário?
Sempre quis escrever um diário, mas não me interessava escrever um diário sobre a minha vida. Queria um diário sobre uma experiência, mas nunca tinha vivido uma fase com intensidade suficiente que estimulasse a escrita. Esse diário surgiu quando cheguei a casa. É o diário de um regresso a casa. O diretor do Diário de Notícias soube da existência desse diário e convidou-me a passá-lo para o jornal. No jornal não me limitei a copiar o original. Retrabalhei-o. Foi uma espécie de primeiro andamento dos textos originais. O segundo foi a sequenciação dos textos de modo a que pudessem constituir uma linha narrativa única, ou pelo menos contínua, que permitisse ao livro ser lido como um diário, como hipótese mais comum, como um livro de crónicas, na pior das hipóteses, ou até como um romance, na melhor. Isto segundo o pressuposto de que será sempre o leitor a decidir de que livro se trata. A sequenciação não foi fácil. Havia uma procura de fidelidade às vivências a funcionar em oposição ao chamamento da ficção. Tentei proteger a sua autenticidade, mas não posso dizer que não haja elementos de ficção.

Diz que este é um diário não sobre si, mas sobre uma experiência. Ao relatá-la, no entanto, revela muito do seu lado mais pessoal. Controlou essa exposição?
Não sei se consigo definir os contornos exatos do ponto onde controlo e deixo de controlar a minha exposição, e nela a da minha mulher, dos meus vizinhos, dos meus cães, dos meus familiares, do meu modo de vida. Tentei seguir a minha sensibilidade quotidiana. Não tenho grandes preocupações de privacidade. Aquilo que entendo como privado não é o que entendo como íntimo. Para mim há uma grande diferença entre privacidade e intimidade.

Escreve: “Só o que é íntimo me interessa.”
Sim, não me interessa mais nada. Para mim tudo o que não é íntimo é árido.

O que entende por íntimo?
O que é íntimo é o que da minha experiência pode comover o leitor. Privado é o que pode gerar voyeurismo. Nos espaços em que temi ser alvo de algum tipo de voyeurismo tive mais cuidado. Privilegiei as opções em que acreditava que os textos tinham suciente força para vencer o impulso voyeurista do leitor, para que ele não ficasse apenas por aí mas a sua sensibilidade cedesse à intimidade e não se ficasse pela camada mais supercial da minha vivência.


“Há coisas que nunca soube exprimir no português de Lisboa e que o português dos Açores me permite”


Este livro fala do quotidiano. O regresso a um sítio com os seus ritmos é também o regresso a uma linguagem?
É. E às vezes as palavras em que crescemos contêm possibilidades que ignoramos no nosso processo de transformação. Quando se vive numa ilha ou na ruralidade mais remota e se vai para uma cidade maior, há um impulso de aculturação ativo. Não nos limitamos a seguir os cursos de aculturação comuns mas às vezes tentamos mesmo pertencer, e no meio desse esforço abdicamos de possibilidades que estavam connosco desde sempre. Há coisas que nunca soube exprimir no português de Lisboa e que o português dos Açores me permite. Mas a rotina é um pouco mais do que isso. A minha relação com a terra é apesar de tudo a uma razoável distância, e é provavelmente a mesma relação que tentei manter em relação a Lisboa quando vivia lá. Gosto da ideia de ter um pé dentro e um pé fora, de não perder a panorâmica, e isso influencia não apenas a linguagem mas a visão do mundo, mesmo do mundo à porta. A minha rotina não segue necessariamente os fluxos do quotidiano dos meus vizinhos, mas encontra-se com eles em vários momentos do dia.

O livro tem como título A Vida no Campo e é sobre a vida numa ilha, um lugar onde quase sempre se espera que se escreva sobre o mar. Qual é a sua relação com o mar quando nos dá a conhecer sobretudo a sua relação com o campo?
Cresci nesta freguesia, uma das poucas da Terceira que não tem costa, e provavelmente a mais interior. À partida, estava geograficamente mais próximo do centro da ilha. Estou tão no interior quanto se pode estar e habituei-me a desenvolver com o mar uma relação de maravilhamento que não sei se existiria se estivesse em permanente contacto com o mar. Isso enforma o caráter do povo ilhéu em geral. Se olharmos para a tradição das ilhas, as cidades, as vilas e muitas vezes as aldeias estão construídas de costas para o mar. Creio que é sobretudo por duas razões. Uma é muita prática e tem a ver com a necessidade de vigiar as culturas; outra tem provavelmente a ver com o facto de o mar ser o que traz sustento, mas também o que ceifa vidas e entra pela terra dentro. O mar é sempre uma ameaça. Também pode ser entendido como o que une e o que separa, e é provável, quando se tem uma vivência puramente de ilhéu e se viveu toda a vida numa ilha, que o mar seja mais uma separação do mundo do que uma união ao mundo. Isto é uma interpretação um pouco livre, claro. No meu caso, desde criança que o mar era um presente. Íamos ver o mar ao fim de semana e nos momentos especiais, e eu mantive essa vivência. E apesar de o mar não estar tão presente nos meus textos quanto isso, nos momentos em que está é muito mais significativo do que seria se fosse uma presença permanente no meu quotidiano.

