Desafio: que tipo de livro és tu?

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Se os livros existissem sem embalagem, achas que serias o mesmo leitor que és hoje?

Isto porque há quem escolha um livro pela capa ou pela qualidade que reconhecem no nome do autor, na sinopse, no género anunciado. Estes não são critérios perfeitos, por isso acabamos sempre por “discriminar” obras de que talvez até gostássemos. E se os eliminássemos? A revista Estante propõe-te uma prova cega para escolheres o teu próximo livro apenas através de fragmentos aleatórios do seu conteúdo.

Escolhe a tua citação preferida na página 50.

A

B observa-a. A mulher usa um vestido claro, folgado, de tecido leve, com um amplo decote que lhe deixa os ombros nus. B pensa que a mulher irá seguir o seu caminho, mas ela não se mexe, com a mão fixa no canteiro, o olhar baixo, e então B levanta-se, com o livro na mão e aproxima-se. A sua primeira surpresa dá-se ao observar o seu rosto.

— Ouve — disse o homem alto. — Gostava de te pedir um favor.
Anna fez um aceno de assentimento.
— Dás-me o teu nome?
— Anna.
— Não — disse ele, acocorando-se. — Dá-mo.
Aquilo era confuso e um pouco inquietante. Mesmo que ela quisesse dar-lhe o seu nome, Anna não sabia como podia fazê-lo.
— Não compreendo. Como?

— Nunca discuto as idas e vindas dos membros e dos seus convidados. Além disso, não me lembro do seu nome.
— Archer. Lew Archer.
— Eu sou a Ella Strome. — A placa de identificação que estava em cima do balcão à frente dela dizia: Sr.ª Strome, Secretária do Clube. Ela viu-me olhar para a placa e acrescentou num tom neutro: — Presentemente não sou casada.

Ernst acha que a avó Babett só barafusta com ele porque gosta mais das raparigas do que dos rapazes. Ou se calhar é por ele se chamar Ernst e ter umas orelhas tão grandes como as do avô, que a abandonou com nove filhos para se casar com uma mulher mais nova.

— Coitado do Corcunda. Se matar por causa daquela lambisgóia. Não me conformo. Horácio? Horácio! Acorda, Horácio!
— Ahn?
— Acorda, meu filho. E põe a mão na boca para bocejar, faz favor.
— Acabou aquele Corcunda de bosta?

Escolhe a tua citação preferida na página 100.

A

Durante a refeição, B come um bife de vaca e M uma salada de que deixa metade. Eu nem sequer tinha nascido quando o teu amigo morreu, diz M com um tom nostálgico. Não era meu amigo, diz B. Mas tinhas nascido, diz M com um suave sorriso trocista. Quando ele morreu, eu estava a viajar, diz B.

O Homem-Andorinha tinha desposado e incarnado a cada passo uma filosofia muito simples que se baseava na ideia de que era necessário sofrer para dar benefício a outra pessoa, que as ligações entre gente, por mais breves, por mais efémeras, por mais falsas, até, que fossem, tinham o verdadeiro potencial de salvar vidas.

— O Sr. e Sr.ª Fablon tinham chegado a um ponto em que já não tentavam disfarçar nada. Cada um deles procurava conquistar-nos para o seu lado.
— Quem ganhou?
— Ninguém ganhou — disse-me ele. — Toda a gente perdeu.

Johann faz uma expressão amuada, mas depois conta-lhe que vai muitas vezes fazer compras para a vizinha do tio. É uma senhora de idade e dá-lhe sempre qualquer coisa quando ele a ajuda. Hoje foi generosa e ofereceu-lhe um reichsmark, um marco inteiro!

O que lhe restava era contemplar Mariana. Tão linda, tão limpinha. E pra quê? Pra quem? Quem sabe o papa e seu báculo de castão encaracolado não davam um jeito naquilo. Podiam ir ao Vaticano e pedir uma audiência na alcova papal.

Escolhe a tua citação preferida na página 150.

A

Os maqueiros depuseram o meu cadáver em cima de um divã verde-escuros e retrocederam uns passos, à espera da sentença de Villeneuve.

O que começou penosamente terminou de forma horrenda.
Ainda que cada um à sua maneira, os três começaram a sentir a sua presença, começaram a compreender cada vez mais, a cada passada, e em breve sabiam que era uma certeza: a morte tinha vindo para ficar, naquela parte do mundo.

