Editorial: Afonso Reis Cabral

Celebrar a vida

Afonso Reis Cabral*

Muitos tentaram e poucos conseguiram. Alguns puseram-na na dianteira da frustração. Outros usaram-na como manifesto político. Muitos não lhe viram a utilidade. E uns até a interpretaram como sexto sentido. Seja como for, não serei eu a defini-la, mas parece-me seguro acrescentar que a escrita é uma celebração da vida. E celebrá-la é ver-lhe os defeitos, realçar o que nela há de subterrâneo e também o que há de belo – enfim, enchê-la de nós próprios até doer.

Mas precisamos de tempo para essa celebração, que mais parece um ritual. Devemos seguir-lhe o rasto nem sempre coerente, nem sempre sincero, feito tanto de fuga quanto de perseguição, que nos leva a algo que esperamos ser maior do que nós. E precisamos de tempo para viver fora desse ritual, para viver na estrada e no pó, onde Hemingway dizia que a escrita incubava. Ou seja, precisamos de tempo para escrever e para viver.

Numa fase em que as escolas e os movimentos literários parecem não existir, torna-se difícil perceber o que une uma geração. Andamos em busca de respostas contingentes, fora da coisa literária. A idade é uma delas, embora a verdadeira escrita seja intemporal. Somos forçados a falar do conceito de geração sem lhe juntar o adjectivo “literária”. Caso estes viessem juntos, transcenderiam a idade, seriam a descrição de um fenómeno.

Neste contexto, a dispersão é um dos factores comuns. Não falo apenas da dispersão típica do quotidiano ou das redes sociais; falo em específico da dispersão dos autores, forçados a quebrar o isolamento da escrita para se fazerem à estrada, quais caixeiros-viajantes da palavra. Num país sempre sedento de escritores (mas pouco sedento de leitura), queremo-los em feiras, em festivais, nas escolas, em sessões de autógrafos e em vários meios de comunicação social, de preferência ao mesmo tempo. Queremo-los performers, pedindo também que no meio disto escrevam um livro por ano. E, por último, ajuda que sejam detentores da contingência máxima: juventude e beleza.

Claro que a torre de marfim caiu há muito e convém que continue em ruínas, mas é preciso que estas exigências não se substituam ao tempo da verdadeira escrita e da celebração da vida, até porque escrever, como lembra Paul Auster, é o que nos mantém jovens.


*Afonso Reis Cabral escreve de acordo
com a antiga ortografia.

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