Editorial: Valter Hugo Mãe

ValterHugoMaeNa década de 1980 comprávamos a escassa imprensa literária à procura da familiaridade possível com os escritores, esses corpos difíceis. Acreditávamos, apenas lentamente, na sua dimensão humana ao ler as poucas entrevistas, segurando sempre a credulidade quando se abeiravam das coisas reais, duvidando da prova de que os escritores passavam perto da normalidade. Passavam tão perto de nós. E ficávamos um bom tempo inspecionando-lhes os rostos nas fotografias como à espera de som. Parecia-nos muito que os livros eram obra universal, um património da humanidade como se emassem de uma inteligência superior ou colectiva, e só a imprensa fazia o corpo do autor, a imprensa era gente, alguém que se colocava expressamente diante de nós.

Para quem vivia fora dos grandes centros, os escritores eram todos grandezas secretas, revelados quase exclusivamente através da obra, feitos de não serem mais nada. Perante as entrevistas, a sensação de proximidade ganhava uma importância inaudita e, não querendo confundir o amor pelos livros com o amor pelos autores, medíamos muito do amor a partir do que eram as suas razões, as suas referências, o que esperavam ainda do mundo.

As revistas e os jornais são termómetros. Sabem da temperatura de cada tempo, procuram entendê-lo, explicá-lo, ajudam-no a mudar. As revistas e os jornais tomavam chá connosco e mudavam as nossas vidas.
Achávamos os escritores capazes de tudo. Imaginávamos que tomavam chá connosco.

Uma vez, o António Lobo Antunes apareceu numa fotografia com um casaco igual a um que comprei. Fiquei numa vaidade adolescente como se o bom gosto fosse garantia de inteligência ou talento. Outra vez, o Al Berto explicou porque Lisboa o fazia pecar. Eu pensava que o pecado não existia, achava estranha a palavra.

O José Saramago contava porque se indignava com o governo. Lembro-me de querer acreditar num Cristo crítico, sem peneiras e sem melindres. Um homem frontal. Adorei ler o livro de Saramago como quem fazia um 25 de Abril pessoal só para as questões da transcendência. Quando o Urbano Tavares Rodrigues falava, ficávamos mudos. Tínhamos vergonha de ser uma porcaria de gente se comparados com ele. Era normal que assim nos sentíssemos.

Percebo bem, hoje, que me interessa essa normalidade, a da consciência e da expectativa de melhorarmos. É bastante para o encanto da vida. E percebo que juntar os leitores aos autores é da mais normal justiça.

A revista que a Fnac em bela hora publica sentar-se-á à mesa connosco. O corpo dos escritores comparece.
Nós, enquanto leitores, estamos sempre à espera que eles cheguem. No panorama ainda escasso da imprensa literária nacional, esta revista é uma bênção. Escolherei a melhor erva-príncipe para a ler.

Valter Hugo Mãe

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