Calvin & Hobbes: Há 30 anos
a dar a volta ao mundo

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Calvin & Hobbes está a fazer anos. Bill Watterson, cartoonista americano que quis devolver a energia que a banda desenhada tinha nas primeiras décadas do século, publicou a primeira tira em 1985.

Por Maria Catarina Nunes

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Calvin

Com nome de teólogo do século XVI, é um miúdo rebelde e irrequieto que se debate com questões da vida.

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Hobbes

O tigre com nome de filósofo britânico do século xvii é calmo, paciente e o melhor amigo de Calvin.

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Pais de Calvin

Normalmente só aparecem em ma- nifestações exasperantes com o filho. À época não era costume falar-se do desespero que ser pai pode trazer.

Com olhos de criança rebelde, Calvin faz uma bola de neve para atirar a Susie. Hobbes lembra que a verdadeira felicidade vem de uma vida virtuosa. É suficiente: Calvin abandona a bola de neve e, em casa, escreve uma carta de amor à mãe, entre outras proezas de bom comportamento. Terminadas as boas ações, o lado da criança patife é mais forte e Calvin não resiste a atirar a bola de neve a Susie, derrubando-a. Um dia, diz satisfeito, ele próprio escreverá o seu livro de filosofia. Hobbes remata: a virtude precisa de alguma emoção.

Emotividade é o que não falta nas his- tórias de Calvin e Hobbes, personagens criadas pelo cartoonista americano Bill Watterson que em 2015 comemoram 30 anos. Talvez essa seja uma das fór- mulas para o sucesso do miúdo rebelde que, ainda hoje, faz suspirar pequenos e garúdos:“É das poucas personagens que é criança e age como tal, ainda que o seu raciocínio levante questões aos adultos”, diz Nelson Dona, diretor do Amadora BD, festival de banda desenhada que decorre todos os anos em Lisboa.

A luta entre o bem e o mal é um dos temas explorados na banda desenhada: um miúdo de 6 anos, com nome de teólogo inglês, que debate as grandes questões da vida com o seu inseparável Hobbes, o tigre, que o autor nunca assume se é de peluche ou um amigo imaginário, e que também vai buscar o seu nome à filosofia. Tudo isto, claro, sem perder a inocência que é ser criança.

Correr os jornais e o mundo

Estávamos a 18 de novembro de 1985 quando a primeira tira de Calvin & Hobbes foi lançada, trilhando um caminho de sucesso na cultura popular do século xx. Bill Watterson nunca esperou o êxito alcançado e deu vida às personagens até 31 de dezembro de 1995, altura em que encerrou a história. E porquê matar as personagens no auge da sua popularidade? Havia tempos que o artista tentava renegociar com a agência Universal Press Syndicate para acabar com as pranchas que desenhava há 10 anos – com apenas duas pausas de nove meses – por se sentir esgotado. Segundo conta numa das poucas entrevistas que deu, passados 10 anos as tiras eram mais o resultado de uma fórmula do que exploratórias de novos temas. Da mesma forma, sempre se opôs a um eventual negócio de merchandising à volta das personagens: “Nada prejudica mais uma banda desenhada nova e inteligente do que saturar o mercado com ela”, escreve em Parabéns Calvin & Hobbes. Fiel aos seus princípios, Watterson nunca permitiu que as personagens fossem corrompidas com a venda de produtos, independentemente do rendimento financeiro que daí pudesse retirar. Muitos acreditam que a forma como o autor lidou com a fama o transformou em personagem de culto, à semelhança de Quino,Winsor McCay ou Stuart Carvalhais com Mafalda, Little Nemo e Quim e Manecas, respetivamente. Nuno Rodrigues, da livraria BD Mania, está convencido.“Sem dúvida que contribui para o sucesso. Ele não pensou na personagem para cinema ou outra animação. Agrada-me. Há sempre a questão: Qual seria a voz do Calvin?” Pelo contrário, Guilherme Valente, fundador da Gradiva e editor de Calvin & Hobbes em Portugal, defende que “o êxito já era anterior” ao eremitério de Watterson.

A obra vale pela obra, mesmo que o desprendimento comercial do artista contribua para um certo misticismo: “O desenho é admirável e Watterson fez das personagens eco do nosso mundo, adultos e crianças. A ideia de humanizar o tigre é fantástica, as crianças identificam-se.”

O que seria?

A questão que fica pendurada é a que Nelson Dona traz à conversa:“Como teria sido se tivesse continuado?” Watterson continua leal a si próprio e à sua qualidade de artista, e não pensa voltar atrás.“Bill achava que a imprensa já não tinha um papel preponderante. Alguma coisa que fizesse de futuro devia ser pensada para a altura em que estava”, garante o diretor da Amadora BD.

Passados 30 anos, Calvin & Hobbes continua a agarrar novos fãs em todo o mundo.“A história não está circunscrita ao período em que foi criada e, apesar de Calvin ser uma criança, age de forma intemporal”, acrescenta. E se a intemporalidade da história contribui para que Calvin continue a angariar aficionados, a empatia que os leitores conseguem criar com a personagem é outro dos ingredientes-chave. Nuno Rodrigues garante:“Por mais insólita que seja a situação, tenha sido na escola ou em casa, revejo-me.”

O certo é que a história perdura no tempo e continua a escoar das livrarias a um ritmo alucinante. Em outubro próximo, a Universal Press Syndicate lança um novo catálogo para comemorar os 30 anos do miúdo de 6 e a Gradiva junta-se à celebração. As tiras já deram várias vezes a volta ao mundo e a viagem não tem fim à vista: enquanto houver novos fãs, Calvin & Hobbes permanecerá imortal.“Como os grandes clássicos”, destaca Guilherme Valente.


revista-estante-auto-retrato-bill-watterson-calvin-and-hobbesBill Watterson

nasceu em 1958, em Washington, mas cresceu em Chagrin Falls, uma pequena cidade do Ohio. Tinha 6 anos (a mesma idade de Calvin) quando a família se mudou para um subúrbio de Cleveland.

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