Corto Maltese: um marinheiro regressa sempre ao mar

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O marinheiro que Hugo Pratt criou em 1967 regressa às aventuras pela mão de dois espanhóis. A Estante falou com o guionista Juan Díaz Canales e com o ilustrador Rubén Pellejero sobre as novas viagens do anti-herói da banda desenhada.

Por: Mariana de Araújo Barbosa
Ilustração: Rubén Pellejero

Mantém o brinco dourado na orelha esquerda e a pose de bon vivant que qualquer marinheiro que se preze precisa de preservar. Vinte anos depois de nos chegarem as últimas notícias sobre o oficial da Marinha Mercante que o ilustrador e argumentista Hugo Pratt batizou de Corto (significa “rápido”, em espanhol) Maltese, as aventuras pelos mares e portos do planeta estão de regresso. Nas mãos da dupla espanhola Juan Díaz Canales (guionista) e Rubén Pellejero (ilustrador) ficou a responsabilidade de voltar a dar vida à vida aos quadradinhos do marinheiro.
O duo assumiu a missão de contar uma história totalmente nova usando como base a criação de Pratt, respeitando-lhe
 o estilo sem que isso comprometa a vontade de ir mais além.“O mais difícil foi evitar a imitação”, explica Canales.“Fazer uma obra nova, expressarmo-nos como autores, mas ao mesmo tempo respeitar o legado de Pratt. Estou muito satisfeito por ver que o livro mantém o equilíbrio entre a continuidade e a criação de algo novo e pessoal”, conta à Estante, a propósito do convite das editoras Norma, Casterman
e Rizzoli.

Um anti-herói complexo

Corto inicia as suas aventuras nas primeiras décadas do século XX, viajando de Veneza às Caraíbas e das florestas 
da Amazónia às ondas do Pacífico.
 O marinheiro é o anti-herói que prefere a liberdade e a imaginação à riqueza, uma espécie de Ulisses moderno que leva os leitores a viajarem por alguns dos lugares mais fascinantes e longínquos do mundo. Por isso, de acordo com o ilustrador Rubén Pellejero, a adaptação à atualidade é natural, tanto gráfica como literariamente. “O personagem não envelheceu em absoluto, a sua maneira de pensar e de agir continua a ser perfeitamente válida nos nossos dias. A nossa intenção é fazer com que o leitor que já o conhece o reconheça e possa voltar a fazê-lo seu e a sentir-se atraído pelas novas aventuras. E que, ao mesmo tempo, os que não o conhecem descubram Corto pela primeira vez e se sintam atraídos pelo seu conjunto.”

Criado pelo italiano Hugo Pratt em 1967, Corto Maltese nasce em Malta, em julho de 1887, filho de uma cigana de Sevilha e de um marinheiro da Royal Navy oriundo da Cornualha. Com residência oficial nas Antilhas, de pouco lhe vale a morada: passa a vida a viajar, combinando o estilo mediterrânico com a cultura anglo-saxónica, e personifica a lenda do marinheiro latino à descoberta do mundo. Apesar do trabalho, carrega consigo uma aura de mistério que os seus laivos de pirata deixam adivinhar. Suspeitos também são os amigos de caráter duvidoso, como Rasputine.

“Corto é um personagem necessário, moderno e completamente atual pelo seu idealismo face aos poderosos. A maior parte dos conflitos que Corto vive nas suas aventuras, como a decomposição do imperialismo, o nacionalismo ou a guerra entre o primeiro e o terceiro mundos, continuam vigentes ou estamos agora a viver as suas consequências. É um verdadeiro herói que se posiciona sempre ao lado do mais frágil, da minoria. É algo tão complexo e interessante que não
 deixa nada a dever às séries de televisão modernas do estilo The Wire ou A Guerra dos Tronos”, avalia Canales.


A edição francesa da nova aventura de Corto Maltese já está à venda em Portugal.


