DN Jovem: O talento surgiu aqui

dn-jovem-revista-estante-fnac

Nasce em maio de 1983, trazendo na capa, em letras grandes, a questão: “Que querem os jovens?” Um pouco mais abaixo, vem o desafio: “Colabora connosco. Escreve.” E muitos fazem-no. Ao longo de mais de 20 anos o DN Jovem supera em muito o estatuto de um mero suplemento juvenil do Diário de Notícias, assumindo-se um dos principais veículos de publicação para jovens talentos das letras nacionais. Foram vários os escritores aqui surgidos que trocaram o rótulo de “promessa” pelo de “referência”. Destacamos alguns.


jose-luis-peixoto

José Luís Peixoto

É em 1991, aos 17 anos, que o autor de Galveias, recentemente distinguido com o Prémio Oceanos, publica o seu primeiro texto – um poema – no DN Jovem. O destaque incentiva-o a continuar e é neste suplemento que publica o primeiro capítulo de Morreste-me, o seu romance de estreia.

Morreste-me
Morreste-me
Quetzal

O primeiro livro de José Luís Peixoto é um tributo intenso à memória do seu pai e uma das suas obras mais elogiadas.

Galveias
Galveias
Quetzal

O autor regressa a Galveias, a vila alentejana onde nasceu e cresceu, desenvolvendo neste ambiente rural um drama singular.


pedro-mexia-poesia

Pedro Mexia

A obra de Pedro Mexia inclui poesia, crónica e ensaio. Também é crítico literário e já escreveu para teatro. A sua introdução à publicação foi, contudo, feita através do DN Jovem, feito que o autor recorda com uma alegria especial, superior inclusive à da publicação do primeiro livro.
Biblioteca
Biblioteca
Tinta da China

Pedro Mexia apresenta neste livro a sua extensa e diversa biblioteca, dissertando sobre muitos dos títulos que a compõem.

Uma Vez que tudo se perdeu
Uma Vez que Tudo se Perdeu
Tinta da China

Nesta coletânea de poemas originais publicada em 2015, Pedro Mexia explora memórias e ’ficções, dotando-as de um peculiar mistério.


jose-eduardo-agualusa

José Eduardo Agualusa

Segundo José Eduardo Agualusa, é Manuel Dias, coordenador do DN Jovem, quem entrega o manuscrito do seu primeiro livro, A Conjura, ao editor. O voto de confiança nasce das colaborações deste escritor angolano com o suplemento, textos que o lançam numa carreira distinguida.
A Conjura
A Conjura
Bis

Publicado em 1989, o romance de estreia de José Eduardo Agualusa apresenta um grupo de homens em luta pela independência de Angola no ’final do século XIX.

Print
A Rainha Ginga
Quetzal

Sabias que o nome de Angola se deve a Dona Ana de Sousa, a Rainha Ginga? É a vida desta ’figura histórica que Agualusa dá a conhecer neste seu romance de 2014.


jose-tolentino-mendonca

José Tolentino Mendonça

Ainda não era padre e já José Tolentino Mendonça publicava poemas no DN Jovem. É neste suplemento que se estreia antes de publicar, em 1990, o primeiro livro: Os Dias Contados. Além de poeta, é ensaísta e tradutor.
A Noite abre meus olhos
A Noite Abre Meus Olhos
Assírio & Alvim

Reunindo toda a poesia publicada até à data por José Tolentino Mendonça, este livro valeu ao autor o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes.


ricardo-araujo-pereira

Ricardo Araújo Pereira

Antes de se fazer notar no blogue – e no programa televisivo – intitulado Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira começa por demonstrar o talento literário em textos publicados no DN Jovem. É atualmente um dos nomes mais reputados do humor – e não só – em Portugal.
A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar
A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar
Tinta da China

“Uma espécie de manual de escrita humorística”, é como se descreve este livro no qual podemos aprender o que Ricardo Araújo Pereira sabe sobre escrever humor.

3 PERGUNTAS A MANUEL DIAS

Antigo coordenador do DN Jovem

manuel-dias-dnjovem-revista-estante-fnac

Como avalia a importância que o DN Jovem (DNJ) teve para o desenvolvimento da literatura portuguesa?

Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça foram colaboradores regulares do DNJ durante anos e são hoje valores seguros da cultura portuguesa, mas não é forçoso ver nisso uma relação de causa e efeito. Gonçalo M. Tavares e Afonso Cruz nunca escreveram para o DNJ. Feita esta ressalva, gosto de acreditar que, apesar de tudo, alguma vantagem houve para alguém no estímulo da publicação e no consequente exercício semanal de fazer a mão à escrita.

José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, José Riço Direitinho, Isabela Figueiredo, José Mário Silva, Margarida Vale de Gato, José Carlos Barros, Joaquim Cardoso Dias, Alexandre Andrade, Luís Quintais, João Luís Barreto Guimarães, Luís Filipe Parrado, João Paulo Baltazar, António Ladeira, José Oliveira, Gonçalo Salvado, Rita Taborda Duarte, Rui Manuel Amaral, António Manuel Venda, Tiago Salazar, Fernando Sobral, José Vegar, João Ramalho Santos, Rodrigo Francisco, Teresa Vale, Adriana Crespo, Alberto Oliveira Pinto, Pedro Lomba, Luís Filipe Silva e muitos outros beneficiaram certamente do cuidado oficinal que foram investindo nos seus trabalhos.

A dada altura nos anos 90, estabeleceram-se hábitos de fecunda tertúlia entre alguns dos então mais destacados colaboradores. E um intercâmbio semelhante, talvez menos formal, já se tinha verificado uns dez anos antes com a primeira geração de “DNJotas”.

Lembro-me de Nuno Garcia Lopes e António Souto se encontrarem com Celeste Craveiro, Joaquim Paulo Nogueira, Marcelo Teixeira, Armindo S., Luís Graça, Luís Palma Gomes ou Domingos Galamba. Além da memória de vários recitais, guardo umas duas dezenas de caderninhos A5 de poesia que nasceram dessas e de outras cumplicidades: os “Átis” nos anos 90 e, nos 80, os “Poros”, as “Folhas de Pó”, as “Salém”, os “Ara Gris”. Nessa atividade de publicação se forjaram também os autores que alguns viriam a ser. E houve outros projetos de edição mais elaborados, como o Mosaico e o Dez.

Como era feita a seleção dos textos que integravam o suplemento?

Privilegiávamos a qualidade literária, a expressão escorreita e elegante, a imaginação, a pertinência temática. Procurávamos, no texto e na ilustração, trabalhos que proporcionassem prazer ao leitor e pudessem contribuir para a formação do bom gosto.

Tínhamos peritos alheios ao jornal para a seleção de fotos e desenhos. Dos textos encarregava-se a equipa de coordenação, onde, entre outros preciosos apoios, é forçoso destacar as sucessivas contribuições de Isabel Stilwell, Maria Guiomar Lima, Isabel Salvado, Isabela Figueiredo, Catarina Carvalho, Sónia Duarte e Sandra Augusto França. Por duas vezes, em anos distintos, promovemos concursos especiais com júris que incluíram Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Lobo Antunes, Almeida Faria, João de Melo, Teolinda Gersão, Fernando J. B. Martinho, Rui Frias Martins, Casimiro de Brito, Maria Alberta Meneres, Jorge Listopad, Miguel Serras Pereira e Fiama Hasse Pais Brandão.

Os textos foram apreciados sob anonimato e tivemos a alegria de ver distinguidos aqueles que semanalmente mais premiávamos.

Que autores ou textos mais o surpreenderam na época?

A primeira grande revelação foi a consistência poética de José Carlos Barros. Outro momento gratificante: a publicação do primeiro romance de José Eduardo Agualusa, cujo original tive o privilégio de encaminhar para a editora certa. Havia textos divertidos, como os de Ricardo Araújo Pereira. E gente de 14 e 15 anos que já deixava adivinhar o atual sucesso, como o artista plástico João Fazenda e o ator e encenador Tiago Rodrigues, atual diretor do Teatro Nacional D. Maria II.

Fotografias: José Luís Peixoto (Gonçalo Lobo Pinheiro), José Tolentino Mendonça (David Clifford/4SEE), José Eduardo Agualusa (Pedro Loureiro), Pedro Mexia (Bruno Colaço/4SEE), Ricardo Araújo Pereira (Gonçalo Rosa da Silva/Visão)

Gostou? Partilhe este artigo: