Anthony Burgess: O Homem da Laranja Mecânica

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Anthony Burgess completaria 100 anos em fevereiro. Escreveu mais de trinta romances e ainda ensaios, contos, poemas, guiões e composições musicais, mas é conhecido apenas por Laranja Mecânica. Um livro que passou grande parte da vida a condenar.

Por: Tiago Matos | Ilustração: Gonçalo Viana
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PORQUÊ LARANJA MECÂNICA?
Ao longo dos anos, Anthony Burgess avançou várias explicações para o título do seu mais célebre livro. A mais frequente justifica a expressão com o tema central do livro: uma entidade orgânica – cheia de potencial – a ser transformada num mecanismo.

ANTHONY BURGESS até começou por elogiar o filme. Chegou mesmo a declarar publicamente: “Este é um caso raro de um grande livro que origina um grande filme.” Isto apesar de a sua mulher ter abandonado a exibição privada, a que tiveram direito, apenas dez minutos após o início, repugnada com as cenas de sexo e violência da película. Nos anos que se seguiram, aconteceram duas coisas: desencantou-se com Laranja Mecânica, o filme de Stanley Kubrick, e desencantou-se com Laranja Mecânica, o seu próprio livro.

O ponto de viragem no que diz respeito ao filme parece ter ocorrido em janeiro de 1972, pouco mais de um mês após a estreia. Em Nova Iorque, uma freira foi atacada por quatro adolescentes alegadamente vestidos como os protagonistas da narrativa. Burgess foi chamado a comentar o caso, mas viu-se na incerteza de estar a defender o livro ou o filme.

“Compreendi quão pouco impacto tem um livro, por mais chocante que seja, em comparação com um filme. A façanha de Kubrick engoliu a minha, e no entanto era eu o responsável pelo que alguns chamavam de influência maligna nos jovens”, declarou mais tarde.

Embora o seu discurso não o evidenciasse de imediato, o escritor tinha uma razão mais forte do que a mera obrigação moral para não querer o seu trabalho associado a atos de selvajaria. Eram as recordações do passado que o voltavam a assombrar.

SOBRE ANTHONY BURGESS
“Burgess trabalhava o dia inteiro, fumando incessantemente e produzindo mil palavras por dia num grande estirador. Um processador de texto para o jornalismo, uma máquina de escrever para a ficção. Ia para casa, tratava da cozinha, limpava o apartamento, escrevia duas críticas literárias, um concerto em flauta e um guião de cinema, acabava a sua coluna de jardinagem para o Pravda, despachava a sua página sobre surf para o Sydney Morning Herald e testava uma máquina de hemodiálise para o El País antes de começar a trabalhar a sério.”
– Martin Amis
“Embora, em vida, Anthony Burgess tenha sido amigável, generoso e muito menos presunçoso do que a maioria dos escritores, perturbou-me ler que não se achava suficientemente admirado pelo mundo literário.”
– Gore Vidal
“[Anthony Burgess] deve ser uma espécie de Batman das letras contemporâneas.”
– Philip Larkin

ANTHONY BURGESS VS. STANLEY KUBRICK

Embora tenha continuado a afirmar que “nem o cinema nem a literatura podem ser culpados pelo pecado original”, o discurso de Burgess endureceu. Para o escritor, Kubrick tinha transformado a sua história – e, por consequência, ele próprio – num estímulo à crueldade.

Em 1985 escreveu num ensaio: “O livro pelo qual sou mais conhecido, ou o único pelo qual sou conhecido, é um romance que estou preparado para repudiar: escrito há um quarto de século, um gracejo feito por dinheiro no espaço de três semanas, tornou-se notório como matéria-prima para um filme que parecia glorificar sexo e violência.”

A causa da discórdia estava, pelo menos em parte, na eliminação de um capítulo. A edição original de Laranja Mecânica tinha 21 capítulos, centrados na figura de Alex, um rapaz de 15 anos com tendência para a violência – ou “ultraviolência”, uma das muitas palavras que fazem parte do seu estranho jargão. Alex vive numa sociedade distópica, comandada por um governo autoritário, onde proliferam os gangues de adolescentes tão brutais quanto ele. Até que é desenvolvida uma solução revolucionária: eliminar o livre-arbítrio.

