Despertar: Stephen King reinventa Frankenstein

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“Não me pergunto se Deus existe ou não. Escolho acreditar que existe”, revelou Stephen King em 2014, numa entrevista concedida à Rolling Stone. “Desta forma posso dizer: ‘Deus, não consigo fazer isto sozinho. Ajuda-me a não beber hoje. Ajuda-me a não tomar drogas hoje.’”

King vive bem com esta filosofia. Terá até sido assim que o autor, outrora viciado em álcool e drogas, os trocou pelo vício exclusivo da escrita. O que não significa que tenha abandonado por inteiro as suas considerações sobre a fé. Continua a acreditar, por exemplo, que “a religião organizada é uma ferramenta muito perigosa que tem sido utilizada erradamente por muitas pessoas”. Continua a afirmar-se agnóstico quanto à possibilidade de vida após a morte. E continua a não querer ir para o Céu quando morrer: “Parece-me aborrecido. A ideia de passar o dia sentado numa nuvem a ouvir tipos a tocar harpa? Não quero ouvir harpas. Quero ouvir Jerry Lee Lewis!”

Em criança, King não tinha escolha: acreditasse ou não, ia todos os domingos à missa e passava as férias de verão em campos religiosos. Agora, com 70 anos, escolhe acreditar em Deus. Mas encara a fé de uma forma bastante mais relaxada.


Quando olhamos para trás, acreditamos que as nossas vidas formam padrões. Cada acontecimento começa a parecer lógico, como se algo – ou Alguém – tivesse planificado todos os nossos passos (e tropeções).


A principal religião de Stephen King acaba mesmo por ser a literatura. O seu novo romance, Despertar, fala de fé e descrença, de vida e morte, mas não é inspirado em teólogos ou filósofos. King dedica-o “a algumas das pessoas que construíram as fundações da [sua] casa”, incluindo nomes como Bram Stoker, Shirley Jackson e Peter Straub. Cita H. P. Lovecraft ainda antes de iniciar a história: “Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em realidades estranhas até a morte pode morrer.” E retira inspirações de Frankenstein de Mary Shelley e O Grande Deus Pã (“que me assombrou a vida toda”) de Artur Machen.

O resultado é uma história narrada na primeira pessoa por um homem que poderia muito bem ser seu contemporâneo. Jamie Morton vive em Harlow e tem apenas 6 anos quando nos é apresentado. Tal como King na sua infância, não tem escolha no que respeita a ir à igreja. Mas não se importa. Até porque Charles Jacobs, um novo reverendo, acaba de chegar à sua cidade, cheio de ideias modernas para implementar na comunidade, bem como uma enorme admiração por eletricidade, que considera um dos portais de Deus para o infinito.

Só que as coisas não permanecem felizes por muito tempo. A mulher e o filho do reverendo tornam-se vítimas de uma tragédia terrível. E, como consequência, Jacobs renega Deus.

“Dizemos a crianças tão pequenas como o meu filho morto que elas podem arder no fogo eterno se roubarem um rebuçado ou mentirem sobre porque molharam os sapatos novos”, declara a certa altura o pastor, num dos discursos mais corrosivos de toda a história. “Não existe prova desses destinos na vida após a morte, nem um vestígio de ciência, apenas uma certeza cega, agarrada à nossa poderosa necessidade de acreditar que tudo tem sentido. Mas quando eu estava na sala das traseiras da Peabody, a olhar para o cadáver desfigurado do meu filho, que queria muito mais ir para a Disneylândia do que para o Céu, tive uma revelação. A religião é o equivalente teológico dos seguros fraudulentos, em que pagamos o prémio ano após ano e depois, quando precisamos dos benefícios religiosamente pagos, desculpem o trocadilho, descobrimos que a empresa que aceitou o nosso dinheiro na verdade não existe.”

O desabafo vale-lhe o abandono da cidade. No entanto, antes de partir, depara-se com Jamie e diz-lhe: “Tu és o Alfa e o Ómega. […] Apocalipse, capítulo 1, versículo oito. ‘Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim.’ Foste a primeira criança que vi quando cheguei a Harlow e também vais ser a última.”


Em certo sentido, a nossa vida é verdadeiramente um filme. Os protagonistas são a família e os amigos. Os atores secundários são os vizinhos, os colegas de trabalho, os professores e os conhecidos. Há ainda os papéis menores: a jovem caixa do supermercado com o sorriso bonito, o empregado simpático do bar, os colegas do ginásio que encontramos três vezes por semana. E há milhares de figurantes que passam pela nossa vida como água pela peneira – são vistos uma única vez e nunca mais.


A partir deste momento, a narrativa dá um salto de vários anos. Jamie é agora adulto, mas a sua vida não evoluiu da melhor forma: tornou-se um guitarrista medíocre, desiludido com o mundo, e um toxicodependente a tempo inteiro. Jacobs, por sua vez, não está muito melhor: a obsessão com a eletricidade cresceu ao ponto da loucura.

Como não podia deixar de ser, os caminhos dos dois homens voltam a cruzar-se e as consequências são tão perturbadoras quanto necessárias para as vidas de ambos. O que justifica a reflexão inicial de Jamie: “Houve uma altura em que eu teria dito que escolhemos os nossos caminhos ao acaso: isto aconteceu, depois aquilo, daí ter acontecido aqueloutro. Hoje, penso de outra forma. Existem forças.”

Se dúvidas persistirem, fica o esclarecimento: Despertar é um livro de terror à moda antiga, que revisita alguns dos temas de Pet Sematary, por exemplo, e os reinterpreta à luz de clássicos como O Grande Deus Pã e Frankenstein. Tudo com o talento ímpar de King para tornar o sobrenatural tão autêntico que sentimos viver os pesadelos das personagens.

Um sentimento que se estende também ao próprio escritor. “Despertar é demasiado assustador”, chegou a afirmar Stephen King ainda antes de o livro ser publicado. “Nem quero pensar mais nesse livro. É um trabalho sombrio e perturbador, é tudo o que tenho a dizer.” Prova de qualidade de um dos melhores livros de terror do ano.


Por: Tiago Matos

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