10 cromos inesquecíveis na caderneta de Nuno Markl

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A Caderneta de Cromos de Nuno Markl assinala este ano o seu 10.º aniversário, o que provavelmente significa que já se tornou, ela própria, um cromo. Em jeito de celebração, a popular rubrica radiofónica da Rádio Comercial dá agora origem a uma edição especial em capa dura que reúne os melhores cromos da década.

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Nasceu como rubrica de rádio, na manhã do dia 23 de novembro de 2009, por ocasião do regresso de Nuno Markl à Rádio Comercial, e tornou-se tão popular que rapidamente se alargou aos mais diversos formatos: livros, espetáculos ao vivo, uma agenda, um jogo de tabuleiro e até figuras de ação.

Caderneta de Cromos parte, contudo, de uma ideia bastante simples, a de reavivar memórias das coisas e pessoas que preenchiam os dias das gerações crescidas nas décadas de 1970 e 1980. Uma tarefa que, de acordo com Nuno Markl, foi também “uma espécie de terapia muito pessoal” que o ajudou “a manter a necessária sanidade mental” a partir do momento em que se tornou pai.

Se, ao longo de 10 anos, a Caderneta de Cromos se dedicou a celebrar o passado, agora é a vez de se celebrar a si própria. Por isso, acaba de ser publicada uma edição especial, a cores e com capa dura, que reúne 175 memórias inesquecíveis, várias das quais inéditas, ilustradas como sempre por Patrícia Furtado. Para te abrir o apetite, levantamos desde já o véu sobre algumas.

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FIZZ LIMÃO

Fizz Limão foi, sem dúvida, o cromo mais mediático da caderneta de Nuno Markl. Tudo começou quando o radialista se queixou por o gelado ter sido retirado das lojas: “Para onde é que foi o Fizz Limão? Para onde é que foi esse gelado? Porque é que somos torturados desta maneira? Raras vezes uma coisa tão unânime, tão desejada, uma coisa que certamente iria vender mais do que pães quentes, foi retirada assim do mercado.” Seguiram-se milhares de pedidos nas redes sociais e eis que a Olá o decidiu trazer de volta. É este o poder da Caderneta de Cromos.

O que é preciso para que haja outra vez Fizz? Querem que eu me dispa? Querem que eu vá, outra vez, patinar no gelo? Mas, desta vez, todo nu? Digam. Digam, que eu faço. Eu estou disposto a sacrificar-me para que a Humanidade tenha, outra vez, o Fizz Limão.

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O MENINO DA LÁGRIMA

Podem aparentar ser simples retratos de crianças que choram, no entanto os quadros que nos habituámos a chamar O Menino da Lágrima encontram-se ainda hoje envolvidos nos mais macabros rumores. Há quem diga que foram criados por Bragolin, um homem “que ninguém sabe bem se era espanhol, italiano ou brasileiro”, que teria assassinado as crianças em rituais satânicos apenas para as pintar. Outros dizem que escondem demónios ou que trazem tragédias às casas que os albergam. Para Nuno Markl, contudo, estes quadros são apenas isso: quadros. “E dos piores jamais pintados.”

Há quem diga que as pessoas que têm quadros d’O Menino da Lágrima nas paredes de casa nunca terão uma vida boa e próspera. Tendo em conta que há tanta casa em Portugal com o raio do quadro na parede, talvez se explique porque é que o país está sempre em crise.

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AGORA ESCOLHA

À semelhança do que fez com o Fizz Limão, Nuno Markl também aproveitou a sua Caderneta de Cromos para apelar ao regresso de Agora Escolha, um programa da RTP, apresentado por Vera Roquete, no qual esta colocava dois programas à escolha dos espectadores, que telefonavam para votar no que queriam ver. Só que Markl propõe um pequeno twist: “A escolha dos programas [teria] de ser mais competitiva e provocadora. Por exemplo, no bloco A poderia estar um documentário sério e tocante sobre Fátima e no bloco B um filme erótico para adultos. Imaginem o curto-circuito de controvérsia que não ia acontecer.”

Devia haver guerras dentro das próprias famílias. Mães e filhos lutando pelo telefone, elas para votar no bloco A, eles para votar no bloco B. A vida era emocionante, naquela altura.

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CIGARROS DE CHOCOLATE

Quem não se recorda dos míticos cigarros de chocolate que eram vendidos aos mais novos, exemplo do “espírito verdadeiramente amoral, e até mesmo roçando o bandalho, com que as várias indústrias tratavam as crianças nas décadas de 70 e 80”? De acordo com Nuno Markl, eram os chocolates preferidos das crianças rebeldes – até porque os totós comiam sombrinhas de chocolate. A lógica perde-se na idade adulta: “Vistas as coisas em comparação, acho que é mais perigoso um indivíduo tentar comer um guarda-chuva do que fumar um cigarro. A pessoa é bem capaz de ficar com uma vareta espetada no céu da boca, valha-me Deus.”

