Alter Ego de David Fonseca


David Fonseca

É músico e compositor. Começou por se apresentar ao público português como membro dos Silence 4, mas desde 2003 que canta a solo. É natural de Leiria e chegou a ser fotógrafo de moda. Mais informações em davidfonseca.com.

Qual a primeira coisa que fazes ao acordar?

Ouço, com muita atenção. Não abro logo os olhos, fico na cama a tentar adivinhar o estado meteorológico através do som do vento na janela ou eventuais pingos de chuva. Tento também adivinhar quantas pessoas estão em casa. E as horas certas.

O teu novo disco Futuro Eu é o primeiro que escreves integralmente na tua língua-mãe. Porquê agora?

Na realidade, esta é uma das perguntas que mais me fazem. Durante dez anos perguntaram-me porque cantava sempre em inglês. Agora perguntam-me sistematicamente porque canto em português. Tento sempre responder da forma mais genuína possível, mas não há uma resposta exata para esta pergunta. Eu também não sei. A única coisa que quero é fazer canções que aproximem o meu mundo abstrato do mundo real, tudo o resto são pormenores e particularidades que só interessam ao seu inventor. As entrevistas começam quase sempre com esta pergunta e sinto sempre um bocadinho da minha alma a abandonar o meu corpo enquanto a minha boca responde.

Vais para uma ilha deserta e só podes levar três livros. O que escolherias?

De todas as metáforas existentes para elaborar um top, a ilha deserta é sempre a mais usada. Como se a ideia de isolamento final e absoluto morasse num sítio pequenino rodeado de mar com areia e palmeiras no seu centro. E intriga-me o conceito de fazer uma mala para levar para esse sítio e pôr-me a escolher livros e discos que iria ler e ouvir o resto da vida, repetidamente, até desaparecer, desidratado e fustigado pelo sol. Por melhores que estas manifestações artísticas fossem, ao fim de dois dias não ia conseguir ler nem mais uma linha do 1984 ou ouvir aquela voz fininha do Brian Wilson. Falta a coragem jornalística de inventar uma metáfora mais precisa e menos politicamente correta.

 

És condenado à morte e só tens tempo para ler três livros. O que escolherias?

Nem assim funciona. Por que raio havia de gastar o meu milimétrico tempo restante a ler as inquietações do Camus ou a ouvir a alma musical torturada de Mozart? Próxima pergunta, por favor.

Abre a tua mala agora e diz-me o que tens lá dentro.

Uma agenda Midori cheia de caderninhos, pequenos objectos, lápis e canetas. Um computador portátil. Auscultadores. A última Sight & Sound, que ainda não folheei sequer. O livro Mother’s Milk do Edward St Aubyn. Outro livro, Psicopolítica de Byung-Chul Han. Os volumes 2 e 3 da BD Nailbiter do Joshua Williamson, o primeiro volume de Preacher do Garth Ennis. Uma embalagem de pastilhas elásticas. Um porta-chaves com um carro de metal e uma chave que não sei o que abre.

Projetos para o futuro?

Nunca para o futuro distante, sempre para o futuro próximo. Hoje ainda conto sentar-me ao piano e procurar outra canção. Componho quase todos os dias e a música melhora sempre as minhas horas, especialmente em dias de chuva como o de hoje. Apesar de me conotarem como um cantor na esmagadora maioria das vezes, a composição é ainda a minha atividade principal, rodeado de instrumentos, cabos e sistemas de gravação. Lá para as quatro da manhã, acabo por ter de convencer-me a cantar por ser bem mais simples do que arranjar cantores àquela hora da madrugada.

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