Catarina Beato: “A imperfeição é importante para sermos mais felizes”

É uma blogger de referência em Portugal e acaba de lançar um novo livro: Ser Feliz Todos os Dias. Sabes qual é o segredo de Catarina Beato? Descobre nesta entrevista.

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Qual foi o dia em que decidiu ser feliz todos os dias?

Escrevo sobre ele muitas vezes e, como costumo dizer, foi o dia mais triste da minha vida. Refiro-me ao dia da morte do meu pai.

O meu pai morreu quando fiz 24 anos, num momento em que acho que era previsível para ele, mas não para nós [família]. Os últimos três anos tinham sido muito marcantes, porque o meu pai, que era uma pessoa muito pessimista, muito trombuda, sempre muito mal com a vida, quando se apercebeu de que podia morrer mudou completamente a sua atitude para melhor. Passou a ser uma pessoa muito mais feliz, muito mais aberta, muito mais sorridente. E quando o meu pai faleceu, fazia eu 24 anos…

Foi mesmo no dia do seu aniversário?

Foi, sim. No mesmo dia em que fiz 24 anos, a 28 de março. Nesse dia prometi que ia fazer o esforço de ser mais feliz, até porque eu era aquele tipo de adolescente muito existencialista.

É por isso que o meu novo livro é também um lembrete para mim. É como se tivesse juntado aquilo que tenho vindo a aprender ao longo da vida e quisesse mostrar às outras pessoas. Não é que eu seja um guru da felicidade, mas acho que neste momento sou uma pessoa muito positiva, com um esforço enorme para gerir a vida e ser muito grata. Embora esse não seja o meu lado mais natural. Foi algo que foi evoluindo. E o livro é o resultado disso.


Estamos agarrados à ideia de perfeição e à ideia de que ser feliz é estar sempre sorridente e aos saltinhos.


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Ser Feliz Todos os Dias é, e cito, um “guia de felicidade para pessoas imperfeitas”. Ainda estamos hoje muito agarrados à ideia de perfeição?

Estamos agarrados à ideia de perfeição e à ideia de que ser feliz é estar sempre sorridente e aos saltinhos. Há obviamente essa ambição de ser perfeito. Achamos que não, mas tem vindo a piorar.

Há 13 anos, quando lancei o blogue [Dias de Uma Princesa], a Internet servia muito para que as mães percebessem que existiam outras mães cansadas, casamentos que não funcionavam, relações boas e más. Depois veio a questão da imagem e retrocedemos um bocadinho. Passou a haver a tendência para a comparação.

Por outro lado, há a falsa ideia de que alguém feliz é alguém que está sempre muito sorridente. Não. A felicidade é um estado de espírito que cada um sabe gerir à sua maneira. Se calhar para uma pessoa é estar sempre sorridente, mas para outra é estar sempre calma, independentemente do semblante.
Acredito que a imperfeição é importante para sermos mais felizes. Para mim, ser mais feliz significa aceitar os meus maus momentos. Estar em paz quando estou num momento triste, quando estou com a neura ou chateada. E é isso que convido as pessoas a fazerem.

O facto de a busca pela perfeição ter vindo a piorar, como disse, é culpa nossa enquanto indivíduos ou enquanto sociedade?

Acho que a culpa não se pode atribuir nunca a um só fator, porque as coisas evoluem num todo. Por exemplo, agora não gostamos que os miúdos estejam sempre agarrados às tecnologias, da mesma forma que a minha mãe não gostava que eu enchesse a casa de pósteres. Cada um vive num determinado tempo com determinadas características.

Para melhorar isto, a solução não é encher de repente as redes sociais de fotografias com os bebés de birra e nós cheios de sono, a mostrar o nosso pior, nada disso. Mas é não ter vergonha de falar no mal. No meu caso, enquanto influenciadora digital, acho que não devo ter medo de falar nas minhas fragilidades. É importante que as pessoas percebam que, um dia, posso mostrar uma fotografia minha agarrada ao meu marido num momento maravilhoso, mas isso não significa que no dia a seguir não haja um momento menos bom. E que a Maria Luísa [filha] está na fotografia muito bonita, mas também tem os seus momentos de birra.

Agora, essa questão da imagem é uma fase. Há 10 anos tínhamos o Facebook a aparecer. De repente aparece uma rede social como o Instagram, que ganha uma dimensão brutal em termos de imagem. E agora estamos a ir para o imediato, com o Snapchat e os stories. O que virá a seguir?

A imagem vai ser cada vez mais poderosa e acho que a próxima fase será o vídeo, que acaba por ser mais realista. Não é culpa de ninguém, é a evolução.


A solidão sempre existiu. A questão é que as redes sociais permitem uma falsa solidão.


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Falou das redes sociais. Atualmente, há uma grande disparidade na forma como olhamos para elas: há quem olhe de uma maneira muito positiva e há quem considere que estão a contribuir para a nossa infelicidade. Com qual das abordagens concorda?

Acho que é preciso um equilíbrio, como em tudo. Fundamental era que conseguíssemos ver as redes sociais apenas como redes sociais. E as redes sociais enquanto tal são fabulosas. Permitiram-me reencontrar amigos de escola, permitem-me ter notícias de pessoas que de outra forma não teria.

O mal é quando as redes sociais se tornam a vida de uma pessoa. Quando alguém se isola e vive exclusivamente para o feedback que recebe. A solidão sempre existiu. A questão é que as redes sociais permitem uma falsa solidão, na medida em que alguém que está profundamente sozinho passa a viver para os likes. Sempre existiram pessoas na solidão, pessoas que olham para as vidas dos outros e as acham perfeitas sem saber o que acontece dentro de casa. Não acho que as redes sociais tenham aí qualquer culpa.

O que me assusta – não nas redes sociais, mas na Internet em geral – é a falta de um momento de descanso. Digo muitas vezes que não queria ter vivido a minha adolescência hoje, porque na minha altura sabia que a escola podia correr mal ou podia estar chateada com uma amiga, mas às 17h00, quando abria a porta de casa, descansava. Estava com os meus livros, os meus pósteres, as minhas revistas, os meus pais, e descansava. E os problemas recomeçavam às 8h00, quando entrasse na escola.

O mesmo no emprego dos meus pais: a não ser numa grande emergência, ninguém recebia um telefonema de trabalho depois de chegar a casa. Hoje em dia, os e-mails caem a toda a hora. Esta sensação de não desligarmos assusta-me muito.

Mas isto é também uma autocrítica. Por exemplo, eu durmo muito mal e há pouco tempo percebi que uma das soluções que existia para dormir melhor era deixar o telefone a carregar longe. Agora não toco no telefone entre as 23h00 e as 8h00. Chegava ao ponto de acordar a meio da noite e, se despertava um bocadinho, lá estava o dedinho a fazer scroll, a ver o que se passava no mundo. Para quê?

O melhor é desligar a Internet completamente.

Exato, mas não desligo se os miúdos estiverem fora, porque sei, por exemplo, que o meu filho mais velho me contacta pelo WhatsApp. E muitas vezes digo: “Se for urgente, liguem-me.” Mas não temos de ter sempre os dados ligados. Caramba, mandem uma mensagem ou liguem.


Escrevo diários desde que tenho a capacidade da escrita. Desde os meus 7 anos. Depois, com o blogue, a escrita tornou-se um exercício muito terapêutico.


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Este livro é, de certa maneira, um instrumento para nos ajudar a sermos felizes à nossa maneira. Os exercícios e os check-ups de satisfação emocional que partilha vêm da sua própria experiência?

Há duas questões importantes: a primeira é o facto de eu escrever diários desde que tenho a capacidade da escrita. Desde os meus 7 anos. Depois, com o blogue, a escrita tornou-se um exercício muito terapêutico. Não é preciso escrever bem. Mas quando registamos as coisas para nós, na nossa intimidade, podemos avaliar de forma muito mais calma o que se passa.

Por exemplo, antes de me ter casado era uma pessoa que, numa determinada altura do ano, ficava sempre deprimidíssima. Achava que nunca nada de bom me iria acontecer. E o facto de ter o blogue e poder ir aos arquivos fez-me perceber que aquilo era cíclico: todos os anos, na mesma altura do ano, os mesmos sentimentos. Isso é terapêutico. Acho que o exercício da escrita é fundamental.

Já os exercícios que partilho neste livro são um convite a quem não tem esse hábito. Fiz há pouco tempo uma formação em coaching e a minha formadora, a professora Cristina, falava muito do poder das perguntas. Para quem não tem o hábito de escrever, as perguntas podem ser muito poderosas e orientadoras.

Consegue dar alguns exemplos de situações do seu passado em que gostaria de ter tido à mão um livro como este para a orientar?

Muitos! Acho que antes dos meus 24 anos ter-me-ia feito bem. Mas se calhar não teria mudado nada na minha vida, porque todos nós precisamos de um clique. O clique é a mudança. Podemos ter o mundo inteiro a dizer-nos “Olha, devias mudar isto, não devias agir desta maneira”, mas se não foi um clique interno, nunca irá acontecer.

No momento em que vou buscar as coisas do meu pai ao hospital e percebo que ele tinha marcado férias para esse ano – que era um momento sempre muito feliz do nosso ano e das nossas vidas –, pensei: “Caramba, devemos ser felizes porque não sabemos quando é que a vida acaba.” Esse foi o meu clique.

Entre os meus 24 e 37 anos gostava que me tivessem dado este livro em todos os momentos, mas se tivesse de escolher apenas dois acho que seriam aqueles em que percebi que não ficaria com os pais dos meus dois primeiros filhos, quando questionei se estaria a fazer tudo errado. Porque quando as relações falham, mesmo que tenhamos a certeza absoluta de que estamos a fazer o nosso melhor, há sempre uma sensação de projeto falhado.

E as histórias de felicidade e mudança que partilha no livro? São de pessoas suas conhecidas?

São de pessoas com quem me cruzo. Admiro muito as pessoas que têm a capacidade de mudar. No livro falo, por exemplo, da Francisca Guimarães, que é alguém que consegue ouvir o corpo e perceber: “Não, a minha saúde não está bem, o que estou a fazer não está certo e vou mudar.” Isso é brutal.

Gosto de deixar registadas as histórias de pessoas que vou encontrando porque, lá está, as pessoas podem agarrar no livro e ler esses exemplos que dão força. O exemplo de alguém que consegue mudar é o exemplo de alguém que nos pode dar o clique para também sermos capazes de mudar.


A vida pode ser muito curta e, já que cá andamos, que andemos bem.


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Diria que a negatividade é o nosso maior problema?

Acho que o nosso maior problema é a não aceitação. Ser negativo é uma característica normal. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência. O medo também.

Se recuarmos ao homem paleolítico, ele não era de certeza uma pessoa que estivesse sempre contente. Pelo contrário, estaria sempre alerta. Porquê? Porque precisamos do medo para sobreviver. No entanto, essas pessoas, quando fazia sol, ficavam gratas porque o dia estava bonito. Quando conseguiam que a caça corresse bem, ficavam gratas.

Ora, nós não ficamos gratos quando vamos ao supermercado. E, muitas vezes, não ficamos gratos quando o dia até está bonito. Fomos perdendo isso. Fomos exigindo cada vez mais e não olhando com olhos de agradecer para aquilo que temos. Não é uma questão de negatividade, mas de aceitarmos aquilo que não podemos mudar.

Acha que nos conformamos com o facto de não sermos completamente felizes?

Às vezes achamos que aquela pessoa que aceita a sua “vidinha” é alguém conformado. Mas não. Pode ser alguém que é feliz assim, que aceitou as coisas como elas são. Podem dizer-lhe: “Podias ter um emprego muito melhor.” Mas a pessoa não quer, porque não é dali que retira a sua satisfação. Se calhar é alguém que tem um emprego que nós consideramos medíocre, mas que depois passa os seus fins de semana a pescar e isso é algo que a faz feliz.

Por outro lado, alguém que se calhar tem o mundo, como uma cantora ou uma atriz famosa, pode estar numa situação de depressão e de uma tristeza total…

Que às vezes até pode levar ao suicídio.

Exato. É a prova de que alguém que achamos que conseguiu tudo na vida pode não estar feliz. E de que alguém que tem uma vida mais “normal” – e que nós temos tendência para classificar como “mediana” – pode ser feliz.

Houve uma fase da minha vida em que, num trabalho para o qual fui convidada, tive um salário que não voltei a ter, que provavelmente nunca voltarei a ter. Ganhava muitíssimo bem. É óbvio que as pessoas me diziam: “Excelente! Deves estar tão contente.” E não estava. Estava infeliz.

