Distopias: O futuro nas páginas de um livro

DISTOPIAS


Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley

Num mundo onde o amor, a arte e a religião são proibidas e se perdeu o conceito de individualismo, os cidadãos são programados desde cedo para se mostrarem felizes.


A Quinta dos Animais

George Orwell

Chefiados por porcos, os animais de uma quinta revoltam-se contra os humanos que a gerem, sob o mote de que “todos os animais são iguais”.


Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

George Orwell

O mundo está em permanente estado de guerra, as notícias são manipuladas e o povo é oprimido e constantemente vigiado pela tirânica figura do Grande irmão.


Fahrenheit 451

Ray Bradbury

Numa sociedade americana que incentiva a apatia dos seus cidadãos, os livros estão oficialmente proibidos e os bombeiros têm o dever de queimar todos os que encontram.


O Deus das Moscas

William Golding

Um avião despenha-se numa ilha deserta e os únicos sobreviventes são uns jovens rapazes que, sem supervisão, procuram a melhor forma de se governarem.


Laranja Mecânica

Anthony Burgess

Para fazer frente aos elevados níveis de violência adolescente, um regime totalitário decide implementar uma inovadora técnica de lavagem cerebral.


A História de uma Serva

Margaret Atwood

Uma revolução teocrática transforma os Estados Unidos numa sociedade fundamentalista que reduz todas as mulheres férteis ao estatuto de concubinas.


V de Vingança

Alan Moore

Um partido fascista governa o Reino Unido com mão de ferro, mantendo o povo em constante vigilância, até que surge V, um anarquista revolucionário mascarado de Guy Fawkes.


Imperfeitos

Scott Westerfeld

Numa sociedade dominada por pessoas de aparência perfeita, todos os habitantes têm de se sujeitar a cirurgias cosméticas ao completarem os 16 anos.


 A Estrada

Cormac McCarthy

Na sequência de um cataclismo que destruiu a civilização, um homem e o seu filho caminham ao longo de uma estrada procurando sobreviver numa realidade sem esperança.

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Quando os idealistas dominavam o mundo, sonhavam-se utopias. As sociedades queriam-se então perfeitas e o sonho era vendido como simples de alcançar. Mas as utopias teimavam em não saltar para fora da imaginação. Pensaram-se então sociedades que, na condenada busca de utopias, se tornaram opressivas, totalitárias e ameaçadoras. E nasceram as distopias.

Por Tiago Matos
Ilustração de Richard Câmara

É longa a história da distopia na literatura. Pode-se alegar, por exemplo, que As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1726) já continham diversas críticas à sociedade de então, camufladas nos bizarros locais fictícios que o protagonista visita. Mais evidente é A Máquina do Tempo (H. G. Wells, 1895), que narra a história de um cientista que viaja até ao futuro e encontra um mundo dividido: à superfície, uma classe de seres apáticos, incapazes de realizar as mais simples tarefas; no subterrâneo, monstros que temem a luz e aproveitam as noites para devorar os seres da superfície. Wells procura aqui alertar para as crescentes desigualdades sociais, sugerindo que podem levar à revolta das classes. Estabelece, em simultâneo, as bases da ficção distópica.

O GOVERNO COMO ANTAGONISTA

Regimes ditatoriais, grandes guerras mundiais e a provável perda de liberdades individuais dominam a primeira metade do século XX. Limitados pela censura, os escritores veem na distopia uma forma criativa de satirizar a realidade e identificar os males que ameaçam o mundo. O “alvo” é quase sempre a tirania governamental. Há, por um lado, The Iron Heel (Jack London, 1908) a imaginar os Estados Unidos dominados por uma oligarquia estatal; e, por outro, Nós (Yevgeny Zamyatin, 1921) a apresentar um mundo no qual todos os cidadãos são conhecidos por números e vigiados de perto pelo governo, que os organiza de forma a obter deles o máximo de produtividade. Banido na União Soviética até 1988, o romance de Zamyatin acabaria por inspirar dois dos maiores clássicos distópicos de sempre: Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (George Orwell, 1948).


Os escritores veem na distopia uma forma criativa de satirizar a realidade.


A CRISE DA CULTURA

O fim da Segunda Guerra Mundial significa o início da Guerra Fria, período no qual as distopias procuram responder à sufocante incerteza que paira no ar. A real ameaça de uma disputa nuclear – e consequente necessidade de reconstrução civilizacional – é abordada em O Deus das Moscas (William Golding, 1954). Fahrenheit 451 (Ray Bradbury, 1953), por sua vez, debruça-se sobre o papel que a cultura desempenhará no futuro do mundo, apresentando uma sociedade na qual todos os livros estão proibidos e são, com frequência, queimados. Outros temas abordados nesta altura são a generalização da violência (Laranja Mecânica, Anthony Burgess, 1962), a superpopulação (Logan’s Run, William F. Nolan e George Clayton Johnson, 1967) e as consequências dos avanços tecnológicos (Do Androids Dream of Electric Sheep?, Philip K. Dick, 1968).

O APELO À JUVENTUDE

Com uma ou outra notável exceção, como A História de Uma Serva (Margaret Atwood, 1985), a ficção distópica foi decaindo de popularidade na segunda metade do século passado. Mais recentemente, porém, descobriu um novo público, com obras como Battle Royale (Koushun Takami, 1999) ou Os Jogos da Fome (Suzanne Collins, 2008) que, curiosamente, exploram um tema já abordado em The Running Man (Stephen King sob o pseudónimo de Richard Bachman, 1982) – o colapso da economia e a participação em violentos reality shows como escapatória de um destino miserável –, dirigindo-o contudo ao segmento jovem/adulto. Como resultado, há mais de 50 anos que as distopias não eram tão populares. Poderá este retorno ser um sinal de novos tempos conturbados?


fnac-revista-estante-thomas-moreUtopia,
mas só para alguns 
A palavra “utopia” tem origem no livro homónimo que Thomas More publicou em 1516, descrevendo uma sociedade supostamente perfeita. Curiosamente, a “perfeição” imaginada por More contempla, entre outros, a existência de guerra e a proliferação de escravos.

 

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