Ela não era especialmente bonita. Deveria haver outras razões para o extenso luto do marido. Se calhar, pensei eu, a dor era o único sentimento de que ele era capaz; ou talvez isso fosse apenas uma desculpa para beber.

— Estás a dormir?
— Não.
— Tu és o novo. Queres dar uma voltinha?
— Aonde?
— Pela casa, talvez até lá cima, ao dormitório das raparigas.
— Estás maluco?
— Bem me parecia que és um cobarde.
— Não sou nada.

Vestida só com as tatuagens de motivos espaciais, único traje que usou desde que chegamos neste tugúrio climatizado, a Synead deu pulos quando viu a explosão, esmurrou várias vezes o ar, relando o punho cerrado no teto de concreto aparente, soltando guinchos de júbilo, como se tivesse acabado de ganhar algum prêmio científico importante, o Nobel de astrofísica, no mínimo.

Escolhe a tua citação preferida na página 200.

A

Mais tarde, ao explicar-lhe o que tinha sentido no seu consultório (isto é: apreensão, medo, uma angústia que subia de forma descontrolada), o meu amigo declarou que a ele costumava acontecer-lhe uma coisa parecida nos edifícios aparentemente vazios.

Se tivessem de comer entulho ou lixo, era o que fariam. Nunca passariam fome numa cidade junto ao mar, se ele e ela conseguissem esquecer a palavra dignidade. E assim ficava resolvida uma necessidade.

— Quanto valho eu? — disse-lhe alegremente.
— Morto ou vivo?
Isso fez-me parar.

A estação de Kaufbeuren tem o mesmo aspeto que as outras, bandeiras com a suástica por todo o lado, bandeirolas e grinaldas, homens de uniforme, passageiros e camponeses.

A perspectiva de ir à Itália com o dinheiro alheio também parou de me acenar no espírito. E mais: o rico volume que eu trazia enfiado na cintura, na altura da minha mais ou menos discreta pança, começou a me provocar um desconforto que não era apenas epidérmico.

RESULTADOS

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Se preferiste mais vezes a opção A…


PUTAS ASSASSINAS
Roberto Bolaño

Com um estilo demarcado – e muito “literário” –, o chileno Roberto Bolaño foi um dos mais importantes autores latino-americanos da sua geração. Neste livro, reúnem-se vários contos que encontram a complexidade no mundano, incluindo alguns em que o próprio autor surge na narrativa através do cognome “B”.


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Se preferiste mais vezes a opção B…


ANNA E O HOMEM ANDORINHA
Gavriel Savit

Com um tom ternurento e um encanto quase infantil, este primeiro romance do jovem ator e escritor Gavriel Savit pode muito bem ser lido como uma alegoria semelhante a O Principezinho. Passado em Cracóvia, no ano de 1939, tem como foco a relação que uma menina de 7 anos estabelece com o estranho Homem Andorinha.


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Se preferiste mais vezes a opção C…


DINHEIRO NEGRO
Ross Macdonald

Neste clássico policial de 1966, escrito no jeito duro e sem rodeios da era dourada dos romances criminais, Kenneth Millar – sob o célebre pseudónimo de Ross Macdonald – socorre-se do detetive privado Lee Archer para a investigação de um caso que envolve jogo, (muito) dinheiro e um suicídio que poderá muito bem ter sido assassinato.


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Se preferiste mais vezes a opção D…


NEVOEIRO EM AGOSTO
Robert Domes

Esta é a história verdadeira de Ernst Lossa, um rapaz de etnia cigana que foi vítima do regime nazi, na Alemanha de Adolf Hitler, por não se enquadrar no suposto ideal do perfil ariano. Um relato tenebroso, fruto de uma extensa investigação aos arquivos da época por parte do jornalista e editor Robert Domes.


humidade

Se preferiste mais vezes a opção E…


HUMIDADE
Reinaldo Moraes

O melhor da literatura lusófona pela mão de um dos principais cronistas – e guionistas, e radialistas – brasileiros da atualidade. Neste romance sobre amor, desejo e fantasia, conhecemos dois casais com perspetivas diferentes sobre o papel que o sexo deve desempenhar numa relação.

Por: Tiago Matos

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