Acho que o conformismo não tem de significar que as pessoas são infelizes. A menos que aceitemos que não estamos bem e deixemos andar. Isso sim, é preciso coragem para mudar. A vida pode ser muito curta e, já que cá andamos, que andemos bem.


Continuo a não me ver como escritora. Mas o grande gosto da minha vida é escrever e saber que alguém me lê.


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Disse há pouco que começou a escrever diários muito cedo. Em que altura da sua vida é que se apercebeu de que queria escrever à séria e partilhar histórias com os outros?

Sempre tive diários, que guardava para mim, mas lembro-me de que os meus pais costumavam enviar algumas das minhas histórias para o Diário de Notícias, que tinha um suplemento infantil chamado Pimpão, e eu gostava muito quando via as minhas coisas publicadas.

Há uma altura em que me apercebo que os blogues nascem. Na verdade, já lhes tinha algum gostinho, porque trabalhava em jornais on-line – trabalhei no Diário Digital a partir dos 19 anos. Lembro-me de o Pacheco Pereira ter o Abrupto, de ver esses blogues mais políticos e intelectuais, e percebi que me dava imenso gozo ligar a Internet e ver o que estava ali escrito, acessível às pessoas. Quando criei o blogue, percebi que queria isso.
Em relação aos livros, nunca imaginei. Se me perguntassem se gostava de escrever um livro, a resposta era: “Claro que sim.” Mas nunca imaginei que um dia viesse a ser possível. Continuo a não me ver como escritora. Mas o grande gosto da minha vida é escrever e saber que alguém me lê.

O nascimento do blogue coincidiu com a altura em que perdeu o seu pai?

Não. Quando o meu pai faleceu, fiz uma gestão péssima da herança que ele deixou, criei um negócio que correu muito mal e depois tive uma quebra real: o momento em que percebi que já não tinha o apoio do meu pai, que nunca me deixaria ter cometido todos aqueles erros.

Não tinha emprego, não sabia muito bem para onde ir e estava muito perdida a nível profissional e pessoal. Esse momento correspondeu à criação do blogue. Achei que era uma forma de ter alguma coisa de que me orgulhasse e que me obrigasse a organizar.

Foi nesse período que fez a transição de jornalista de economia para blogger?

Não. Eu torno-me jornalista de economia no Diário Económico, logo a seguir a ter criado o blogue. Essa foi a minha altura de descoberta, aos 27 anos. Percebi que o que queria fazer era escrever e que o meu curso de Economia não tinha sido uma perda de tempo. Depois, quando fico desempregada, sou convidada pelo Dinheiro Vivo a ter uma crónica semanal. Depois da crónica, aparece o livro.

Treze anos depois de ter criado o blogue, qual é o balanço que faz?

O blogue não mudou a minha vida, porque acho que a crónica para o Dinheiro Vivo teve um impacto muito maior na minha sensibilidade enquanto contadora de histórias. Mas o blogue é o meu ser feliz todos os dias. É aquilo que me permite sentar e perceber que a minha vida já passou por n fases e que consegui superá-las.

Calculo que sejam de encher o peito as boas experiências que tem com os seguidores do blogue. O que aprende com eles?

Aprendo muito! Vamos ser brutalmente honestos: um blogue sem leitores é uma coisa, um blogue com leitores é outra. São eles que me permitem, por exemplo, escrever livros. Se não tivesse aquelas pessoas que me leem, nunca teria o interesse de uma editora de livros.

Por outro lado, acho que é fácil tornarmo-nos um bocadinho dependentes do carinho daquelas pessoas, porque, em termos narcísicos, elas aconchegam-nos o ego em dias em que duvidamos de tudo o resto.

E depois há pessoas que nos leem e que, por circunstâncias da vida, se tornam amigas. Tenho duas ou três pessoas que se tornaram fundamentais na minha vida e que vieram através do blogue.

Mas há sempre uma parte negativa. Como lida com as críticas e com os haters?

A parte má tem uma vantagem de inspiração: às vezes o hater deixa-nos lá um comentário que nos faz repensar as coisas, que nos faz reagir. Por exemplo, não há nada que me incomode mais do que quando alguém diz: “Catarina, tens ali um erro ortográfico.” Existem, não vou dizer que não. Mas chateia-me mesmo.

Lembro-me de uma hater, que fui apanhar noutro blogue qualquer, que dizia: “Não volto a lá ir, porque já sei que vou encontrar a palavra ‘bróculus’.” E eu pensei: “Que disparate.” Quando fui pesquisar, escrevia sempre aquilo. Fiquei envergonhadíssima, mas olhando para trás penso: “Aquela pessoa fez-me ser melhor, porque eu dava um erro recorrente que não gostava de ter dado.”

Depois existe o outro lado dos haters, que são aqueles que deixam comentários puramente maus, que não acrescentam nada e que de alguma maneira tocam nos meus filhos. Isso não entendo, deixa-me triste e tento dar-lhe a importância merecida.


Ainda sou aquela miúda num quarto em Almada a olhar para o Tejo.


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A Catarina é de Almada. O que ainda mantém de almadense?

Tudo! Sou uma almadense a viver em Lisboa e penso muitas vezes em voltar. Acho que o ser de Almada me define, porque a adolescência lá é diferente. Querendo ou não, o subúrbio tem uma essência que a cidade não tem. Lisboa tem muitos encantos, mas o subúrbio, exatamente por não estar no centro, tem de criar a sua própria identidade.

Almada tem muitas características que me ficaram marcadas para sempre. A nível político, sou assumidamente de esquerda e tenho toda uma história com os meus pais. O som do 25 de Abril, as passagens de ano, os barcos da Lisnave… tudo isso marcou a minha vida.

E é um núcleo mais fechado. Enquanto que aqui, em Lisboa, o meu filho adolescente tanto cria memórias em Santos como em Telheiras, como noutro sítio qualquer onde também tem amigos, e esse lugar maior perde a sua beleza. Eu, por exemplo, sei o lugar exato de Almada Velha onde ia sair. Sei o restaurante onde me encontrava com amigas em Cacilhas. Sei dizer que está em frente à porta tal, na rua tal. É diferente. Consegui que este livro fosse finalmente lançado em Almada, porque sou de lá. E pondero voltar.

A Catarina diz muitas vezes que é uma eterna adolescente.

Memórias de Almada, lá está [risos].

Com o que sonha hoje em dia?

Sou uma eterna adolescente porque nunca consegui largar algum existencialismo: questionava-me sobre o que estamos cá a fazer, de que forma podemos ser mais felizes e todas essas coisas. Acho que ser uma eterna adolescente é gostar de continuar a usar as botas que usava em adolescente, as camisas que usava em adolescente, a música que ouvia em adolescente. Se tiver de perceber a minha verdadeira essência, acho que ainda sou aquela miúda num quarto em Almada a olhar para o Tejo.

Que autores a influenciaram enquanto crescia?

O autor que mais me marcou, apesar de ter sido uma influência muito negativa porque me fez estar deprimida durante muito tempo, foi Vergílio Ferreira. Fui obrigada a ler Aparição na escola e aquilo marcou-me profundamente. De tal maneira que tive negativa nesse teste, e eu era uma aluna muito boa. Foi um livro que fez um nó na minha cabeça.

Depois, gosto muito dos autores portugueses mais clássicos, como Camilo Castelo Branco. Desde pequenina que o meu avô sempre me contou a história de Amor de Perdição, em vez das histórias tradicionais. Então cresci com aquela linguagem e os retratos da sociedade de Camilo Castelo Branco. Também faço parte de uma geração muito marcada por Alice Vieira e Uma Aventura, claro.

Já crescida, confesso que perdi um bocadinho a capacidade da leitura longa. Muito facilmente vou ler os contos do David Mourão Ferreira, mas ganhei alguma dificuldade em ler coisas muito longas. Tenho, no entanto, um lado de comédia romântica, de história de amor, e então perco-me por uma autora britânica que escreve livros melodramáticos. Um pouco aquilo que as pessoas veem em O Sexo e a Cidade, eu vejo na Joanna Trollope. 

Como é a sua rotina de escrita? Ora de livros, ora para o blogue.

Quando tive o Afonso, fiquei em casa três anos. Passado um ano nasceu a Maria Luísa e tenho-a em casa, portanto acabo por viver uma logística um bocadinho caótica. A minha rotina é aquela em que estou às vezes a dar banho aos filhos e com o telefone aberto nas notas. Ou quando estou a regressar de um lado qualquer a pé e vou contra um poste porque vou a escrever nelas.

Qual é a pior parte de ser escritora?

Não me considero escritora, mas a pior parte de escrever livros é a revisão. Porque sou um bocadinho, lá está, caótica na escrita. A Hermínia Saraiva – hoje uma grande amiga – era a minha editora no Diário Económico e zangava-se muito comigo porque eu era capaz de terminar um trabalho ótimo e, quando o relia, não apanhava uma única gralha. Continuo a ser assim no blogue e nos livros.


Gostaria de, um dia, escrever um livro ‘a sério’. Ficção do princípio ao fim.


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Qual foi o último livro que leu?

Penso que foi Finalmente o Verão. Gostei muito, é um livro lindíssimo. Também li recentemente o Escuta o Teu Corpo, da Francisca Guimarães, que é interessantíssimo.

O que é, para si, um bom livro?

É aquele que a pessoa começa e não quer largar. É o livro que, quando arrumamos a estante, passado um tempo, nesta nossa mania do “destralhar”, não mandamos embora. Aquele que, por alguma razão, nos deixa a pensar. Que queremos guardar para um dia relermos. 

Que conselhos daria a eventuais aspirantes a blogger ou escritor?

A um blogger, o conselho que daria é que não crie o blogue na perspetiva de ganhar dinheiro, porque vai sentir-se muito frustrado. É verdade que os bloggers recebem algumas prendas, o que faz com que as pessoas achem que isto é tudo uma maravilha, mas não é. Não é coisa que dê dinheiro fácil, nem dinheiro imediato.

Vejam antes o blogue com uma perspetiva de longo prazo, como alguma coisa que vos dá muito prazer. E, depois, se de facto o objetivo for escreverem um livro, vão organizando os textos, vão fazendo essa revisão, e não tenham medo de ir ter com uma editora. Vão à receção, batam à porta, peçam para ser lidos.

Nas redes sociais, por exemplo, é muito fácil enviar uma mensagem a alguém que já trabalha na área e procurar um contacto. Mas, principalmente, não desistam. Porque as coisas não acontecem no dia seguinte. Eu cresci com uma Internet que demorava uma hora a ligar, portanto, para quem abre um site em três segundos, é natural que a noção de esperar não seja a mesma que a minha.

Planeia continuar a lançar um livro novo todos os anos?

Pois é! Tenho um livro novo todos os anos. Não é algo que planeio, acontece [risos]. Se tiver um projeto novo todos os anos, ficarei muito contente. E espero que sim. Quero sempre que o meu livro não seja o último, mas tenho sempre esse medo: “Será que nunca mais vão querer editar nenhum livro meu?” Não planeio lançar um livro todos os anos, mas espero que haja sempre um próximo livro.

E já está a pensar nesse próximo?

Não, ainda não. Agora estou a pensar neste. Mas gostaria de, um dia, escrever um livro “a sério”. A minha mãe zanga-se sempre que digo isto, porque diz: “Todos os teus livros são livros a sério.” Mas um dia gostaria de escrever um romance. Ficção do princípio ao fim. Ter a capacidade de escrever muitas páginas sobre a mesma história. Estou muito agarrada a um registo jornalístico, de crónica, de conto, e acho que desafiar-me a escrever algo com muitas páginas, uma história com coerência, com personagens mais densos, seria o meu grande desafio. Mesmo que isso aconteça daqui a 20 anos.

Estilo Camilo Castelo Branco.

Por exemplo, sim. Uma história dramática com muitas mortes e muitas histórias de amor.

Se lhe perguntar que título daria a um livro sobre a sua vida, calculo que a resposta seja Dias de Uma Princesa.

Não [risos]. Volto a recorrer à minha mãe, mas ela adorou que este livro não tivesse “princesa” no título. Há 13 anos, quando criei o blogue, o nome teve a ver com o meu filho Gonçalo, que me tratava sempre por princesa. E ficou. Mas a verdade é que olho e penso: “Será que este era mesmo o título que gostava no meu blogue?” Não sei, porque ainda por cima não sou propriamente muito princesa. Mas ficou. E não me importo.

Então escolheria outro título.

Sim, se tivesse de escrever sobre mim acho que lhe chamava Tentar Ser Feliz Todos os Dias. Nem sempre consigo, mas revejo-me mais nisso.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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