Quais são as suas referências na escrita?
O livro está cheio de referências literárias e não só, musicais, etc. Não sei se me posso considerar um grande leitor de diários. Li bastantes ao longo da vida. A literatura nos Açores tem diários de referência, desde o Cristóvão de Aguiar ao Fernando Aires, mas se calhar as minhas referências são mais do domínio da ficção e do romance. Tenho dificuldade em identificá-las. Não nasci numa casa com livros. Nasci numa família protestante em que havia sobretudo um livro, a Bíblia Sagrada. Sou ateu mas tenho essa formação e uma grande gratidão pelos ensinamentos que obtive nesse percurso, nomeadamente no ponto de vista humano e historicista, intelectual, cultural. Durante alguns anos não tive grande estruturação das minhas leituras. Eram caóticas e frágeis, pouco consolidadas. Na adolescência comecei a ler de forma um pouco mais sistemática e não creio que tenha conseguido sistematizar toda a tradição ocidental na minha cabeça. Nos últimos anos sinto-me mais próximo da literatura norte-americana, da grande narrativa.


“O Joel Neto que eu estava a construir e escrevia crónicas zangadas e livros indignados não correspondia ao meu olhar”


Estes textos são otimistas quanto à condição humana. O que o desiludiu mais e o encantou neste regresso ao campo?
Esta mudança é ao mesmo tempo causa e efeito de uma mudança que se operou em mim e que é mais intelectual do que sensível. Olhei para o meu trajeto criativo e detetei uma visão muito desencantada do mundo. Ponderei se a minha visão mais verdadeira correspondia a um desencanto tão grande e achei que não. O Joel Neto que eu estava a construir e escrevia crónicas zangadas e livros indignados não correspondia ao meu olhar; era uma construção, talvez para responder ao cinismo urbano que eu intuía, mesmo que inconscientemente, que era preciso num olhar urbano sobre as coisas. Como se para se fazer parte da cidade fosse preciso esse olhar desencantado sobre a natureza humana. Quando regressei aos Açores dei-me a oportunidade de ver as coisas de um modo que me parecia mais próximo do meu, estar mais em contacto com a minha verdadeira essência, e libertei-me de uma série de clichés urbanos, de necessidades tribais, deixei de pertencer a equipas, de ter vergonha dos meus gostos mais culposos e em muitos casos de lhes chamar prazeres culposos. São prazeres. Libertei-me um pouco da persona que me tinha escapado ao controlo. O meu olhar sobre o campo é um pouco mais feliz, bem-aventurado ou otimista, porque o meu olhar sobre o mundo também é. Quanto ao que me encantou na vida no campo… encantaram-me os valores, a simplicidade e a solidariedade. Ser-se capaz de ser feliz sem tantas necessidades é a suprema liberdade. O que me terá desencantado mais… talvez a falta de mundividência que o campo tem. Algum conservadorismo que naturalmente às vezes se sobrepõe a uma certa bondade original.

Enquanto escreve…

Joel Neto ouve, “caoticamente e como sempre”, jazz. “Quando vim para os Açores comprei apenas um objeto – um rádio wi-fi, porque precisava muito da TSF. Entretanto esse rádio permitiu-me descobrir uma série de rádios temáticas estrangeiras que se tornaram a playlist cá de casa”, conta como que para falar da diiculdade em falar de tudo quanto ouve, muita coisa para “todo o tipo de necessidades”, mas sobretudo rádio. A isso acrescenta a discografia integral de Jacques Brel e alguma música francesa, algo relativamente recente na sua escolha musical.

Quanto a leituras…

Joel Neto relê Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi, e “uma série de coisas sobre as ilhas do triângulo — S. Jorge, Pico e Faial — relacionadas com a experiência baleeira, voos dos clippers, cabos submarinos e a Segunda Guerra Mundial, o palco do meu próximo romance”. Depois das férias em São Jorge, este verão, voará para a Costa Leste dos Estados Unidos para continuar o trabalho de campo para esse próximo projeto literário.

 

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