Casas de autor

Para o amante da leitura só existem dois momentos comparáveis à descoberta de um livro: conhecer o autor ou visitar a sua casa. Às palavras escritas junta-se uma visita às casas onde nasceram e cresceram, aos escritórios, às bibliotecas e até aos quartos.

Fernando Pessoa
Lisboa

A silhueta inconfundível de Fernando Pessoa — fato, laço, chapéu, óculos redondos, bigode aparado – é um ícone de Lisboa e uma presença marcante na casa de Campo de Ourique, onde viveu os últimos 15 anos. A arquitetura do centro cultural dedicado ao maior poeta português do século xx é discreta e fria como a sua vida sentimental. A brancura das paredes, na fachada e no interior, é manchada apenas pelas palavras, os seus versos. No 1.º piso fica o último quarto de Pessoa com móveis que lhe pertenceram, Incluindo a cómoda onde terá escrito Chuva Oblíqua e O Guardador de Rebanhos, e ainda objetos pessoais: uma fosforeira, o bilhete de identidade, um alfinete. No sótão da casa, o sonhatório – um espaço multimédia e interativo com fotobiografia, viagens pelos seus livros e coleção privada, entre outros.
• Rua Coelho da Rocha, 16, Lisboa

José Saramago
Lisboa e Lanzarote

A 11 de junho de 1986 José Saramago falou ao telefone, pela primeira vez, com Pilar del Río. Três dias depois encontrava-se com a jornalista. O escritor registou estes momentos na sua agenda mas enganou-se num pormenor. Qual? Terá de o descobrir na exposição da Fundação José Saramago (FJS), na Casa dos Bicos, em Lisboa. O memorial ao grande amor entre o autor e a atual presidente da Fundação que o perpetua é apenas um dos atrativos da visita à casa com cinco séculos de história, cedida à FJS pela Câmara Municipal de Lisboa. Ainda na rua, olhando o Tejo, está uma oliveira centenária trazida da Azinhaga, terra natal de Saramago, que abraça com as suas raízes as cinzas do autor. A FJS é o braço institucional da missão confiada a Pilar por Saramago pouco antes da sua morte: “Continua-me.” Aí realizam-se conferências, debates e encenações das obras do escritor e é onde estão as primeiras edições e traduções das obras, a história dos livros e o retrato da personalidade política e pública. Por outro lado, é em Lanzarote, nas Canárias, que está a memória afetiva e quotidiana do primeiro Nobel da Literatura português. Na casa onde viveu 17 anos, e onde morreu, tudo continua no mesmo lugar. A única diferença é que agora há turistas e guias que percorrem as divisões e se sentam na cozinha a apreciar um café português.
• R. dos Bacalhoeiros, Lisboa C/ La Tegala, 1, Lanzarote

Mark Twain
Hartford, Connecticut, EUA

A casa-museu de Samuel L. Clemens, mundialmente conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, parece um cenário de um dos seus livros. O edifício gótico, num cenário pitoresco, tem mais de 25 divisões e serviu de inspiração para a escrita de livros como As Aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer. Inaugurado em 2003, o centro museológico tem uma exposição permanente sobre a vida e a obra do autor, uma exposição rotativa, um teatro onde se exibe um minidocumentário, uma sala de leitura, um café e uma loja. A grandiosa biblioteca da família, a sala de jantar e o escritório de Twain foram restaurados.
• Farmington Avenue, 351, Hartford

Miguel de Cervantes
Alcalá de Henares

A casa-museu Cervantes fica a cerca de 30 km de Madrid, em Alcalá de Henares, uma pequena cidade considerada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. O escritor de Dom Quixote, uma das obras-primas da literatura moderna, nasceu numa casa modesta que tem vindo a ser restaurada e ampliada desde 1956. Por ano, mais de 150 mil pessoas visitam a casa que procura retratar o modo de vida no tempo de Cervantes. Na terra natal do escritor também pode visitar a igreja onde decorreu o seu batismo, Santa Maria, e o Colegio San Ildefonso, na Universidade de Alcalá, onde se atribui o Prémio Cervantes.
• C/ Mayor, 48, Alcalá de Henares

Victor Hugo
Paris e Guernesey

Situada no bairro de Marais, próximo da Bastilha, Paris, a Maison Victor Hugo foi, entre 1832 e 1848, a residência de um dos maiores nomes da literatura francesa e mundial. Nesta casa, com uma vista sublime para a Place des Vosges, Victor Hugo escreveu parte de Os Miseráveis. Completou esta obra no exílio e na sua outra residência, Hauteville, na ilha de Guernesey. Na casa de Paris, que alberga uma biblioteca com mais de 11 mil títulos, o visitante é convidado a viajar pelas três etapas da vida do autor — antes, durante e após o exílio. Diversos objetos pessoais e obras de arte contam a história da sua vida e recriam o ambiente em que vivia e no qual buscava inspiração para as suas obras.
•6, Place des Vosges, Paris

