Arturo Pérez-Reverte: “Sem literatura não seria humano”

O escritor espanhol mais lido no mundo conversou com a Estante sobre Falcó, o seu mais recente romance que mergulha na espionagem dos anos 30. Arturo Pérez-Reverte fala ainda sobre a “maldade e estupidez do ser humano”, o turismo “analfabeto” que ameaça a Europa e o eventual desaparecimento dos livros.

1507-1-2

Arturo Pérez-Reverte nasceu em Cartagena, Espanha, em 1951 (tem 65 anos). Foi repórter de guerra durante 21 anos, dedicando depois a sua vida à literatura. Hoje, é lido por mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo.

Falcó parece reunir todos os ingredientes que agradam a fãs de policiais e espionagem. Mas o que o diferencia dos livros de espiões dos últimos tempos?

Muitas coisas. Primeiro, cada romance é uma aventura específica que requer um tratamento específico. Este é um romance de espionagem, é um romance canónico, o que significa que é mais curto, mais sintético, mais dialogado, mais picado e com mais ação.

É um romance de espionagem, nesse sentido, mas há um problema: é que um romance de espionagem moderno exige muita tecnologia. Agora todos os espiões – como os dos romances de Ian Fleming ou de John le Carré – têm drones, satélites, telefones e tudo mais. Isso é muito vulgar, eu não queria fazer esse tipo de romance. Então decidi fazê-lo nos anos 30, que é uma época muito interessante. E porquê? Porque o fator humano era fundamental.

O ser humano estava acima das máquinas e da tecnologia. É uma época fascinante no sentido em que emergem a Guerra Civil de Espanha, a Segunda Guerra Mundial, os fascismos, nazismos, anarquismos, socialismos. E, além disso, havia glamour, havia encanto, havia algo especial.

Sempre quis escrever sobre espionagem?

Sempre não, mas todo o romancista tem na cabeça uma série de histórias que o acompanham: sentimentais, de ação, aventura, espionagem… Um romance meu que se chama O Tango da Velha Guarda apontava já um pouco para uma história de espionagem e deixou-me com vontade de continuar, de saboreá-la mais. Tinha isso na cabeça e por fim decidi fazê-lo.

O que aconteceu foi que pensei em fazer um só romance, mas quando estava a trabalhar nele senti-me tão bem, fui tão feliz nesse mundo de roupa, elegância, viagens, aventura, conspirações, falsos passaportes, nazismos e fascismos, que decidi fazer uma série de pelo menos três romances sobre esta personagem [Lorenzo Falcó].

Está, aliás, quase a sair o segundo romance, Eva.

Sim, Eva sai em Espanha dentro de uma semana. Vai ser a continuação de Falcó. O personagem feminino que aparece nesse livro vai aparecer no novo livro ainda mais. E a história começa em Lisboa, precisamente. Neste mesmo hotel onde estamos [Hotel Avenida Palace].

Que autores são uma referência para si neste género literário?

Ainda bem que fez essa pergunta, porque normalmente dizem-me: “Deve ter lido muito John le Carré ou Ian Fleming.” E li-os, claro, mas este romance não lhes deve nada. Deve a outros autores anteriores, que são os criadores do género. Falo de Eric Ambler, William Somerset Maugham, dos relatos de espionagem em revistas ilustradas de época, de Jean Bommart, que escreveu Le Poisson Chinois… Enfim, não são romances do tipo James Bond, são anteriores.

E vi muito cinema de época porque queria escrever um romance a preto e branco, ou seja, queria que o leitor, quando estivesse a ler, tivesse a impressão de estar a ver algo a preto e branco.


“Sei como grita uma mulher quando a violam, sei como grita um homem quando o matam. Não preciso de ler Ian Fleming ou de ver um filme para saber como é a morte e a violência.
Já vi tudo isso.”


Arturo13

Inspirou-se em alguém, ou em algum personagem da literatura, para criar Lorenzo Falcó?

Não. Falcó é um personagem absolutamente original. O que acontece é que tenho uma vantagem: eu conheci Falcó. Nos meus 21 anos como repórter de guerra conheci assassinos, torturadores, traficantes de todo o tipo. Alguns foram amigos meus, alguns ainda o são. Digamos que para criar Falcó recorri a essas memórias.

Quando falo de violência e tortura, não invento. Sei como é o suor na pele de quem tortura, sei como grita uma mulher quando a violam, sei como grita um homem quando o matam, sei a cara que um homem tem quando mata outro. Foi o meu arquivo e as minhas memórias que me levaram a este romance. Falcó nasce disso. Não preciso de ler Ian Fleming ou de ver um filme para saber como é a morte, o horror e a violência. Já vi tudo isso.

Há alguma coisa sua em Lorenzo Falcó?

Sabe que é um erro procurar o autor num personagem. Mas há vezes em que o personagem é contaminado pela personalidade do autor, evidentemente. Há algo de mim em Falcó? Sim, o olhar. Eu não sou como Falcó – não tenho a sua falta de escrúpulos, não sou um sem-vergonha –, mas a forma de olhar o mundo, que me deixaram os 21 anos como repórter, emprestei-a a Falcó.

Ele vê o mundo como eu o vejo. Tenho um muito mau conceito do ser humano. Já o vi fazer coisas muito sujas, muito duras e tenho uma fé ininterrupta na sua capacidade de maldade e estupidez. Isso não me dececiona nunca. Jamais falha. E foi isso que emprestei a Falcó.

A história termina no Estoril, em Portugal. Porquê esta escolha?

Por muitas razões. Portugal era um mundo de espiões nos anos 30, era um ponto fundamental. Foi-o na Guerra Civil espanhola, foi-o na Segunda Guerra Mundial e, em 1937, quando houve um atentado contra Salazar durante a ditadura do Estado Novo, Portugal estava no coração de uma Europa convulsa. Por isso, Portugal e Lisboa são inevitáveis num romance de espionagem dos anos 30. Todos os espiões passavam por aqui e Falcó também tinha de passar.

O que o fascina em Portugal e nos portugueses?

Como todos os visitantes, tenho mitificado Portugal. Para mim, Portugal sempre foi o meu lugar de refúgio. Quando tudo está no caralho em Espanha, quando a Europa está na merda, venho para Portugal esconder-me. Mas agora já nem é possível… Eu sempre disse que o que vai destruir a Europa não é o islamismo, é o turismo. Esse turismo analfabeto, massivo, que não compreende nem quer compreender. Isso aconteceu em Florença, Paris, Roma, Sevilha, Barcelona, Madrid e está a ocorrer também em Lisboa. Nenhuma cidade sobrevive a cinco mil visitantes diários. Nenhuma. Mas dá dinheiro, dá trabalho e é normal que toda a gente se converta a este tipo de turistas.

Uma cidade como Lisboa – que é uma cidade elegante, discreta, recôndita, serena, bonita – agora está a converter-se numa cidade para agradar a esse tipo de turistas. Tudo vai transformar-se em restaurantes, bares, lojas de roupa, Starbucks e lojas de souvenirs. E todo o velho comércio, tudo o que dava a Lisboa o seu encanto, vai converter-se nisso. É um turismo analfabeto porque os turistas não se importam. Vão à Brasileira, tiram uma fotografia com o Fernando Pessoa, mas não sabem quem foi. Nunca o leram, não se importam com uma merda. Esse turismo estúpido, que dá dinheiro evidentemente, destrói tudo aquilo em que toca. Por isso já não voltará a Lisboa antiga, como diz o fado. Mas pelo menos conheci-a.

O que conheceu de Lisboa?

Antigamente, quando vinha a Lisboa, todos os dias de manhã ia à Pastelaria Suíça. Comia uma torrada, comprava os jornais e caminhava até ao Miradouro de Santa Luzia. Sentava-me a ler e depois passava por Alfama, por volta das 10 da manhã, até à Rua de São Pedro, que era onde estavam as mulheres a gritar: “Olha o peixe fresco!” Sentava-me aí e depois ia para uma tasca ali perto, lia o jornal e comia aí por volta das 12h00. Todas as minhas manhãs tranquilas em Lisboa eram isso. Agora não há nada disso na Rua de São Pedro. Ah, e o fado! Nunca houve fado em Alfama, nunca! O fado era no Bairro Alto. Agora é fado, fado, fado para os turistas… Aquela Lisboa já não existe. É uma pena, amo muito essa Lisboa.


