E se o mundo não fosse como é?

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Os grandes acontecimentos históricos são uma das principais fontes de inspiração da literatura que, contudo, por vezes os distorce de modos inesperados. Chama-se a isto História Alternativa.

Há uma ideia que se repete em todas as histórias de ficção científica que incluem viagens no tempo: “Não interfiras com o passado ou podes mudar o futuro”. É um conceito que parece ser cientificamente comprovado pela teoria do caos e mais concretamente pelo efeito borboleta, segundo o qual o simples bater de asas de uma borboleta pode, em teoria, contribuir para o surgimento de um furacão do outro lado do mundo.

Há muito que esta crença nas relações de causa-efeito leva o Homem a sonhar com realidades alternativas. Se eu não tivesse procedido como procedi, será que estaria como estou? Se isto não se tivesse passado, será que aquilo tinha acontecido? Também na literatura se materializaram estes pensamentos, com maior ou menor insistência, através de uma reflexão sobre a importância de certos eventos históricos. Como seria o mundo se o Homem não tivesse chegado à Lua? Se Abraham Lincoln não tivesse sido assassinado? Se Napoleão não se tivesse rendido?

Estas cogitações, trabalhadas sob a forma de ficção, deram origem a um novo género literário: História Alternativa.

A Segunda Guerra Mundial

Se os grandes eventos são aqueles que mais atraem os autores de História Alternativa, não é de estranhar que grande parte destes livros se refira à Segunda Guerra Mundial. Em 1962, Philip K. Dick publica aquela que é ainda hoje a grande referência do género: O Homem do Castelo Alto. Situada numa realidade em que a Alemanha e o Japão saem vitoriosos da guerra e impõem uma nova ordem mundial, tomando o controlo dos Estados Unidos e erradicando a população de África, a obra é muito elogiada pela crítica e rapidamente se torna uma das mais reconhecidas do autor. Fatherland, de Robert Harris, também explora um cenário bastante semelhante.

Existem, no entanto, muitas outras suposições literárias relacionadas com a Segunda Guerra Mundial. Em O Sindicato dos Policias Iídiches, Michael Chabon imagina o que poderia ter acontecido se os Estados Unidos tivessem estabelecido no Alasca um refúgio para os judeus perseguidos pelas forças nazis. Em A Conspiração Contra a América, Philip Roth explora uma realidade em que Charles Lindbergh, manifesto simpatizante de algumas das ideias antissemitas dos nazis, derrota Franklin Roosevelt nas eleições presidenciais americanas de 1940. Há também Making History, de Stephen Fry, onde o tempo é alterado de modo a que Adolf Hitler nunca chegue a nascer, o que, curiosamente, traz inesperadas e perigosas consequências. Partindo de alterações aparentemente insignificantes em acontecimentos reais, todas estas histórias se focam nas ramificações por elas causadas, pintando na generalidade dos casos um quadro dantesco.

Regressões temporais

Muitos outros períodos históricos foram abordados pelo género, mantendo as narrativas um tom realista ou incorporando elementos de fantasia. Em 22/11/63, de Stephen King, um homem viaja no tempo para impedir o assassinato de John F. Kennedy, experienciando depois as consequências do ato. Em Pavana, Keith Roberts recua ao século XVI para testar um cenário inverso, imaginando a rainha Isabel de Inglaterra assassinada e, graças à sua ausência, o país invadido e conquistado pela Invencível Armada de Filipe II. Robert Silverberg regride ainda mais no tempo, em Roma Eterna, para montar uma realidade em que Moisés se revela incapaz de libertar os hebreus do Egito. O cristianismo e o islamismo não chegam, por isso, a existir e o Império Romano sobrevive e permanece dominante até à atualidade.

Um dos maiores recuos no tempo será, contudo, o de Harry Harrison em A Oeste de Éden, imaginando o autor um universo onde, há 65 milhões de anos, a Terra não é atingida por um asteroide, o que significa que o Inverno Nuclear nunca chega a existir e os dinossauros não só sobrevivem como evoluem para criaturas bastante distintas. Apenas uma das ínfimas possibilidades deste género.


Por: Tiago Matos

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