Ernest Hemingway
Oak Park, Illinois, EUA

Hemingway era um aventureiro, um viajante, um jornalista à caça de histórias. Teve muitas casas em vários países. Em Paris, era frequentador assíduo da livraria Shakespeare & Company; as suas casas Finca Vigia, em Cuba, e em Key West, na Florida, acolhem hoje museus em sua memória. Mas há um lar que se destaca na vida itinerante do Nobel da Literatura de 1954: o de Oak Parks, nos arredores de Chicago, onde nasceu e cresceu. A parte museológica da residência vitoriana de três andares tem um espólio que inclui o diário de infância do escritor. A sala de jantar, quartos e biblioteca foram restaurados e podem ser visitados. Todos os anos é atribuída uma residência literária a um escritor norte-americano: até 2015, é Annette Gendler quem trabalhará todos os dias no sótão do autor de Por Quem os Sinos Dobram.
• 339, Oak Park Avenue, Illinois

Vladimir Nabokov
São Petersburgo, Rússia

A casa onde nasceu o autor do polémico Lolita tornou-se um museu e um centro de investigação dedicado à sua vida e obra. Vladimir Nabokov chamava à mansão neo-renascentista, situada no n.º 47 de Bolshaya Moskaya, “a única casa do mundo” e na sua obra Fala, Memória descreve-a com grande pormenor. Foi aí que Nabokov passou a infância e aprendeu inglês quase em simultâneo com a sua língua materna, o russo. O museu preserva a sala de jantar e a biblioteca originais e reconstitui algumas das outras divisões, degradadas com o passar do tempo. A coleção de borboletas de Nabokov, os seus desenhos, a biblioteca privada, a colecção de arte da família e alguns objetos pessoais estão em exibição permanente.
• Bolchaïa Morskaïa, 47, São Petersburgo

Pablo Neruda
Chile

Neruda, um marinheiro de terra — fascinado pelo mar mas odiava navegar —, escrevia os poemas à mão com canetas de tinta verde e azul. O mar é parte do imaginário do escritor e da decoração das suas três casas no Chile. La Chascona — que significa cabelo indomável — é a casa de Santiago e foi batizada em homenagem à sua terceira mulher, Matilde. A todos os seus lares o poeta dedicou poemas. Em Valparaíso fica La Sebastiana, “feita primeiro do ar”. Na Isla Negra, os souvenirs de todo o mundo decoram as paredes e revelam a natureza excêntrica e o imaginário poético do Prémio Nobel chileno. É nesta paragem, com vista para o imenso Pacífico, que se encontram depositados os seus restos mortais.
• C/ Ricardo de Ferrari 692, Valparaiso/ Fernando Márquez de la Plata 0192, Santiago/ Poeta Neruda s/n, Isla Negra, El Quisco

William Shakespeare
Stratford-upon-Avon

O maior escritor de língua inglesa de todos os tempos tem uma cidade, e não apenas uma casa, dedicada à sua vida e obra. Stratford-upon-Avon, a duas horas de carro de Londres, recebe turistas há mais de 250 anos. A visita pela cidade inclui uma passagem obrigatória pela casa onde o autor nasceu e cresceu, que é considerada um santuário por muitos dos seus admiradores. Hall’s Croft , a residência da sua filha, a cabana da sua companheira Anne Hathaway, a casa da mãe do autor Mary Arden’s House e o Teatro Royal Shakespeare são outros locais de interesse.
• Henley Street, Stratford-upon-Avon

James Joyce
Dublin

James Joyce viveu numa casa de estilo  gregoriano muito semelhante àquela que hoje acolhe o centro cultural e museológico dedicado ao autor. Embora não tivesse nascido nesta townhouse, construída em 1784, o autor conhecia o proprietário, Denis Maginni, uma personalidade famosa em Dublin e que surge por diversas vezes no seu Ulisses. Além de eventos e exposições relacionados com o escritor, o centro alberga alguns objetos icónicos como a porta original do n.º 7 da Rua Eccles, a morada de Leopold Bloom no Ulisses de Joyce (a casa foi demolida), e o mobiliário do apartamento de um amigo em Paris onde Joyce viveu enquanto escrevia Finnegans Wake.
• 35, North Great George’s Street, Dublin
 

Rita Vaz da Silva

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