Daniela de Castro: “Já vejo Harry Potter como um clássico”

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Daniela de Castro, livreira na FNAC Guimarães, dá a sua opinião sobre os livros mais emblemáticos dos últimos 20 anos.

O que lhe vem à cabeça quando pensa nos livros mais marcantes dos últimos 20 anos?

Penso em inúmeros escritores que se destacaram, no sentido que se poderão tornar clássicos: Javier Marías, Philip Roth, Jonathan Franzen, Javier Cercas, Mario Vargas Llosa, Haruki Murakami, Enrique Vila-Matas, Gonçalo M. Tavares, entre outros.

Partindo do princípio que os livros definem uma época, não podemos falar de literatura sem a situar no contexto social e político. Ao pensar nos últimos anos, surgem-me de forma perentória as narrativas distópicas dos seguidores de Orwell, Huxley e Zamiatine. São exemplo de um pensamento literário que incorpora o medo vigente: o Estado Islâmico, a supremacia da máquina sobre o homem e a ameaça constante da perda de liberdade.

De entre o que talvez se pode considerar mais inovador, destaco a narrativa crua de Roberto Bolaño, 2666, pela construção, pelo propósito, pela diferenciação. E Austerlitz, de W. G. Sebald, obra inclassificável em torno da memória da Segunda Guerra Mundial.

Nos géneros mais populares do momento, que livros acredita terem mais possibilidades de serem vistos como clássicos no futuro longínquo?

Harry Potter! Aliás, já o vejo como um clássico. Com as aventuras do pequeno feiticeiro, J. K. Rowling conseguiu devolver-nos a magia e a comoção na luta do bem sobre o mal, que outrora encontrávamos em J. R. R. Tolkien.

Nos restantes géneros, no policial nórdico avançaria com Stieg Larsson e a saga Millennium; no romance histórico destaco Ken Follett com a trilogia O Século; e no thriller de ação Dan Brown que, com aquela que é a temática transversal à sua obra, a dicotomia religião/ciência, conquistou um lugar de destaque que penso que nenhum outro escritor irá igualar.

Recentemente, o thriller psicológico surge quase sempre aliado a um romance repleto de tragédia, drama e violência. Esta “fórmula” tem vindo a obter cada vez mais entusiastas: note-se o sucesso de A Rapariga no Comboio – julgo que tal se deve, também, à adaptação cinematográfica, como aconteceu com a obra de Gillian Flynn.

Os romances eróticos, bem como a literatura light, serão sempre vendidos, massivamente procurados, um pouco ao estilo de romances de cordel moderno. No entanto, julgo que não teremos nenhuma obra que se evidencie ou que possa ser vista como um clássico. Esta opinião estende-se aos romances paranormais e Young Adult.

Que géneros literários antevê que poderão surgir – ou explodir – nos próximos 20 anos?

Explodir, talvez a autobiografia romanceada. Indico-o devido ao fenómeno Ferrante, que surgiu como se tratasse do regresso do há muito desejado “encoberto”. Através de A Amiga Genial, a autora apresenta-nos uma narrativa que se transfigura entre realidade e ficção, marcada pelo olhar por dentro, de dentro do “eu”, como se tratasse de um mergulho profundo na intimidade, na emoção.

Indico igualmente a ficção científica num mundo que se entregou e abraçou a máquina. E, mais uma vez, as distopias – aliás, estamos perante uma nova distopia: Donald Trump!

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