David Machado: “Durante muito tempo não considerei a literatura uma área que eu quisesse explorar”

Saltando entre livros infantis e romances para adultos, entre os quais Índice Médio de Felicidade, que lhe valeu este ano o Prémio da União Europeia, David Machado apresenta as suas principais influências e explica que os livros que mais aprecia são os que o deixam intrigado.

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Índice Médio de Felicidade

Índice Médio de Felicidade, livro pelo qual David Machado foi distinguido com o Prémio da União Europeia para a Literatura, tem como protagonista um homem que, aos 37 anos, se vê desempregado, afastado da família e sem rumo aparente perante a crise económica que assola Portugal. Os seus dois melhores amigos não estão muito melhor: um é depressivo e não sai de casa há 12 anos, o outro foi preso após uma tentativa desesperada de remendar a vida. Não abandona, contudo, a esperança e parte com eles em missão, tendo em vista atingir um futuro mais risonho.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Só me lembro de um título que uma vez me apareceu na cabeça para um possível romance mas que eu gostava que fosse o título do livro da minha vida: Vida Mais Longa. Pelo simples facto de que queria dizer que eu ia viver muito. E eu gosto de viver.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Durante muito tempo não considerei a literatura uma área que eu quisesse explorar. Antes da literatura estava o cinema, e acho que foi com o cinema que, em primeiro lugar, tive vontade de ser criativo e contar histórias. Quando era mais pequeno via muitos filmes que o meu pai tinha em casa – Hitchcock, Orson Wells, coisas antigas – e a certa altura comecei a procurar as minhas próprias referências. Lembro-me dos primeiros filmes do Tarantino, uma mudança grande na forma como eu olhava para o cinema, e sempre gostei imenso dos filmes do Tim Burton. Mas sempre vi de tudo e fui buscar coisas de todo o lado, mesmo aos maus filmes. Aprende-se como não fazer, aprendem-se os pequenos tiques que os realizadores têm, os lugares-comuns.

Só muito depois, sem me aperceber exatamente de como as coisas aconteceram, é que comecei a querer escrever livros. Comecei a prestar mais atenção aos autores que estava a ler, em primeiro lugar os sul-americanos – Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Isabel Allende, Mario Benedetti – porque tinham uma forma de contar histórias com a qual eu me identificava muito, a forma como misturavam a realidade com a fantasia, com lendas, com religião. Durante muito tempo, assumidamente procurei fazer algo semelhante.

Depois, nos últimos anos, tenho andado muito voltado para as literaturas anglo-saxónicas, sobretudo novos romancistas. Há um autor que é muito recente, chamado Jonathan Safran Foer. Só tem três romances, mas são todos bastante bons. O segundo chama-se Extremamente Alto e Incrivelmente Perto e, quando o li, percebi que há uma forma de olhar para o mundo que eu achava que não tinha. Ele consegue falar de acontecimentos muito recentes, como o 11 de Setembro, e dar-lhes uma visão diferente. Outra coisa que eu gosto muito é que ele vai para lá do próprio texto e faz jogos com o grafismo, com fotografias, com os espaços em branco, e esse trabalho dá uma força ao que as personagens dizem que não é possível só através das palavras. Essa mistura de artes fascinou-me.

Também há um livro do Charles Bukowski, Ham on Rye – Pão Com Fiambre, que li quando estava numa época de mudanças na minha vida, pouco antes de largar a Economia e começar a escrever. Interessou-me muito a honestidade com que ele escreve.

Sinto influências, antes de mais, ao nível da história. Todos estes autores escrevem romances assentes numa narrativa forte. E depois ao nível da linguagem. Acho que não faz sentido um escritor escrever sobre a realidade do presente sem explorar também a linguagem do presente.

O que é para si um bom livro?

Um livro que me faz pensar. Se chegar ao final do livro e não tiver perguntas, esse livro é um livro falhado. Se só me der respostas, não serve para nada. Não preciso de respostas. Quero um livro que me dê perguntas. Acho que um livro tem sempre de ter espaço para que o leitor o preencha com as suas próprias emoções, os seus pensamentos, a sua experiência. Um livro que não deixa esse espaço não serve mesmo para nada.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Foi um livro de uma escritora inglesa, Ali Smith, que acho que ainda não está publicado em Portugal. Chama-se How to Be Both. Achei extraordinário. Incrível, mesmo. É uma referência a várias coisas: como conseguimos ser velhos e novos, homem e mulher dentro da mesma pessoa, estar aqui hoje e termos dentro do corpo todas as memórias e experiência dos nossos antepassados. Como conseguimos viver neste tipo de equilíbrios. E é um livro que tem muito a ver com a arte. O que é? O que vem primeiro e depois? Se olharmos para um quadro, somos nós que lhe damos sentido ou foi o pintor? É muito, muito bom.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Hoje em dia está bastante caótica, porque tenho muitas coisas que orbitam em volta da escrita mas que não são exatamente a escrita. Num dia mais calmo, vou pôr os meus filhos à escola e depois volto para casa e trabalho na história que estiver a escrever durante seis ou sete horas, com uma paragem para almoçar.


