Conheces o português que escreveu um livro recomendado por Bill Gates?

Pedro Domingos ajuda-te a compreender alguns fenómenos do mundo digital através de A Revolução do Algoritmo Mestre. Se até Bill Gates recomendou este livro, de que estás à espera para conhecê-lo?

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É segunda-feira de manhã e acordas às 7h30 com o som angustiante do despertador. Por força do hábito, pegas no telemóvel para consultar os e-mails. Sabes perfeitamente que nada aparecerá na caixa de entrada além daquilo que te interessa ver porque, por uma razão alheia ao teu conhecimento, o spam é automaticamente movido para uma pasta à parte.

Entre e-mails está uma notificação que te lembra do aniversário do teu melhor amigo. “Que tal preparar uma surpresa num bom restaurante?”, pensas. Abres o Zomato e procuras um sítio onde possam jantar no centro da cidade. Fechas a aplicação e, ao abrir o Facebook para veres o que há de novo, deparas-te com uma série de anúncios, entre eles um do mesmo restaurante que procuraste antes.

“Como é que isto é possível?”, questionas-te.

Não penses que é uma daquelas perguntas sem resposta: no livro A Revolução do Algoritmo Mestre, de Pedro Domingos, podes saciar a curiosidade e descobrir a resposta a esta e muitas outras perguntas sobre o mistério da inteligência artificial.

Será o “algoritmo mestre” um bicho de sete cabeças?

Comecemos pelo básico. Um algoritmo nada mais é do que uma sequência de instruções que diz a um computador o que fazer. Não foi claro? Então tentemos outra abordagem. Hoje em dia os algoritmos são como células: podemos não conseguir vê-los, mas estão em todo o lado.

No início de A Revolução do Algoritmo Mestre, Pedro Domingos afirma que os algoritmos não estão apenas “no nosso telemóvel ou computador portátil, mas também em nossa casa, nos nossos eletrodomésticos e brinquedos. O nosso banco é um emaranhado gigantesco de algoritmos, com seres humanos a mexer em botões aqui e acolá. Os algoritmos agendam voos e depois pilotam aviões. Os algoritmos administram fábricas, comercializam e encaminham mercadorias, contabilizam os lucros e mantêm os registos de tudo isto.”

Isto dá que pensar: “O que seria da nossa vida sem os algoritmos?” O autor responde-te também a essa questão afirmando que, se todos estes algoritmos deixassem de funcionar, “seria o fim do mundo como o conhecemos”.


“Se, de repente, todos os algoritmos deixassem de trabalhar, 
seria o fim do mundo como o conhecemos.”

Pedro Domingos em A Revolução do Algoritmo Mestre

Esta realidade em que vivemos só é possível através da chamada aprendizagem automática, que acontece quando damos autorização aos computadores para que eles próprios se programem. É isto que faz com que o YouTube recomende sempre o tipo de vídeos que mais gostas ou com que o site da FNAC recomende o género de livros que mais lês.

Curioso, não achas? Mas há mais: todos os e-mails que trocas, todos os textos, tweets, downloads, e até as compras que fazes e os impostos que pagas ficam gravados.

Assustador? Não te preocupes. Pedro Domingos revela também neste livro alguns truques para dispersares os teus dados. Se os vídeos que vês em casa são diferentes daqueles que vês no trabalho, o autor aconselha-te a criares duas contas diferentes. Por outro lado, se queres ver um tipo de vídeo que não costumas ver e não queres que, posteriormente, te façam recomendações nesse sentido, basta fazeres log out na conta.

Já percebeste, por esta altura, que é muito importante acompanharmos o processo de aprendizagem automática com que nos deparamos no dia a dia. Com a racionalidade de um investigador e o empirismo de um escritor, Pedro Domingos criou um livro que nos deixa à frente do nosso tempo.

