Editorial: Pedro Mexia

Um século
de ouro

Pedro Mexia

Há o “cânone ocidental” e há este: o da ocidental praia. Este ou outros como este. Porque um “cânone” é um exercício situado no tempo, mutável, discutível. Exprime mundividências, gostos, e gerações também. Apesar disso, os cinco convidados da Estante chegaram a um fácil consenso e pediram apenas uma margem de manobra de mais dois títulos além dos previstos, para não esquecermos livros que nos pareciam igualmente importantes. Posso confidenciar-vos que as listas pessoais de Clara Ferreira Alves, Isabel Lucas, Manuel Alberto Valente e Carlos Reis coincidiam em nove décimos, e que a minha coincidia com a dos meus colegas. O nosso cânone exaustivo somaria umas duas dezenas de títulos, mas fomos eliminando opções mais isoladas e ficámos com estes doze com os quais concordamos em absoluto.

Este cânone concebido numa manhã de 2016 inclui dois autores vivos, Agustina e Lobo Antunes, os mundialmente conhecidos Pessoa e Saramago, e outros oito escritores cuja importância na literatura portuguesa é inegável. Foi menos óbvio determinar qual o livro que representaria cada autor, de modo que optámos quase sempre pela obra mais “emblemática”, ainda que houvesse quem preferisse Fanny Owen, Manhã Submersa ou Uma Abelha na Chuva.

Estes doze livros de ficção narrativa do último século dizem respeito, em grande parte, às vicissitudes históricas portuguesas, às guerras, à ditadura, às colónias; outros apresentam-nos comunidades fechadas e guras ancestrais; mas não ignorámos a inquietação metafísica, nem a transposição biográfico-mítica, nem o vanguardismo. E também não fugimos a dois grandes, enormes livros inclassificáveis: o romance-poema-diário de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, e as assombrações patéticas, grotescas, comoventes, de Brandão, o nosso Dostoiévski.

É uma escolha contestável pelas ausências, inevitáveis, algumas que nos custaram muito (faz-me falta a prosa imprevisível de Pascoaes, A Noite e o Riso, Maria Velho da Costa, Ruben A., Maria Judite de Carvalho, Rodrigues Miguéis, e mais ainda). Mas são escolhas seguríssimas. Todos sabemos que a ficção narrativa portuguesa não é em geral tão marcante como a poesia; e, no entanto, quando olhamos para estes doze livros, publicados entre 1917 e 1984, talvez nos lembremos de uma formulação que tem fortes tradições poéticas: a ideia de um século de “ouro”.


Pedro Mexia é cronista e crítico literário.
Publicou vários livros de poemas.
É atualmente um dos membros do programa
Governo Sombra e trabalha como assessor
cultural do Presidente da República,
Marcelo Rebelo de Sousa.

Confere aqui a lista completa dos 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos.

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