O livro termina com um capítulo que encerra a história num tom positivo, mas a editora americana optou por não o incluir e Kubrick baseou-se nesta edição para a sua adaptação. Como o sucesso do filme teve o condão de, em simultâneo, difundir e eclipsar o livro, Anthony Burgess viu-se eternamente celebrado por uma narrativa com uma desesperança na qual não se revia. E não se cansou de repetir: “Não devia ter escrito o livro.”

OUTROS LIVROS DE ANTHONY BURGESS
Quando um dia lhe perguntaram como era o seu processo de escrita, Anthony Burgess respondeu: “Começo pelo princípio, prossigo até ao fim e depois paro.” Fê-lo muitas vezes. Embora o seu nome seja associado quase exclusivamente a Laranja Mecânica, escreveu dezenas de outros romances. Conhece alguns.
The Long Day Wanes
Também conhecido como The Malayan Trilogy, este livro reúne três romances – Time for a Tiger, The Enemy in the Blanket e Beds in the East – que têm em comum o tema da descolonização da Malásia britânica.
Earthly Powers
Um escritor de 81 anos recorda – em 82 capítulos – a história da sua vida neste híbrido de sátira e romance histórico que foi um dos mais elogiados de Anthony Burgess.
1985
Claro tributo a 1984, de George Orwell, este livro está dividido em duas partes: começa com uma autoentrevista de Burgess e prossegue para uma novela distópica que prevê a ascensão do islamismo no Reino Unido.

UM TALENTO SUBVALORIZADO?

Pode ser que Anthony Burgess não tenha gostado que o vissem apenas como o autor de Laranja Mecânica. Afinal, foi um dos mais prolíferos escritores ingleses do seu tempo, tendo publicado dezenas de outros romances e ainda ensaios, poemas, contos e muitos outros textos. Outra hipótese é que tenha ficado ressentido com o enorme impacto cultural do cinema relativamente ao de áreas como a literatura ou a música.

Burgess compôs centenas de canções e até chegou a dizer: “Gostava que as pessoas pensassem em mim como um músico que escreve romances e não como um romancista que compõe música.” Existe, contudo, a teoria de que Burgess se sentia roubado por Kubrick. É que, por muito que o autor denegrisse Laranja Mecânica, a história continha algo que lhe era muito pessoal. E Stanley Kubrick apropriara-se disto para criar uma obra com a sua assinatura.

Anthony Burgess vivera uma infância solitária, com a sensação de que não pertencia a lado nenhum. As crianças que não o ignoravam, atormentavam-no. Sonhava ser músico, mas a família dizia-lhe que as artes não davam dinheiro. Mais tarde, enquanto servia no exército inglês, a sua mulher foi atacada e violada por um grupo de homens. Perdeu o bebé que esperava, mas os superiores de Burgess nem sequer lhe permitiram deixar o serviço para a ver.

Concluída a carreira militar, foi trabalhar como professor mas colapsou durante uma aula. Encontraram-lhe um tumor no cérebro e garantiram-lhe que só tinha mais um ano de vida. O diagnóstico estava errado, mas levou-o a retornar a casa, deparando-se com a sua cidade repleta de jovens delinquentes. Para deixar à mulher o máximo de dinheiro possível, começou a escrever romances. Laranja Mecânica nasce como reação às suas preocupações financeiras, mas também como uma espécie de resumo de todas as atribulações por que passou.

Um século após o seu nascimento, Anthony Burgess continua a ser recordado como o autor de Laranja Mecânica, o livro que inspirou “aquele” grande clássico cinematográfico de Stanley Kubrick. É, sem dúvida, um rótulo excessivamente limitado para os seus talentos. Mas será melhor ser lembrado por todos, mesmo que devido a algo que não aprovamos, ou não pertencer sequer às memórias de ninguém?

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