Capas com gente dentro

40 personalidades da literatura e da cultura portuguesas, de alguma forma relacionadas com José Saramago, caligrafaram os títulos das novas
edições do autor publicadas pela Porto Editora desde maio passado. Cada capa é uma história, uma pessoa, uma relação afetiva com o escritor
de Todos os Nomes. “É uma linha inovadora a nível mundial e que nunca terá sido usada por nenhuma editora”, assegura Manuel Alberto Valente, diretor editorial da Porto Editora. A nova casa editorial do Nobel português quis apostar numa linha gráfica “completamente diferente” para as reedições e convidou o atelier silvadesigners a apresentar propostas. “Em conjunto com os herdeiros e a Fundação José Saramago (FJS) escolhemos a ideia que nos pareceu mais original e que vai atrair as pessoas que gostam de Saramago a comprarem de novo os seus livros”, explica Manuel Alberto Valente. O conceito é simples: pedir a amigos e personalidades que Saramago admirava que desenhassem, com a sua caligrafi a, os títulos dos livros. “Quisemos acabar com aquela enésima variação sobre o tema, a eterna repetição sobre o que seria uma ilustração gráfi ca da obra de Saramago. Com esta proposta estamos a posicionar uma obra que toda a gente conhece num outro patamar — passa a ter uma assinatura de outro artista e outro valor afetivo”, adianta o ideólogo da proposta Jorge Silva, da silvadesigners. Cada uma das personalidades selecionadas pela FJS recebeu um kit composto por um marcador com tinta preta e uma folha A3 com vários retângulos. No canto superior da folha já vinha impresso a Helvética o nome da obra. “Pedimos que repetissem o título em cada casinha da folha como numa prova da escola. Mas em escala grande, no tamanho real da página”, explica o designer. O resultado nasce da combinação das letras mais legíveis, reproduzidas em cada um dos retângulos, um trabalho moroso de seleção e compilação efetuado pela designer Elizabete Gomes.
As capas não têm qualquer imagem, são tipográficas, e a autoria do grafismo é atribuída não ao designer mas à pessoa mencionada na página de anterrosto no miolo do livro — à pessoa que, segundo Jorge Silva, “rendeu pelo seu punho uma homenagem ao escritor”. O papel utilizado é “relativamente comum” e foi selecionado de entre uma gama extensa de tons com a preocupação de fazer “uma rutura com a tendência para o uso de cores fortes”. Para Jorge Silva, o baixo-relevo nas letras é “um pormenor adicional de requinte”. Outro pormenor evidente em termos gráficos é a quebra das palavras. A hifenização foi uma opção propositada e estava já presente no kit entregue às personalidades que incluem nomes como o arquiteto Siza Vieira, o pintor Júlio Pomar e o ensaísta Eduardo Lourenço.

São capas e títulos que têm pessoas dentro. Pessoas que conviveram com José saramago, nomes que o nobel português admirava, que também escrevem ou consideram o autor de Ensaio sobre a Cegueira uma influência.

A fundação e a editora pediram a amigos e personalidades que Saramago admirava que desenhassem, com a sua caligrafia, as novas capas dos livros.

Ensaio Sobre a Lucidez José Saramago Dulce Maria Cardoso
                Dulce Maria Cardoso

eduarolourenco
                     Eduardo Lourenço

sizavieira
                       Álvaro Siza Vieira

juliopomar
                               Júlio Pomar

armandobastos
      Armando Baptista- Bastos

mariocarvalho
                    Mário de Carvalho

valtermae
                       Valter Hugo Mãe

goncalotavares
                    Gonçalo M. Tavares

lidiajorge
                              Lídia Jorge

almeidafaria
                        Almeida Faria

mariaceuguerra
                  Maria do Céu Guerra

nunojudice
                              Nuno Júdice

miacouto
                                                                     Mia Couto

josemattoso
                                                                  José Mattoso

PILAR DEL RIO
Presidente da Fundação José Saramago

“Queremos fazer dos livros casas onde entramos e nos reconhecemos”

Qual foi o critério usado para a escolha das personalidades que caligrafaram os títulos de Saramago?pilardelrio
São pessoas que pertenciam ao âmbito afetivo de José Saramago. Companheiros, amigos, escritores que lia, pintores que admirava, músicos, atores, arquitetos… São eles que dão personalidade ao nosso tempo e que nos fazem sentir orgulhosos de pertencermos a esta cultura. Se virmos com atenção, os nomes são conhecidos: estão nos Cadernos de Lanzarote ou nos textos do blogue que José Saramago manteve durante dois anos.

O que pensaram os herdeiros e a Fjs da proposta em termos afetivos e gráficos? E do trabalho final?
O resultado é emocionante: os livros, com as capas assim desenhadas, adquirem uma nova dimensão. A própria seleção das cores aproxima-nos dos tons que Pessoa atribuía às casas de Lisboa, de Portugal. As casas de todas as cores. Queremos fazer dos livros casas onde entramos e nos reconhecemos. Os criadores pintaram as fachadas, lá dentro estamos nós: caminhamos e somos nestes livros.

O que significam estas reedições e esta nova roupagem para a fundação?
Recebemos continuamente edições de Saramago em diversas línguas e de países diversos, mas esta coleção é especial por se tratar de uma homenagem à cultura que tornou possível a existência de Saramago. Saramago agradeceu aos escritores — aos do passado e aos contemporâneos— no seu discurso do Nobel. Agora, seguindo esta lógica e este espírito, rendemos homenagem à cultura reconhecendo muitos dos seus representantes. No final, teremos mais de 40 intervenções que farão desta coleção um ato cultural único. Para a fundação esta coleção é um motivo de gratidão: a que sentimos perante os livros e a que expressamos continuamente.

Rita Vaz da Silva

Gostou? Partilhe este artigo: