Editorial: Isabel Stilwell

isabel-stilwell-revista-estanteOlho para a fotografia e tenho, mais uma vez, a certeza.
No sofá, a minha mãe tem ao colo, presas nos seus braços, duas das minhas irmãs.
A mais pequenina deve ter três anos, a outra quatro, não são mais velhas do que isso. Sentado de um lado, encavalitado no braço do sofá, de roupão às riscas e uns óculos a caírem-lhe do nariz, está o meu irmão Martin.
À direita, no braço da direita, senta-se a mais velha, a Mary Anne, os olhos baixos ocupados com um pano que cose, por vergonha da máquina fotográfica, revelou-me ela no outro dia, e atrás o mano Peter, penteadinho e de roupão como, esquecia-me de contar, estão todos. E nas mãos, nas mãos da minha mãe, está aberto um livro bege clarinho, sem desenhos nem bonecos, só aquele bege de um tecido que parece serapilheira, com couro na lombada. Já invento, ou recordo, não sei bem, a fotografia é a preto e branco.

A paixão pelos livros nasce aqui, como uma tocha olímpica que passa de mão em mão, nesta poção mágica de colos e histórias, de voz e génio, que leva a descobrir que sem eles a vida é mais árida e os horizontes mais curtos. Nasce aqui a vontade de ouvir ler, de ler e depois de escrever — o passo que só pode vir da consciência das possibilidades infinitas que o jogo das palavras permite.

Não há letras na capa do livro mas, estou segura — não tão segura como isso, é mais um querer acreditar — que é um dos livros sobre fadas ou dragões, um dos livros gastos, as folhas já a cair e que, na primeira página, tem a dedicatória da minha avó para a minha mãe. Ou se calhar não é. Podem ser tantos outros, de histórias curtas ou compridas, daquelas que metiam medo, aquele medo que  queremos sentir, ou de versos absurdos que nos deixavam às gargalhadas.

Ainda não estou na fotografia como não estão outros dois dos meus irmãos, mais novos do que estes. Mas o momento é-me tão familiar que, suspeito, não é a fotografia que me toca mas a memória, com cor e cheiro, daquelas noites em que, depois do banho, estive naquele colo — num tempo em que o colo era raro e só chegava a pretexto de um livro. Talvez o que tenha ficado mais fundo e mais vivo seja a voz, a voz guardada para sempre dentro de mim e que volta, forte e segura, quando me sento com as minhas netas ao colo e releio os mesmos livros, as mesmas linhas. Como já fiz com os meus filhos, e como eles fazem com os deles.

Nas estantes, e nesta Estante, estão as pistas que lhe permitem dar dois passos em frente, lançando-se na descoberta de um novo livro, ou dois passos atrás, voltando aos que o tocaram. Deixo-lhe só um conselho, só mesmo a acabar: se o livro é para oferecer, escolha um que já conhece e gosta, porque só esse levará com ele um bocadinho de si.

 Isabel Stilwell

Gostou? Partilhe este artigo: