Editorial: Mário Augusto

Anotações
da Sebenta
do Tempo

Mário Augusto

O desejo ou gosto de reviver aspetos do passado empurra-nos para a memória, e eu confesso que vou muitas vezes ao ginásio do tempo só para exercitar os neurónios, os mais atarefados com as lides da atualidade. É o corre-corre do relógio de agora que não nos deixa refletir sossegados, parar para ler um livro pousado com aquele cantinho de folha dobrada há muito. Bons momentos que redescobrimos em frases inteiras e que, ao deixá-las à solta na memória, resgatam um momento qualquer que ficou lá atrás.

Perguntam-me por vezes qual o filme da minha vida. Que livro ou música me marcaram mais. A resposta provoca quase sempre uma repentina desilusão por não selecionar isoladamente este ou aquele título. Prero escolher uma mão-cheia de livros, filmes ou bandas sonoras da minha existência, porque as marcas que ficam são as circunstâncias do primeiro momento da descoberta dessa obra, a companhia, tudo o que representou naquele tempo. Digo-vos que não são raras as desilusões quando procuramos, nesse revivalismo, as mesmas referências que a nossa evolução matou pelo caminho. É por isso que tenho filmes e livros que prefiro não revisitar, porque assim sempre posso guardar, do que me recordo, as memórias colaterais, quantas vezes mais importantes do que a própria obra.

É talvez nos livros que melhor se registam os momentos que alimentam revivalismos, porque as palavras não passam de moda, ficam lá agarradas, são guardiãs de sentidos e sentimentos, adaptam-se aos tempos e a cada nova leitura. Já o cinema – tirando as obras-primas e intemporais – tem data e imagem que não enganam. Reparem que um herói descrito numa página de livro resiste ao tempo, cada novo leitor desenha-o ao pormenor. Esse mesmo herói, em cenas de um filme, fica intocável, é certo, mas envelhece na projeção, mesmo ganhando a eternidade. Na música, os acordes têm data certa e, quando se evocam, trazem logo momentos agarrados.

Apesar de tudo, mesmo não querendo revisitar algumas obras que deixei lá atrás, gosto desse exercitar dos neurónios. Quantas vezes esses momentos não se transformam em quebra-cabeças só porque há um pormenor ou um nome que se perdeu com os anos. Assusta-nos esse perder de referências.

Pesquisando para escrever A Sebenta do Tempo – Manual de Memória para Esquecidos, descobri que o que melhor recordamos de anos passados são coisas simples, às vezes sem grande importância para o resto das nossas vidas. Uma troca de cromos no recreio da escola. Uma camisola que já não se usa. A primeira bicicleta. O primeiro beijo com sabor a “chicla”. A reguada da professora por não saber as contas no quadro preto de ardósia… Ou será que isso teve a sua importância?

Para mim, o revivalismo guarda-se em montinhos de memória, caixinhas sem tampa que exalam pequenas recordações. Também já percebi que a maioria das memórias que nos desperta melhores sensações só a nós diz respeito, mesmo quando toda uma geração dança essa mesma “valsinha” do tempo, cada um pelo seu pé e no seu ritmo. Conheço até alguns que vão a esses bailaricos das lembranças só para apanhar as peças soltas de puzzles inacabados. Uma coisa tenho como certa, quando falo com os meus botões digo cá comigo: saber recordar o passado é uma forma de melhor entender o futuro.


Mário Augusto é jornalista
e o apresentador de Janela Indiscreta,
o mais antigo magazine de cinema
da televisão portuguesa.
Publicou recentemente o livro
A Sebenta do Tempo, no qual recupera
as memórias coletivas da sua geração.

Fotografia: António Guerreiro

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