Cartas de amor de grandes autores

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As cartas de amor não são ridículas. Quebraram barreiras, inspiraram obras e apaixonaram leitores um pouco por todo o mundo.

Os primeiros exemplares remontam a tempos tão longínquos quanto o Antigo Egito e o Império Romano e, ao longo dos séculos, a arte foi aperfeiçoada. Desenvolveram-se estilos, técnicas, foram até construídos textos sobre como escrevê-las. Algumas de índole mais romântica, outras de índole mais sexual, foram perdidas e reencontradas, censuradas e proibidas. Representam, como os diários, um documento válido com o qual podemos estudar a História que não chega aos documentos oficiais, conhecer os pormenores mais íntimos da vida privada de tantos e, ao mesmo tempo, familiarizar-nos com épocas passadas. São, em si, um género literário, com todas as regras e características respetivas.

Entre a intimidade e o voyeurismo

Hoje as cartas de amor escasseiam, estão ultrapassadas. Enviam-se mensagens, e-mails, fotografias, até emoticons. São estas as cartas de amor modernas, instantâneas, de rápida produção e fruição. Talvez por isso as cartas de outros tempos exerçam tanto fascínio sobre os leitores. Há qualquer coisa de cativante no acesso à correspondência de um autor que admiramos: é um mergulho no que de mais íntimo e privado há no ser humano, é conhecer a mulher ou o homem por detrás do nome numa capa de um livro e perceber que, como qualquer outra pessoa, tem as suas frustrações, desejos e fraquezas.

Não há como negar o prazer voyeurístico que ler correspondência que não nos pertence proporciona, em especial quando pertence a pessoas que admiramos. As cartas de amor dos grandes autores permitem-nos recriar vidas interiores às quais de outra forma dificilmente teríamos acesso.

“Sempre e muito teu”
As apaixonadas cartas dos escritores portugueses

Talvez as Cartas de Amor de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz sejam as mais célebres da literatura portuguesa. Objeto de estudo contínuo, proporcionam um raro vislumbre para uma dimensão desconhecida daquele que é um dos maiores poetas portugueses. Trocadas em dois períodos distintos (e muito afastados), a correspondência entre Pessoa e Queiroz é ao mesmo tempo um diário da própria evolução literária e psicológica do poeta.

Em conjunto com o seu Diário, também as cartas de amor de Florbela Espanca são um importante testemunho da frágil psique da poetisa. Nelas transparece a naturalidade na escrita através do recurso a um discurso simples que foge ao dos seus poemas, exemplo do temperamento romântico e feminino da autora.

“Felizes como nós fomos”
Cartas de amor além-fronteiras

Mensageiras de sentimentos e veículos de crescimento pessoal, as cartas de amor integram o espólio de vários escritores pelo mundo fora, como Byron, Keats ou Hemingway. São elementos cuja importância bibliográfica não deve ser descartada.

De Profundis, por exemplo, demonstra como uma carta pode ser também um marco literário. Escrito por Oscar Wilde nos anos que passou na prisão no final do século XIX, é um longo monólogo epistolar dirigido ao seu amante, Alfred Douglas, no qual além de exprimir os seus sentimentos e recordar momentos passados, Wilde revela a evolução e crescimento espiritual que sentiu na prisão.

Também a relação entre Virginia Woolf e Vita Sackville-West se consolidou através de cartas, permitindo à autora explorar a sua sexualidade ao mesmo tempo que a inspirava à escrita de uma das suas mais importantes obras: Orlando.

Dois outros autores a quem é reconhecida a troca de correspondência romântica são Henry Miller e Anaïs Nin. Marcada pelo erotismo e sensualidade que caracterizam as obras de ambos, mas também pelas frustrações e desilusões de uma vida terrena, as cartas de amor destes autores são das mais apreciadas até hoje.


Por: Inês Melo

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