Isto hoje não funcionaria – e não é por ser politicamente incorreto, é simplesmente porque há pessoas que começam a fumar cigarros a sério na idade em que nós comíamos cigarros de chocolate de leite.

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PERNEIRAS

“Se há acessório de moda capaz de representar a década de 80, eu diria que se trata das perneiras”, escreve Nuno Markl. Refere-se, é claro, aos pedaços de tecido que serviam, na altura, para cobrir a parte inferior das pernas. Um acessório especialmente versátil, na medida em que, “com jeitinho, consegue-se agasalhar um cão de pequeno porte para ir à rua, enfiando-o numa perneira”.

A moda das perneiras deve ter começado no dia em que uma moça saiu do ginásio com tanta pressa que nem percebeu que ainda tinha as perneiras enfiadas nas pernas.

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PULGAS NA CAMA

Este era um jogo “deliciosamente selvático”, de acordo com Nuno Markl, e também “um passo em frente em relação ao lendário Tragabolas”, consistindo numa cama de plástico com um motor escondido, que vibrava, fazendo com que pequenas pulgas (também de plástico) saltassem no seu topo. “Cabia aos jogadores, munidos de pinças coloridas, tentar apanhar o maior número possível de pulgas.” Assim se entretinham as crianças dos anos 80.

A questão que se coloca é: onde iam os criadores de jogos e brinquedos buscar estas ideias? Quem é o tipo em que a coisa começa? O tipo que um dia diz: ‘O que era giro era fazer um jogo sobre catar pulgas em cima de uma cama.’

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CORREDOR DA MORTE

Nuno Markl confessa-se uma vítima do infame Corredor da Morte, que não era mais do que duas filas paralelas de pessoas (“quase sempre rapazes, porque as miúdas não se costumavam meter nestas coisas”) que batiam numa “vítima” enquanto esta atravessava o reduzido espaço entre elas. E sim, isto era mesmo um jogo habitual de recreio. “No fundo, aquilo era apenas um pretexto para espancar uma pessoa”, explica Markl, “A diferença é que, em vez de se proceder ao espancamento puro e duro, alguém se lembrou de inventar um conjunto de regras para aquele tipo específico de espancamento.”

Era assim que a gente se divertia. E foi assim que uma vez parti os óculos.

PETA ZETAS

Criadas em 1956, nos Estados Unidos, as Peta Zetas só chegaram efetivamente ao mercado americano em 1975 – “Reparem o tempo que eles levaram até decidir: ‘OK, vá, os seres humanos, se calhar, podem comer isto’” – mas rapidamente foram retiradas. Mais tarde, em 1979, uma empresa espanhola decidiu recuperá-las e o resto é história: mais um cromo inesquecível na caderneta das nossas memórias que ainda hoje não sabemos bem o que era.

Ninguém me tira da cabeça que coisas como as Peta Zetas eram radioativas e que todos nós fomos cobaias de alguma coisa enquanto ríamos a bom rir com o famoso produto que fervilhava e estalava nas nossas bocas.

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THERMOTEBE

Se perguntarem a Nuno Markl qual terá sido o maior avanço tecnológico dos anos 80, ele não hesita: “E não irei responder que foi o CD, nem nenhuma dessas mariquices. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que o maior avanço tecnológico dos anos 80 foi a Thermotebe.” E o que era a Thermotebe? Nada mais do que uma camisola interior. Só que o seu anúncio televisivo descrevia-a como possuidora de “tecnologia turbo-elétrica”. Markl duvida: “Aquilo era uma camisola interior, senhores! Mas admito que ‘tecnologia turbo-elétrica’ soa bem como o caraças.”

O que é tecnologia turbo-elétrica? Não sei, e sou indivíduo para apostar um testículo em como ninguém – ninguém! – na fábrica Tebe sabia responder a essa questão.

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UM INGLÊS, UM FRANCÊS E UM PORTUGUÊS

Nuno Markl reparou que “nunca mais se ouviram as míticas anedotas sobre as aventuras envolvendo um inglês, um francês e um português”, um verdadeiro clássico no que a anedotas diz respeito. “Andei na Internet em busca de bons espécimes de anedotas de inglês, francês e português, e digamos que hoje não me parecem tão engraçadas como quando tinha 12 anos”, confessa Markl, “mas algumas são épicas.” Como a do mítico “fantasma das cuecas rotas”. Ainda te lembras?

Imagino sempre que estas anedotas se passam na sede da ONU durante a hora de almoço, a altura em que eles estão juntos.

Por: Tiago Matos

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