“Odeio escrever. Escrever é o pretexto para preparar o romance,
que é quando sou realmente feliz.”


O-Tango-da-Velha-Guarda

Fez muita pesquisa para este romance?

Sim, essa é a parte mais divertida. Eu odeio escrever. Detesto escrever. O que gosto é de imaginar, preparar, viajar, pensar que Falcó se sentou aqui a olhar para a lâmpada de cristal, para as cortinas ou para a luz que passa pela janela, ler sobre Lisboa dos anos 30, caminhar pela rua, tirar fotografias, ver filmes… A parte da documentação é a parte mais divertida. Escrever é o pretexto para preparar o romance, que é quando sou realmente feliz. 

Disse numa entrevista que gosta de rodear-se dos objetos pessoais dos seus personagens. Quais são os do Lorenzo Falcó e como os obteve?

A pistola, a pena de escrever… Há um certo fetiche nisso. Quando escrevo um romance gosto de ter certos objetos que têm a ver com a história. No caso de Falcó, procurei muito em antiquários por tubos de aspirina antigos, cigarros Players, o modelo da pistola do Falcó… E tenho-os por perto. Tocar-lhes e observá-los suscita-me ideias.

Talvez por ter levado uma vida muito dura, violenta, aventureira e cheia de coisas dramáticas e terríveis, para mim é-me útil continuar a ser criança. E escrever é como brincar, é como quando uma criança brinca aos piratas, aos índios ou aos gladiadores. Há um aspeto lúdico na escrita e isso inclui colecionar objetos. Há muito de infantil na minha maneira de ser escritor e gosto que assim seja.

Sou um tipo que já viu muito, que tem falhas na barba, marcas na cara, ou seja, vivi. Não sou ingénuo. Mas sinto que essa vontade infantil de brincar é possível através da literatura. Faz-me continuar a ser humano. Quiçá, sem literatura não seria humano. Seria demasiado duro.

Foi repórter de guerra durante 21 anos. Foi a violência da profissão que o levou a dedicar-se à escrita?

Tornei-me escritor por muitas razões. Primeiro porque a vida de repórter era muito dura. Não tinha vida privada. Estava com a minha filha e ligavam-me a dizer: “Arturo, atacaram os sérvios, tens de ir.” Ou então dizia à minha mulher: “Vou até ao jornal.” Depois acontecia qualquer coisa e eu estava meses sem voltar. Era uma vida que não era compatível com muitas coisas. Mas, à parte disso, o jornalismo estava a mudar.

Comecei a ser repórter nos anos 70, fiz a Guerra de Angola, de Moçambique, nos anos 90 a Guerra do Golfo e a Guerra dos Balcãs, e dei conta de que o jornalismo estava a mudar. Era um mundo diferente com a tecnologia. Vivi em África nos anos 70 e as minhas reportagens saíam na primeira página. Agora, cinco minutos depois já não valem nada porque já tudo chegou à Internet. Dei conta de que o mundo era diferente – os jornalistas já não estavam no terreno, estavam no hotel a falar ao telemóvel. E esse já não era o meu mundo. Então, como os meus romances vendiam muito bem, como tinha vivido muito intensamente a vida de repórter, como envelheci muito e já não podia estar a caminhar 50 quilómetros por dia na selva, a literatura foi a única maneira de me retirar.

Acha que o jornalismo está em crise?

