Autor do mês: 6 curiosidades sobre Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Naturalidade
Lisboa

Data de nascimento
25 de julho de 1955

Primeiro livro publicado
Escrítica Pop (1982)

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Fazendo das memórias a base para a sua escrita, Miguel Esteves Cardoso volta à literatura com mais um volume de crónicas, No Passado e No Futuro Estamos Todos Mortos, depois de um interregno de cinco anos. Queres saber mais sobre este autor?

Miguel Esteves Cardoso admite que fez coisas horríveis no Independente

Estávamos em 1988 quando, juntamente com Paulo Portas, Miguel Esteves Cardoso fundou O Independente, jornal que somou processos em tribunal. “Fomos milhões de vezes acusados e muitas vezes com razão. Fizemos coisas horríveis. Acusámos pessoas sem razão”, reconhece. Apesar de hoje se envergonhar de parte do que escreveu na altura, admite que gostou de o ter feito.

“Tínhamos a mania de que éramos bons e que se devia gozar com as meias brancas”, graceja, referindo-se à marca pela qual eram conhecidos os ministros de Aníbal Cavaco Silva, cujo governo tinha sido recentemente eleito quando O Independente surgiu. As notícias do jornal, que acabou por se tornar um forte opositor do governo, “não eram muito confirmadas” mas o dinheiro sustentava os “disparates” e “atropelos”, de acordo com o autor.


Miguel Esteves Cardoso reconhece que tem prosa grossa

A relação de Miguel Esteves Cardoso com a literatura foi-se intensificando à medida que se afastava do jornalismo. O Amor é Fodido, publicado em 1994, foi o primeiro dos três romances que escreveu. No entanto, cedo descobriu que não gosta de se limitar a um só género.

“A invenção do romance é uma coisa muito bonita mas eu nunca desistiria das outras escritas”, afirma. “O que me interessa é apanhar uma emoção e tentar transformá-la em palavras de forma a que outra pessoa possa ler e reconhecer-se: ‘Ah, é isto mesmo.’”

Ainda hoje continua a escrever crónicas para jornais. Queixa-se, contudo, que lhe é difícil escrever pouco e respeitar o limitado espaço a que tem direito. Tem uma prosa grossa, diz.


Miguel Esteves Cardoso pensou que ia morrer

Durante vários anos não conseguia estar em casa. Era uma pessoa tão “pública” que estava sempre a almoçar e jantar fora, um hábito que ganhou desde pequeno. Os amigos eram os empregados dos restaurantes, onde se escudava com os livros. Foi provavelmente nessa altura que “bebia de manhã à noite, todos os dias, sempre”, como chegou a admitir.

Mas o álcool não era o seu único apetite. Na verdade, assumia a vontade de “provar tudo, mesmo sabendo o mal que representava para o corpo”. Uma vontade que, há cerca de 15 anos, fez com que apanhasse um susto de ficar “à beira da morte”. A partir dessa altura, começou a ter muito mais cuidado. E recuperou.


Miguel Esteves Cardoso conheceu a mulher com a “ajuda” de Beckett

O ano em que perdeu o pai marcou o início de um período negro na vida de Miguel Esteves Cardoso. “Uma pessoa aproveita o luto para sofrer e esse sofrimento abre uma brecha qualquer e vem a depressão que já lá estava”, explicou numa entrevista. Durante dois anos só precisou de um garfo, de uma faca e de uma colher. Pensou em desistir. Um período que recorda no seu mais recente livro, No Passado e No Futuro Estamos Todos Mortos: “Todas as depressões são diferentes: a mim deu-me para ler livros que não me interessavam, desde a primeira à última letra.”

Coincidência ou não, a verdade é que começou a melhorar no ano em que conheceu a sua mulher, Maria João. Entrou em contacto pela primeira vez com ela quando a convidou para um projeto que envolvia a locução de algumas peças de Samuel Beckett. “O Beckett tem-me ajudado muito nestes anos. E é o maior escritor de sempre”, afirmou. O projeto, esse, nunca se chegou a concretizar.


Miguel Esteves Cardoso é português de profissão

Filho de mãe inglesa, Miguel Esteves Cardoso só começou a aprender português quando tinha 5 ou 6 anos. A sua língua materna era o inglês (embora não vá a Inglaterra há décadas), uma mais-valia que lhe permitia fazer traduções literais que, por vezes, eram interpretadas como escrita criativa. “A minha incompetência linguística, mas gramaticalmente correta, fazia com que parecessem inovadoras certas formas que são tipicamente inglesas”, confessou.

Apesar de se considerar meio lusitano e meio britânico, declara que “ser português é a minha profissão e, caso não exista isso de se ser português, estou tramado”, em Como é Linda a Puta da Vidao mesmo livro que reúne grande parte das crónicas que escreveu quando a mulher esteve doente com cancro. E no qual se confessa um eterno apaixonado: “Quando inventaste [Deus] o amor, esqueceste-te que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e tu.” 


Miguel Esteves Cardoso passa 15 horas por dia a ler

As crónicas são as suas memórias mais recentes. Afinal, é inevitável fugir ao lado autobiográfico da escrita. No entanto, Miguel Esteves Cardoso confessa que “a parte interessante de [si] é a parte que é igual aos outros”. E o melhor que pode acontecer a um escritor é que o leitor se identifique com ele.

Apesar de ser mais conhecido por livros de crónicas como Amores e Saudades de Um Português ArreliadoA Causa das Coisas e Os Meus Problemas, admite que no melhor dos casos “uma pessoa entrega uma crónica boa sabendo que a seguinte vai ser uma merda e a seguinte também e a seguinte também”.

Mas não é por isso que deixa de gastar um moleskine por cada par que compõe. Afinal, passa um dia inteiro entre pensamentos, leituras e anotações. Tanto que diz que passa a vida a ler: 15 horas por dia. Por cada hora que escreve, recebe três de leitura. Arrisca até que lê mil livros por ano.

Por: Tatiana Trilho
Fotografia: Maria João Esteves Cardoso

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