Aparição: Uma autobiografia disfarçada de ficção

O existencialismo de Vergílio Ferreira marca este ensaio em forma de romance que é também uma das obras mais emblemáticas da literatura portuguesa.


Publicado em 1959,
Aparição reflete a filosofia
existencialista de Vergílio Ferreira
.

Há quem diga que é uma autobiografia disfarçada de ficção. Certo é que Aparição é um romance de várias camadas, um dos mais elogiados da obra de Vergílio Ferreira, e parece refletir o pensamento que leva o autor a mover-se do neorrealismo para o existencialismo. Alberto Soares é o narrador de serviço numa narrativa que é, na sua grande maioria, a memória do ano em que, ainda jovem e em luto pela perda do pai, se mudou para Évora para trabalhar como professor de Português. Por lá encontra um amigo antigo do pai e conhece as suas três filhas, chegando mesmo a envolver-se romanticamente com uma. Mas esta não é uma simples história de amor, embora inclua os habituais altos e baixos do género. A verdadeira jornada do protagonista é existencial. Alberto Soares procura a sua aparição.

“O que pretendi em Aparição foi a necessidade, para uma realização total do homem, de ele se redescobrir a si próprio, não nos limites de uma estreita individualização, mas no da sua condição humana”, explica Vergílio Ferreira. E, de facto, o principal problema do seu personagem – e porventura alter ego – é descobrir-se a si próprio a fim de compreender enfim o que pretende para a vida. Sentir a “aparição” da sua real natureza.

O conflito de Aparição é, por isso, essencialmente interno. Vergílio Ferreira dá a entender que a vida não pode ser reduzida à satisfação das necessidades fisiológicas básicas. Ou, por outras palavras, que nem só de pão vive o Homem. Através das ideias existenciais de Alberto Soares e dos problemas que vão envolvendo o restante elenco, constrói um ensaio disfarçado de romance que se interroga sobre aspetos tão diversos da condição humana como o desejo de autorrealização, o conceito de autenticidade e o significado da morte. O mesmo desassossego parece ter atormentado Vergílio Ferreira, também ele professor com trabalho feito em Évora. É nesta fase que o autor abandona em definitivo os valores naturalistas para adotar um pensamento filosófico sob o qual, nas palavras de Jean-Paul Sartre, “a existência precede e governa a essência”.

Publicado em 1959, Aparição é amplamente analisado em ensaios, jornais e revistas literárias, em especial na década de 1970, permanecendo ainda hoje como uma das obras maiores da literatura portuguesa. Não deixa de ter alguma graça que, enquanto se tentava encontrar, Vergílio Ferreira tenha engendrado o livro que possibilitou que ainda hoje o encontrem.


Por: Tiago Matos

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