Carlos Vaz Marques: Ler e viajar são sinónimos

Ler e viajar são sinónimos

Carlos Vaz Marques

Carlos Vaz Marques é jornalista e editor. Também integra o painel do programa Governo Sombra. Em 2013 publicou Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer, um livro de entrevistas a grandes autores. É ainda o coordenador da coleção de literatura de viagens da Tinta da China.

A humanidade nasceu nómada. A agricultura sedentarizou-a, é certo, mas a transumância ficou-lhe nos genes. No livro mais antigo que conhecemos, Épico de Gilgames, o herói é descrito assim, logo nos dois primeiros versos: “Aquele que testemunhou o abismo, as fundações da terra, experiente de caminhos, em tudo era sábio!” Experiente de caminhos, note-se.

As tabuinhas de argila, que contam a história do rei de Uruk, anteriores à Bíblia, sendo o primeiro livro da humanidade, são também o primeiro livro de viagens. Gilgames acredita que alcançará a imortalidade se matar o gigante Humbaba, guardião da Floresta do Cedro. É com esse objectivo que se põe a caminho. “Após vinte léguas, partiram o pão, / trinta depois, assentaram acampamento. / Cinquenta superaram no decurso de um dia. / A marcha de mês e meio, fizeram-na em três dias.”

A viagem está presente, pois, desde os primórdios da literatura; e tem também uma presença fundamental na literatura portuguesa. Fernão Mendes Pinto trouxe do Oriente o extraordinário relato de uma epopeia em tom menor que é, nas palavras de António José Saraiva, “o mais interessante livro de viagens do século XVI português e um dos mais interessantes da literatura mundial”. Camões fez da viagem de Vasco da Gama a saga fundadora da identidade nacional.

Ir e voltar, trazendo qualquer coisa no regresso, seja a imortalidade, a memória de uma vivência, um conhecimento novo ou uma simples peça de bricabraque, a que hoje chamamos souvenir, é o propósito de qualquer viajante. Aqueles que sabem transformar em matéria literária essa experiência dão-nos a possibilidade de viajar com eles, a posteriori, fazendo da literatura um poderoso meio de transporte.

Sou, desde há muito, um leitor entusiasta de literatura de viagens e constatei, desde cedo, estupefacto, que alguns dos grandes clássicos deste género nunca foram editados em Portugal. Não tenho um orgulho por aí além em ter sido responsável pela primeira edição portuguesa da primeira obra de Mark Twain, A Viagem dos Inocentes, mais de um século depois da edição original; e gostaria que uma escritora notável como Jan Morris não tivesse tido de esperar pela colecção de viagens que dirijo na Tinta da China para poder ser descoberta pelos leitores portugueses.

Ler e viajar (em certo sentido, sinónimos) são as melhores formas que temos de sair da nossa zona de conforto, confrontando-nos com o desconhecido. Por vezes, até com aquilo que desconhecemos a respeito de nós próprios.


Carlos Vaz Marques escreve de acordo com a antiga ortografia.

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