Autores de um só romance

Alguns escritores põem tudo o que têm numa única história. E não voltam a publicar outra.

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Harper Lee
Publicou o seu primeiro livro aos 34 anos. Quando, aos 89, anunciou a publicação de um segundo, a notícia foi recebida com tal surpresa que foi lançada uma investigação para perceber se a autora continuava em plena posse das suas capacidades mentais.

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Go Set a Watchman
A versão inglesa da sequela de Mataram a Cotovia, de Harper Lee, já se encontra à venda em Portugal. A versão em português tem data de publicação prevista para o último trimestre deste ano, com a chancela da Editorial Presença.

Harper Lee anunciou um novo romance e o mundo literário entrou em alvoroço. É compreensível: trata-se, afinal, de uma autora de 89 anos a confirmar uma sequela direta de Mataram a Cotovia, um clássico vencedor de um Pulitzer, 55 anos depois da sua publicação. No entanto, o rebuliço deve-se também à surpresa que advém do facto de Go Set a Watchman – assim se intitula a sequela – ser apenas o segundo livro na longa carreira da americana. De acordo com a própria, foram duas as razões que a levaram a manter-se longe da escrita:“Primeiro, nem todo o dinheiro do mundo me faria passar pela pressão e publicidade que passei com o Mataram a Cotovia; segundo, já disse o que tinha a dizer e não o repetirei.” Tendo em conta que Go Set a Watchman foi, na verdade, escrito antes de Mataram a Cotovia, a autora manteve a palavra.

Vidas (demasiado) curtas

Não se pense, contudo, que Harper Lee é caso único. Muitos foram os autores que limitaram as carreiras a um único (grande) romance. E se autores como J. D. Salinger (À Espera no Centeio), Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray) ou Patrick Süskind (O Perfume) ainda se foram mantendo ativos através de contos, novelas e ensaios, outros houve que nem isso. Como Margaret Mitchell. Apanhada de surpresa pelo enorme sucesso da obra de estreia, a autora de E Tudo o Vento Levou passou o restante tempo de vida a lidar com a imprensa e a responder aos inúmeros pedidos que lhe eram endereçados. “Ser a autora de E Tudo o Vento Levou é um trabalho a tempo inteiro que, na maior parte dos dias, precisa de horas extraordinárias”, disse a certa altura para justificar o facto de não publicar nada novo. Como Mitchell, também Emily Brontë morreu sem ter tido tempo de escrever um segundo livro. À exceção de alguns poemas, o legado literário da tímida inglesa “limita-se” ao intemporal clássico O Monte dos Vendavais. Também o perfecionista Ralph Ellison, autor de Homem Invisível, morreu antes de completar um segundo livro, tendo contudo deixado mais de duas mil páginas de tentativas. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, por outro lado, nem sequer publicou nada em vida. Só depois de morto é que o seu único romance, O Leopardo, se tornou um dos mais importantes trabalhos da literatura italiana.

Ainda a tempo

Aceitam-se apostas para identificar outros eventuais escritores de um só romance. Até porque começa a ser suspeito que Arthur Golden não publique nada desde Memórias de Uma Gueixa (1997), que o ex-presidiário Gregory David Roberts se tenha afastado tanto da literatura desde o lançamento de Shantaram (2003) ou que Kathryn Stockett se afirme tão sem ideias desde As Serviçais (2009). Também Arundhati Roy, autora de O Deus das Pequenas Coisas, vencedor do Prémio Man Booker em 1998, parece ter abandonado a escrita de romances em favor da política. Será que o exemplo de Harper Lee os inspirará a voltarem a escrever?

4 LIVROS DE AUTORES DE UM SÓ ROMANCE

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A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata
Mary Ann Shaffer
Suma de Letras

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O Deus das Pequenas Coisas
Arundhati Roy
BIS

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O Leopardo
Giuseppe Tomasi di Lampedusa
Dom Quixote

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O Monte dos Vendavais
Emily Brontë
Dom Quixote

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