Filho de italiano
 fala espanhol


Hugo Pratt, criador de Corto Maltese, nasceu em Rimini, na Itália, mas passou a maior parte da infância noutra cidade: Veneza. No final dos anos 40 mudou-se para Buenos Aires, capital da Argentina, onde conheceu e teve oportunidade de trabalhar com Héctor Germán Oesterheld, um dos nomes mais conhecidos da banda desenhada a nível mundial. De volta à Europa, criou a publicação Sgt. Kirk. Foi nesta que, em julho de 1967, apresentou Corto Maltese, um personagem que era uma espécie de seu duplo – diz quem conheceu Pratt que não podia haver dois seres mais semelhantes –, na história A Balada do Mar Salgado. Nas décadas que se seguem o herói protagoniza 29 aventuras, dando ainda origem 
a uma série de filmes de animação. Em 1989, seis anos antes da morte de Pratt, é publicada a sua última aventura: .

As reações ao regresso de Corto Maltese não tardaram. Ao Le Figaro, o empresário Michel-Édouard Leclerc, fã confesso do marinheiro com quem diz ter aprendido História e Geografia, refere o entusiasmo face à nova aventura: “Sempre achei que Corto não fora feito para ser um herói de museu. Os verdadeiros heróis nunca morrem.”


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1. Corto Maltese: já o conhecia?

A primeira vez que li foi na já desaparecida revista Totem, editada nos anos 70 e 80 em Espanha. Sabia muito mais sobre o personagem do que sobre o seu criador. Com os anos passei a valorizar muito tudo o que significava para a banda desenhada uma figura como a de Hugo Pratt. Sempre o considerei um grande desenhador que narrava de um modo excelente e captava a aventura de uma maneira diferente da habitual no seu género.

2. É mais difícil continuar do que criar de raiz?

Como é lógico. Quando um personagem é nosso desde
 o início, definimos todas as regras a seguir. No nosso caso, tivemos de adaptar-nos e estudar muitos aspetos do trabalho de Pratt que, sem serem nossos, tinham de definir as nossas possibilidades.

3. Qual é o momento mais complicado?

Há muitos momentos complicados. Não estamos a redesenhar vinhetas nem a aproveitar textos utilizados ou frases já conhecidas. Tudo é novo: imagens, sequências, personagens. E nesse aspeto, pouco nos serve aquilo que já se fez. O desafio está em fazer com que o leitor respire esse ambiente que já conhece, mesmo que tudo seja novo. Captar a essência das histórias e do ambiente do personagem foi a nossa meta a seguir.

4. Há liberdade 
na (re)criação?

É evidente que nunca é a mesma que teve o seu criador. Mas, deixando de lado certos parâmetros que somos obrigados a respeitar por se tratar de uma sequela, trabalhámos com total liberdade e divertindo-nos como se se tratasse do nosso próprio personagem.


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1. Corto Maltese: já o conhecia?

Sou um admirador absoluto da obra de Pratt. Corto Maltese foi muito importante na minha formação como autor e atrever-me-ia a dizer, inclusivamente, a nível pessoal. O convite pareceu-me algo incrível, desse tipo de coisas com as quais nem nos atrevemos a sonhar. Passada a surpresa inicial, não tive quaisquer dúvidas em aceitar. Um desafio assim não aparece todos os dias!

2. É mais difícil continuar do que criar de raiz?

Tem muito mais vantagens do que desvantagens. Uma vez que Corto é um personagem desenvolvido quase como se tivesse existido na realidade, tem uma biografia que não se pode mudar. Sobretudo se se quer respeitar a obra de Pratt, como foi o nosso caso. Ao mesmo tempo, precisamente porque se trata de um personagem muito rico, complexo, carismático e cheio de matrizes, tem imensas possibilidades literárias.

3. Qual é o momento mais complicado?

A parte mais difícil é a de respeitar o que já foi criado. Não porque se trate de
 uma limitação mas porque movemo-nos em períodos históricos muito concretos, tão apaixonantes como complexos. Há que conhecê-los bem para evitar erros geográficos e cronológicos.

4. Há liberdade na (re)criação?

É preciso renunciar a uma pequena parte do estilo para o adaptar a um personagem e a um universo literário que já existe. Por outro lado, Pratt é uma das nossas maiores influências, tanto para Rubén Pellejero, no aspeto gráfico, como para mim no literário. Sentimo-nos muito confortáveis. Não é possível evitarmos sermos nós mesmos. Ao fim e ao cabo, é isso que torna uma adaptação interessante e evita que uma obra se transforme numa cópia sem substância.

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