“Um livro tem sempre de ter espaço para que o leitor o preencha com as suas próprias emoções”


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Veja o vídeo desta Entrevista.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Escrevo sempre no computador, a não ser quando estou a pensar na história. Aí tomo notas num caderno, sobretudo porque essas ideias aparecem nos momentos mais inesperados. Já me aconteceu estar na cama a adormecer, à noite, e lembrar-me de alguma coisa. Ainda acendo mais uma vez a luz e tomo nota no caderno ao lado da cama. Se estiver ao lado da cama.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Eu penso muito antes de começar a escrever. Quando começo finalmente a escrever o texto, sei muito bem para onde quero ir. Não quer dizer que depois vá por esse caminho. Normalmente até não vou. Isso é aquilo que é mais estimulante na escrita: chegamos a lugares do nosso pensamento aos quais não chegaríamos só a pensar. A associação de palavras e a frase escrita à nossa frente normalmente despertam outro tipo de ideias. Mas quando me sento, normalmente tenho uma série de lanternas que me vão iluminando o caminho. Não quer dizer que saiba necessariamente o final da história, mas sei mais ou menos para onde é que aquilo me leva.

Como lhe surgiu a ideia de Índice Médio de Felicidade?

A ideia original era escrever sobre três amigos e tinha mais a ver com o suicídio, com alguém a quem as coisas não estão a correr bem e quer desistir. Depois, à medida que fui construindo as personagens, esta questão da felicidade meteu-se porque, na verdade, é um tema que me é muito próximo há muitos anos. Acabou por se tornar um livro sobre um homem em crise em tempos de crise, o que o leva a questionar tudo: a sua própria vida, a felicidade, os planos para o futuro, a sua esperança, os seus valores e se vale a pena continuar, o que tem a ver com a ideia inicial que eu tinha. Acabou por ser um ponto de encontro entre vários temas e ideias: a felicidade, o altruísmo, a crise económica…

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Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Estou a escrever um novo romance para aí há um ano, mas não tenho tido tempo. Há vários trabalhos que tenho de ir fazendo – felizmente todos ligados à literatura – porque preciso de ganhar dinheiro e é difícil ganhar dinheiro só com direitos de autor em Portugal. Esses trabalhos tomam-me muito tempo. É tudo por uma boa causa, na verdade, mas tenho alguma pena de ter largado esse romance. Já não pego nele há alguns meses. Assim que tiver algum tempo livre, é isso que quero fazer. Mas ainda nem sequer há uma primeira versão escrita, nem sei se conseguirei chegar ao fim e se será publicado. Não gosto nada de falar sobre as coisas sem ter a certeza se vão mesmo acontecer.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Tem a ver com a questão do retorno monetário. O nosso país é muito pequeno e as pessoas não leem tanto cá, não compram tantos livros como em outros países pequenos. Por exemplo, na Holanda vendem-se muitos livros e eles até são menos que nós. É difícil viver dos direitos de autor. Por muito que eu goste de ir falar às escolas e dar entrevistas, preferia fazer menos tudo isso e ter mais tempo para dedicar aos livros. Mas não tenho muitas queixas em relação ao meu trabalho. Adoro o que faço. Sei que sou um sortudo.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor?

O que costumo dizer nas escolas aos miúdos é que, antes de mais, têm de ler. E têm de ler muito. Acho que há muita gente que quer e gosta de escrever, mas não lê muitos livros e não lê diferentes tipos de livros e não tenta ler livros que sejam mais exigentes do que o tipo a que estão habituados. E depois é preciso escrever muito. Há muita gente que escreve um conto ou dois e fica logo satisfeito, a pensar que poderia publicar qualquer coisa. Temos de escrever 20, 30, 40 contos. Temos de escrever três romances até acertarmos. Não fiquem satisfeitos à primeira. É importante falhar para percebermos como podemos fazer melhor.

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