6 PERGUNTAS A PEDRO DOMINGOS

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PEDRO DOMINGOS
é um investigador na área da inteligência artificial há mais de 20 anos. Estudou e deu aulas no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mas hoje, aos 51 anos, já não mora em Portugal. Vive perto de Seattle, nos Estados Unidos, e é professor de Ciências da Computação na Universidade de Washington.
Além de ter sido galardoado com o prémio de inovação da SIGKDD, é membro da Association for the Advancement of Artificial Intelligence e está envolvido em muitos outros projetos da sua área.
Em 2015 lançou a versão em inglês do livro A Revolução do Algoritmo Mestre – The Master Algorithm. Embora seja um tema do interesse de todos, o livro só se tornou definitivamente um êxito quando, numa conferência, em junho de 2016, Bill Gates o recomendou a todas as pessoas que querem aprender mais sobre o mundo da inteligência artificial.

Será que com o uso dos algoritmos deixámos de ter “liberdade de escolha”?

Pode parecer à primeira vista que sim, mas na realidade é o contrário que se passa. A Internet criou um mundo de escolha infinita: se quero comprar um par de sapatos, em vez de ir à sapataria do bairro e escolher entre 100 pares, posso ir à Zappos e escolher entre um milhão. Mas ninguém tem tempo de olhar um milhão de pares de sapatos; o que os algoritmos de aprendizagem automática fazem então é escolher entre esse milhão a centena que provavelmente nos agradará mais, e então nós escolhemos entre esses.

Se os algoritmos aprenderam bem os nossos gostos e escolhem os mesmos produtos que nós escolheríamos, está tudo a correr bem. O problema surge quande eles não nos conhecem suficientemente bem, ou quando os seus objetivos são diferentes dos nossos. Por exemplo, vender determinados produtos mesmo que não sejam os que nós queremos mais.

Em que momentos do nosso dia a dia podemos encontrar inteligência artificial? 

Encontramo-la a cada momento: nas coisas que Google, Facebook, Amazon, Netflix, Spotify nos recomendam; nos filtros de spam; nos nossos telemóveis (por exemplo, no reconhecimento da fala); no layout dos supermercados; nas ofertas que recebemos pelo correio; nas aplicações em medicina, finanças, telecomunicações, política, e muitas outras áreas.

Como prevê a evolução da inteligência artificial?

No futuro a inteligência artificial vai ser capaz de fazer cada vez mais coisas de que hoje só os seres humanos são capazes. A longo prazo, é possível que todos os trabalhos do mundo sejam melhor feitos por computadores e robôs. Deixaremos então que ter de trabalhar e os produtos e serviços das máquinas estarão disponíveis a todos, desde que a distribuição da riqueza se faça equitativamente, do que a garantia é em última análise a democracia.

A curto e médio prazo, haverá uma mistura de coisas que são automatizadas e outras não, e cada um de nós vai ter de decidir como quer utilizar essas possibilidades na sua vida pessoal e profissional.

Bill Gates disse que “toda a gente devia ler” o seu o livro para compreender a inteligência artificial. Qual é a sensação?

Foi ótimo, claro. O meu objetivo ao escrever o livro foi ajudar as pessoas leigas a conhecer e compreender a inteligência artificial, e a recomendação do Bill Gates ajudou muito a que o livro chegasse ao conhecimento desse público.

Está atento ao que se faz em Portugal na área da inteligência artificial?

Sim. Embora isso não seja muito conhecido do público, Portugal tem uma comunidade científica importante nesta área, muito maior do que se inferiria das dimensões do país. Isto remonta aos finais dos anos 70, em que a inteligência artificial era ainda investigada em poucas universidades, mas houve portugueses que se doutoraram em Inteligência Artificial no estrangeiro, voltaram para Portugal e desenvolveram uma comunidade que continua a crescer.

Tem algum novo livro planeado?

Sim, quero escrever mais livros. A inteligência artificial – e de forma mais geral a tecnologia da informação – é uma área em evolução muito rápida, tanto nos aspetos científicos como no impacto na sociedade, e é importante manter o público a par do que se passa, para que tire o melhor partido desses desenvolvimentos.


Por: Ana Catarina Pinto

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