Alexandra Lucas Coelho: “Não gosto da palavra ficção”

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Nas novidades da ficção portuguesa desta reentrée encontra-se uma distopia de Alexandra Lucas Coelho passada no (fictício) Alendabar. A autora conta-nos o que a inspirou.


As suas viagens têm inspirado a maioria dos livros que já publicou. A Nossa Alegria Chegou também nasceu a partir de uma viagem?

A Nossa Alegria Chegou passa-se ao longo de 12 horas num lugar imaginário, com fauna e flora imaginárias, e uma língua imaginária. O fio-condutor é uma revolução planeada por três jovens. É o meu primeiro livro em que não há qualquer referência a lugares conhecidos ou datas. Não sabemos quando se passa, nem em que parte da Terra.

Quanto aos livros anteriores, vejo apenas dois como viagens, Caderno Afegão e Viva México. Os outros três livros de não ficção que publiquei resultam de estadias. No caso de Tahrir, uma curta estadia no Cairo durante os dias da revolução de 2011. No caso de Oriente Próximo e Vai, Brasil, de estadias de anos em lugares onde morei, Israel/Palestina e Brasil. Os outros quatro livros são romances, e inspirados por muitas coisas diferentes, incluindo partes diferentes do mundo. 

Depois de vários livros de viagens e de, no ano passado, ter publicado o seu primeiro livro infantil, o que a levou a querer retornar aos romances?

Fora o livro infantil, desde 2011 só escrevi romances (Vai, Brasil é de 2013, mas é uma coletânea de crónicas). Todos os livros que escrevi de raiz nos últimos sete anos foram romances, e os que tenho na cabeça também. Trata-se, pois, de continuar, e não de retornar. Se voltar a escrever algo que não seja romance será a exceção. 


É o meu primeiro livro em que não há qualquer referência a lugares conhecidos ou datas.


RG Rui Gaudencio - 14 Novembro 2016 - PORTUGAL, Lisboa - Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora, Lisboa

Revelou no passado que procura escrever romances porque lhe interessa a verdade. Qual é a verdade que pretende retratar no novo livro?

Interessa-me a verdade no jornalismo, nos livros de não ficção, tal como nos romances, na poesia, em qualquer criação, na vida. Creio que a pergunta se refere a uma frase em que distingui verosimilhança e verdade. Não gosto da palavra ficção porque à ficção interessa a verosimilhança, ou seja, que algo pareça verdade. Não estou interessada em que algo pareça verdade. Estou interessada na verdade, no real, que, aliás, frequentemente é inverosímil.

Há muitas formas de tentar chegar ao real. O jornalismo é uma delas. A imaginação, a invenção, a construção livre do romance é outra forma. Para mim, a diferença entre jornalismo e literatura não é que o jornalismo trate do real e a literatura do irreal. Ambos tratam do real. A diferença é de liberdade. O jornalismo obedece a um conjunto de regras. A literatura, a criação, inventa as suas regras de cada vez.

Vejo o romance como o território inteiramente livre onde tudo pode ser experimentado, inventado, imaginado, para tocar nisso a que chamamos real: a vida. O que tento fazer neste novo romance é isso, inventando pela primeira vez um lugar. O lugar é imaginário, as personagens são inventadas, a ação é inventada. Mas — espero — aquilo é vida.


 Vejo o romance como o território inteiramente livre onde tudo pode ser experimentado.


Qual foi o último livro que leu?

The Last Wild Men of Borneo, do norte-americano Carl Hoffman, porque imediatamente antes tinha lido outro livro dele, Savage Harvest. Dois grandes livros de não ficção passados numa parte do mundo que não conheço, respetivamente Bornéu e Papua Nova Guiné, sobre a complexa e contraditória relação com mundos ancestrais colonizados pelo “Ocidente”. Seria ótimo vê-los traduzidos em Portugal.

Qual é o próximo livro que vai ler?

As Voltas do Passado: A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação (coordenação de Miguel Cardina e Bruno Sena Martins). Um volume pioneiro, reunindo pontos de vista muito diferentes e amplos de quase 50 académicos portugueses e africanos. Porque precisamos urgentemente de descolonizar o pensamento, aquilo que julgamos saber sobre o passado. 


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Rui Gaudêncio

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