Cem Anos de Solidão: O livro em que Gabriel García Márquez descobriu o seu tom

O segundo romance de Gabriel García Márquez fez do colombiano uma estrela no mundo literário. Tudo porque descobriu enfim o seu tom.


Gabriel García Márquez afirma que só conseguiu escrever Cem Anos de Solidão quando começou a acreditar realmente nos eventos da história.

Gabriel García Márquez passa anos em busca do tom certo para a sua ficção. Não o encontra a tempo de escrever o primeiro romance, A Hora Má: O Veneno da Madrugada, nem quando publica os primeiros contos e novelas. Ideias, por outro lado, não lhe faltam. Desenvolve-as em narrativas de nostalgia aparente que o levam a revisitar os lugares e as pessoas da sua infância. Utiliza-as também como forma de se distrair da incómoda realidade política que assola a sua Colômbia em ditadura, recordando tempos mais simples. Mas nunca consegue escapar inteiramente do presente. E quando uma destas ideias lhe surge um dia, levando-o a debater-se com a melhor forma de a explorar, socorre-se das memórias mais antigas para obter enfim resposta. Encontra o seu tom.

“Tinha uma ideia do que sempre quis fazer, mas faltava qualquer coisa e não tive a certeza do que era até que, um dia, descobri o tom certo – o tom que eventualmente usei em Cem Anos de Solidão”, explica mais tarde o autor. “Baseei-o na forma como a minha avó me costumava contar histórias. Ela falava de coisas que soavam fantásticas e sobrenaturais, mas fazia-o com a maior naturalidade.” O truque está não só na seriedade, mas no nível de detalhe apresentado. Afinal, “se dissermos que estão elefantes a voar no céu, as pessoas não vão acreditar em nós; mas se dissermos que estão 425 elefantes a voar no céu, é provável que acreditem”.

“Quando finalmente descobri o tom que tinha de usar, sentei-me durante 18 meses e trabalhei todos os dias”, recorda García Márquez. Neste longo período de trabalho obsessivo que culmina com a publicação do seu segundo romance, cabe à mulher do colombiano tratar da casa e dos filhos e de tudo o resto que possa funcionar como distração. Os tempos não são fáceis e o dinheiro não abunda. Para seu alívio, o reconhecimento é imediato e absoluto. Só na primeira semana, Cem Anos de Solidão esgota a generosa tiragem inicial de oito mil exemplares. Nos anos que se seguem, vende mais 30 milhões. Torna-se gradualmente num dos mais influentes trabalhos de sempre da literatura sul-americana. E da literatura no geral.

A narrativa tem como palco a cidade (fictícia) de Macondo, inspirada na própria cidade natal de García Márquez, e acompanha as extraordinárias vidas de vários membros de uma única família ao longo de sete gerações. Há um paralelismo evidente entre a evolução desta família e o passado histórico de Colômbia, mas não se esgota aqui o apelo de Cem Anos de Solidão. É na convicção e nível de detalhe com que García Márquez vende a sua magia que reside o segredo que conquista leitores desde 1967. Não há muitos como o colombiano, capazes de vender tantos elefantes a voar no céu.


Por: Tiago Matos

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