Como criar uma banda desenhada à distância (em 6 passos)

É possível fazer banda desenhada com escritor e ilustrador em continentes diferentes? Filipe Melo e Juan Cavia são a prova que sim e explicam como.

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Publicado em junho, Os Vampiros vai já na segunda edição, tendo a primeira esgotado quase integralmente ainda no período de pré-venda. Dog Mendonça e PizzaBoy, a primeira saga de Filipe Melo e Juan Cavia, vendeu 32 mil exemplares.

A primeira vez que Filipe Melo e Juan Cavia se encontraram foi em 2009. Apresentavam o livro As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy no Fantasporto. Haviam-no criado em conjunto, mas sempre com um oceano pelo meio: Filipe Melo em Portugal, Juan Cavia na Argentina.

A ligação teve início em 2004, quando um grupo de cineastas recomendou o trabalho do argentino ao português e este decidiu estabelecer contacto através da Internet. “Adicionei-o no MSN para trabalhar com ele num storyboard”, recorda Filipe Melo. E acrescenta: “Fiquei logo impressionado com o talento e a generosidade do Juan e desde então começámos a trabalhar juntos em projetos maiores. Foi assim que surgiu o nosso primeiro livro.” Tal como o segundo e o terceiro, novamente centrados nas aventuras de um distribuidor de pizzas numa Lisboa repleta de monstros. Já em junho deste ano, publicaram um novo – e radicalmente diferente – livro, sobre um grupo de soldados portugueses em plena Guerra Colonial. Chama-se Os Vampiros e tem influências bem distintas da trilogia anterior.

“No caso dos livros do ‘Dog’ Mendonça, as referências eram muito claras: filmes e jogos de computador da nossa infância, nos anos 80. Para este, foram mais abstratas: os testemunhos dos ex-combatentes, as imagens da época e a emblemática canção ‘Os Vampiros’ do Zeca Afonso”, explica Filipe Melo.

A IMPORTÂNCIA DE COMUNICAR

Se as novas tecnologias de comunicação parecem fundamentais na forma como Filipe Melo e Juan Cavia criam banda desenhada, impõe-se a questão: seria possível fazê-lo no século passado? “Creio que sim, até porque se fazia com frequência. Praticamente impossível seria fazê-lo tão em sintonia como nós o fazemos”, diz Juan Cavia. “Antes desta era de comunicação imediata, os trabalhos à distância eram possíveis desde que cada um fizesse a sua parte. No nosso caso, a criação de um livro é um trabalho partilhado quase diariamente. Isso sim, era impossível há uns anos”, acrescenta o argentino.

Filipe Melo admite que as novas tecnologias vieram trazer um novo impulso ao mundo da banda desenhada porque facilitam a comunicação à distância. Mas não as considera o ponto fulcral do processo: “Não há tecnologia que substitua a intensidade do trabalho humano e a força da criatividade, que é a única forma de fazer algo signicativo.” Teoria partilhada pelo ilustrador, que assinala que a banda desenhada apenas se adaptou às muitas alterações do século XX: “A mudança mais radical dos últimos anos talvez se tenha vericado mais a nível de suporte do que de conteúdo.”


FILIPE MELO
nasceu em Lisboa, em 1977. É pianista, realizador de cinema e argumentista de banda desenhada. Também dá aulas na Escola Superior de Música.

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JUAN CAVIA
nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1984. É ilustrador e trabalha como diretor de arte para cinema, publicidade e teatro.


 

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1. A ESCRITA

“O primeiro passo é chegar a uma ideia abstrata do que será a narrativa, quem serão as personagens e qual a mensagem ou espírito da obra. Depois vem o trabalho duro. Escrevo ideias soltas num caderninho ou em post-its que penduro na parede. Às vezes tenho centenas pendurados. O passo seguinte é sair da rotina – normalmente viajo até Tondela, onde tenho a sorte de ter casa, e começo a escrever o argumento. Dependendo da história, será precisa mais ou menos investigação. Aquela coisa do ‘escreve sobre o que sabes’ só é válida até certo ponto. À medida que uso as ideias, tiro os post-its equivalentes da parede. Quando os usei todos (ou quase todos), normalmente tenho um argumento escrito. Escrevo em …ormato de cinema, sem indicações de quadros, e uso um programa chamado Final Draft. As melhores ideias que tivemos surgiram enquanto trabalhávamos. Não aparecem por milagre. Nascem dos escombros deixados pela angústia da procura de soluções e do cansaço de muitas noites passadas a trabalhar.”

2. O MOODBOARD

“Uma das poucas coisas boas que aprendi na publicidade …foi a utilidade de …fazer um moodboard. De um lado da página, o guião; do outro, centenas de imagens que ilustram elementos que servem de ref…erência ao desenho, sejam eles de personagens, locais ou enquadramentos. Isto serve-me para organizar ideias e para …fazer uma espécie de pré-visualização do que será o livro. Nesta …fase já é possível ter uma ideia clara de como será o ambiente geral da história.”

3. O LAYOUT

“Nesta f…ase, passa-se do guião a uma planificação concreta – decidem-se os enquadramentos, o número de vinhetas por página, etc. É uma espécie de storyboard deste ‘filme’. Pode-se saber de antemão quantas páginas terá e …fazer assim o cálculo de datas e custos. Ao mesmo tempo uso um programa amador chamado Comic Li…fe e sobre esses esboços ponho os diálogos, para ver como respiram na página e quais posso cortar e contar apenas com as imagens. Temos tido a oportunidade de trabalhar pessoalmente na …fase do layout. Isto permite um trabalho conjunto de planificação e uma discussão longa sobre cada página, desenho e linha de diálogo.”

4. O DESENHO E A COR

“Os desenhos são …feitos em A3, a lápis, e posteriormente coloridos digitalmente com Photoshop. Só utilizámos …finalização a tinta no primeiro livro. Depois disso, o Juan optou pelo aspeto mais humano do lápis. Enquanto o Juan desenha existe comunicação diária, na qual revemos aspetos de desenho e argumento. Percebi que não é assim tão comum esse trabalho permanente de discussão entre argumentista e desenhador. O Juan tem uma participação imprescindível na narrativa, mas também colaboramos muito na parte visual. É um privilégio trabalhar com um desenhador com um grau de compromisso tão grande. Não é apenas um técnico, é um contador de histórias.”

5. A BALONAGEM
E A CAPA

“Trabalhamos desde o primeiro livro com a mesma equipa, que inclui o Pedro Semedo, o nosso talentoso amigo que …faz a balonagem e o layout do livro, e a equipa da Tinta da China, que trata da edição. O Pedro usa o InDesign para os balões e para a paginação. Também …faz lá as onomatopeias (e…feitos de som). Na …fase da capa, andamos com ideias durante muito tempo até chegar a algo de que todos tenhamos orgulho. É sempre muito di…fícil, mas temos conseguido. Cada capa que temos tem dias e dias de trabalho em cima.”

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6. A PROMOÇÃO
E O LANÇAMENTO

“O mercado de BD nacional não é gigante, por isso temos de …fazer um esf…orço suplementar para que os nossos livros cheguem às pessoas. Assim que os acabamos, tentamos arranjar …forma de viajar a promovê-los. Sentimos uma gratidão enorme por quem compra os nossos livros porque são, de uma …forma muito prática, quem nos permite continuar a …fazê-los. É por isso que, nas sessões de autógraf…os, conseguimos estar nove horas seguidas a assinar livros. Não vamos embora enquanto alguém tiver um livro nosso por assinar. Vivemos numa corda bamba de investimento em que, se um livro que …fazemos não vende bem, não conseguiremos …fazer mais.”


Por: Tiago Matos

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