Sim. E está porque o jornalista antigamente era o filtro, era um intermediário qualificado entre o acontecimento e o público. Um jornalista de qualidade, preparado, culto, ajudava a que o acontecimento chegasse ao público de uma maneira objetiva, rigorosa, bem documentada. Agora, o jornalismo foi substituído pelo imediatismo das redes sociais. Na realidade, o jornalismo agora é o Twitter, o Facebook e o Google. Já não há forma de confirmar, de dar credibilidade: qualquer rumor e qualquer estupidez circulam antes que possam ser analisados. Agora, qualquer um pode ser jornalista e dizer: “Estou aqui na manifestação e aconteceu isto.” E isso circula de forma igual ao New York Times ou à televisão portuguesa. Digamos que o jornalismo se deixou contaminar pelas redes sociais de uma maneira que o torna pouco fiável.


“A atualidade é muito vulgar. Somos vulgares a vestir-nos, a falar, a relacionar-nos,
a fazer tudo. Até os ditadores são vulgares.”


Arturo1

Por que motivo escolhe sempre grandes acontecimentos da História como fio condutor dos seus romances? Porque não ter como pano de fundo a atualidade?

A atualidade é muito vulgar. Somos vulgares a vestir-nos, a falar, a relacionar-nos, a fazer tudo. Já não somos originais, somos medíocres. Até os ditadores são vulgares. Salazar era um filho da puta, mas um filho da puta com talento, com cabeça. Churchill era um político com categoria. Agora não. [Nicolás] Maduro é um palhaço. Nem sequer a maldade tem categoria. Até a maldade é medíocre. E o presente está tão presente que seria absurdo escrever romances para falar de algo que vemos todos os dias. Eu escrevo romances para falar de coisas que não vemos todos os dias.

O que se está a passar neste momento na Catalunha não daria um bom romance?

Não. Também isso é vulgar. A Catalunha no século XVII teve uma guerra contra a coroa espanhola, mas agora já é vulgar. Até os nacionalismos de hoje são vulgares.

Acha que é fácil confundir a vida com a literatura, por vezes?

A vida é literatura. A literatura ajuda a entender a vida. Sou leitor desde criança. Cresci numa casa com uma biblioteca grande e li muito desde pequeno. Quando fui para a guerra, a literatura ajudou-me a entendê-la. Quando vi a dor e a morte, os livros ajudaram-me a digerir tudo isso. Sabe que a bílis é uma substância que o corpo segrega para ajudar a digerir os alimentos. Sem vesícula biliar, não poderíamos digerir certos alimentos. Pois a literatura é a bílis da vida. Sem literatura, a vida não tem explicação.

Faz-nos falta ler mais?

Não sei se faz falta ou não. Não há nenhuma doutrina para conquistar leitores que seja eficaz. Quem não lê, não lê. Antigamente, havia coisas que justificavam a leitura – estavas à espera do comboio ou à espera da tua namorada no parque e lias para te entreter. Agora pegas no telemóvel e fazes assim [toca no ecrã repetidamente]. Isto, este aparelho, substitui o livro.

Muitos leitores que antes liam obrigados, para matar o aborrecimento, agora têm isto. Isto [volta a apontar para o telemóvel] afastou os leitores utilitários. Restam os leitores vocacionais, e esses são poucos. Creio que a leitura tem muito pouco futuro. Acredito que em duas ou três gerações já desapareceu. Teremos os videojogos, a televisão e haverá um trespasse do literário para o audiovisual. Já estamos a assistir a isso.

Quando os jovens que agora têm 5 ou 6 anos tiverem 30, creio que não vão ler. A leitura que continuará a haver será uma espécie de refúgio para poucos.

Para uma elite.

Sim, para uma elite. Creio que o grande público abandonará os livros pelos meios audiovisuais. Mas já não vou estar aqui, importa-me um caralho que isso aconteça.


“Podíamos deixar de escrever todos, neste momento, que já não se perderia nada.
Já está tudo escrito.”


A-Rainha-do-Sul

Quem é, na sua opinião, o melhor escritor da atualidade?

Não há. Já não há.

O que existe é quase como uma imitação do que já existiu?

Sim. Já não há nada de novo. Até nisso somos medíocres. É uma boa pergunta, mas não consigo responder. Há 50 anos podia dizer vários nomes, agora não consigo. Não creio que haja alguém que mereça esse título neste momento.

Se pensar em escritores portugueses, por exemplo, penso em Lobo Antunes, Saramago, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Camões. Para mim, a literatura portuguesa é isso. Mas há escritores bons, há escritores de quem gosto, como o José Rodrigues dos Santos. Mas isso é outra coisa. Já somos outra coisa. Eu também sou outra coisa.

E em Espanha é igual. Já não há nomes definitivos. Podíamos deixar de escrever todos, neste momento, que já não se perderia nada. Porque já está tudo escrito. Montaigne, Cervantes, Galdós, Eça de Queirós, Balzac, Dostoiévski, Tolstói, Mark Twain, Dickens… esses sim, ainda fazem falta. 

Considera-se o melhor escritor de Espanha?

Ah não [risos]. Não posso dizer isso. É como expliquei antes: não consigo dizer um nome. Há escritores bons em Espanha, claro, mas se estou a falar de Conrad, Balzac, Galdós, Pessoa e Eça de Queirós, não posso nomear um escritor espanhol da atualidade. Estamos noutra divisão. 

O que é para si um bom livro?

É aquele que consegue multiplicar a vida do leitor, que torna possível ao leitor viver vidas que não viveu, que o leva a lugares onde nunca esteve. É o que nos dá aquilo que não temos. Num dos meus livros, A Rainha do Sul, a protagonista é uma rapariga analfabeta mexicana a quem matam o namorado, que vem para Espanha e é tornada rainha do narcotráfico. Há um processo de culturização porque na prisão ela lê O Conde de Monte Cristo. E há uma frase dela que é: “Descobri que todos os livros do mundo falam de mim.” Essa é a frase. Quem lê bons livros reconhece-se neles.


“O mundo está cheio de gente que não tem nada para dizer.
Para escrever um livro há que viver.”


Arturo5

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Levanto-me cedo, faço exercício – nado ou caminho –, tomo um duche e às 9h00 estou a trabalhar. Todos os dias, tenha vontade ou não. Trabalho num local isolado, sem música, numa cave cheia de livros, depois almoço, à tarde leio o que escrevi e preparo o dia seguinte.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve?

Estruturo muito bem os romances. Passo muito tempo a fazer isso antes de escrevê-los, porque é uma estrutura muito complexa, e isso deixa pouca margem para improviso. Cerca de 80% da história já está estruturada quando começo a escrever.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor?

Podem ler um texto que escrevi e que se chama “Carta a um jovem escritor. Mas resumindo: lê muito e não tenhas pressa de publicar. Espera teres vivido para escreveres. Aos 20 anos não tens nada importante para dizer. Alguns nem aos 40, nem nunca. O mundo está cheio de gente que não tem nada para dizer e que se esforça para publicar. Para escrever um livro há que viver, há que ter coisas para contar, há que tirar coisas da mochila.

Há gente que escreve e nunca leu Tolstói, Conrad, Galdós, Twain, Homero, Virgílio, Dante, Cervantes… Como se atrevem? Não sabem nada, não leram nada. Ninguém que não tenha sido um bom leitor pode ser um bom escritor. Ninguém. Eu tenho 65 anos, publico em 40 países e já vendi mais de 15 milhões de livros, e ainda assim, quando estou a trabalhar, às vezes levanto-me, vou à livraria e digo: “Maestros, como resolvo este problema?” E eles dão-me respostas. Ainda hoje tenho a humildade profissional de lhes perguntar.

Podemos ser a pessoa mais arrogante do mundo, mas temos de ser humildes profissionalmente. A humildade faz falta. Há aqueles que desprezam Eça de Queirós e dizem: “Não, mas eu li Jack Kerouac e Paul Auster.” [risos] Não conhecem nada. Há demasiados escritores assim.

Se escrevesse um livro 100% autobiográfico, que título lhe daria?

Já escrevi O Pintor de Batalhas, que é um romance duro, complexo, sobre um repórter de guerra, e é autobiográfico a 90%. Mas acho que é o título perfeito.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

Gostou? Partilhe este artigo:

1 Comment

Comments are closed.