Alexandra Lucas Coelho: “Gosto de fazer o que não sei”

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Sabíamos por onde andava porque nos contava histórias de lugares de conflitos e mágoas antigas. Estava onde o mundo parecia mudar: Moscovo, Afeganistão, México, Israel, Palestina, Egito, Brasil. Mora no Alentejo, no sossego de cheiros e zumbidos de insetos, escrevendo um romance complexo sobre o Rio de Janeiro, com a cabeça cheia de livros.

BI
Nasceu em 1967, estudou teatro e trabalhou na rádio durante 10 anos. É cronista do Público e publicou seis livros. Recebeu prémios de reportagem pelo Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Premio Gazeta em 2005.

Depois de Lisboa, Jerusalém e Rio de Janeiro, viver no Alentejo é um regresso ao Mediterrâneo?
Orlando Ribeiro escreveu que o Mediterrâneo é até onde avistamos as oliveiras. Tinha tido essa sensação física em Mértola, onde iniciei um mestrado com Cláudio Torres sobre a relação do Mediterrâneo com o mundo árabe. Tenho um vizinho a quatro  uilómetros que me disse que o azul anil das paredes, o mesmo que encontramos no norte de África, é para afastar os insetos. A casa dele podia ser em Damasco – com as palmeiras, as laranjeiras, os arbustos, o cheiro, a cor.
Tudo aquilo é uma síntese dos meus últimos anos.

O Rio de Janeiro é a excepção?
Há um continuum feito de sucessivos períodos. Passei anos a cobrir Rússia e países de Leste, depois o Médio Oriente e a Ásia  entral, estive no México e mudei-me para o Brasil em 2010. O Brasil é a sequência natural. Tinha estado a cobrir os impérios dos outros, as heranças dos colonialismos inglês, francês, turco (otomano), espanhol, russo. Além disso, eu tinha começado a publicar livros
e queria viver outras possibilidades da língua, sem qualquer tipo de reserva ou de preconceito. Vejo a experiência da língua no Brasil como uma multiplicação, uma ampliação da nossa identidade. Nunca senti que deixava de ser portuguesa, essa identidade está sempre em movimento, as possibilidades multiplicam-se. A construção da identidade nunca é uma subtração, é sempre uma multiplicação.

Nas viagens é como se se misturasse na paisagem?
Idealmente é, mas isso nunca existe sem conflito. Não vou dizer que chego aos lugares e tudo é bom e bonito, e estou sempre  ranquila e tudo à minha volta corre bem, que nunca é uma experiência agressiva e nunca me impaciento. Não é isso. Se nos deixarmos atravessar por um lugar, se nos entregarmos a esse lugar, ficamos numa situação de vulnerabilidade tal que todos esses
sentimentos têm uma forma mais intensa. Podemos ter medo, impacientar-nos, irritar-nos, não compreender nada. Onde senti mais isso foi na China.

E no Brasil foi o oposto?
A relação entre portugueses e brasileiros é de tal maneira forte e densa, assenta em tantos equívocos, tanta morte, tanto desentendimento, que é uma relação de sobressalto e de incompreensão. Nunca é só amor, indiferença, revolta, exasperação, riso. É tudo isso. E viver no Brasil é tudo isso. Há momentos de exasperação como há momentos de júbilo total, é
uma sensação de estar vivo. A relação do português com o brasileiro é intensa, sobressaltada, cheia de equívocos e descobertas possíveis, de luta, combate, muito amor, muita alegria, com muitos momentos de trégua. Provavelmente isso não pode acontecer com mais ninguém.

Quando está num novo país tem um olhar de jornalista, de mensageiro?
Estar nos lugares como repórter é muito diferente de estar de férias. Descobri que não gosto de estar nos lugares de férias, nem sei muito bem fazê-lo. Quando estou em reportagem, seja de que tipo for, sinto-me em alerta sempre. É como se houvesse uma espécie
de intensificação automática dos sentidos, uma hiper-realidade. Talvez isso seja mais rápido e urgente nos lugares perigosos. Fisicamente sou outra pessoa numa situação em que só conto comigo ou em que sei que tenho de me desembaraçar. Deve haver
mecanismos químicos que explicam isto.

Isso dá uma resistência enorme, também?
Uma resistência muito grande, uma agudeza muito grande e prazer físico. Isto é o treino de repórter, essa pulsão de querer ir e ver mais. Mas ao longo do tempo fui estando cada vez mais nos lugares como repórter mas também com os poetas, os escritores,
os antropólogos, os historiadores. Comecei a preparar as reportagens não tanto lendo notícias – claro que tenho de ter uma ideia – mas foi mais vital nalguns lugares ter lido alguns antropólogos e poetas, foi mais decisivo para poder ler além do que está à minha frente. Não conseguiria ter atravessado a Amazónia sem ler Eduardo Viveiros de Castro, um antropólogo brasileiro que mudou a minha leitura do Brasil e escreve como um poeta. Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, a viagem me conduziria à literatura, a essa experiência do mundo, de estar viva e de tocar um nervo. É isso que tento fazer no romance, exatamente como tentei em reportagem, mas com outra liberdade. Num romance estou livre para fazer o que me apetecer. Estou a escrever um romance sobre o Rio de Janeiro, chamado Deus Dará, e tenho mais três na cabeça. E também outros livros que não são romances.

Livros de reportagem?
Não lhes chamaria reportagem, mas não são romances. Na minha cabeça, o Brasil funciona como uma trilogia. Publiquei oVai Brasil que é uma crónica em viagem, ou viagem em crónica. Estou a escrever o romance e há uma terceira ideia que é uma espécie de
história oral dos imigrantes portugueses. Não é a atual geração que foi para o Brasil agora, mas as pessoas que partiram há 70 ou 80 anos.

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As novas tecnologias só facilitam ou também complicam?

Tinha 22 anos, em 1991, quando fui apanhada pelo golpe contra o Gorbachev em Moscovo, onde estava a passar férias em casa de uns amigos, no tempo da União Soviética. Essa foi a primeira história que tive de fazer de um momento para o outro. Não havia Internet, telemóveis, computadores pessoais, nem sequer telefone fixo para ligar diretamente. Levantava o telefone e pedia à operadora que me fizesse a chamada internacional, depois ela marcava e eu esperava duas horas. Escrevia os textos à mão, alguém em Lisboa tomava notas. As possibilidades que se abriram são imensas e são fantásticas. Há outros problemas: a velocidade e a nossa compulsão, sobretudo em relação às redes sociais.

Fez um plano para este romance?
Cem planos. É uma estrutura muito complexa, com sete protagonistas, vários personagens secundários, várias zonas de pesquisa, vários séculos de História. O livro passa-se entre 2012 e 2014 mas, por razões que têm que ver com a ação, há braços que voltam atrás. Seria impossível essa pesquisa sem o computador. Honra e glória à mulher do Tolstoi e a todas as mulheres e todos os homens que fizeram cópias intermináveis de livros de mil páginas!

Em E a Noite Roda as comunicações – sms e emails – têm muita importância.
Era inevitável porque os protagonistas coincidem poucas vezes no mesmo lugar, passam a maior parte do tempo separados. Neste novo romance há sms que os personagens trocam, histórias da cidade, mas é uma presença normal como temos no dia a dia.

No Alentejo consegue trabalhar muitas horas?
As redes sociais são um problema para a concentração. Já tive uma longa fase fora do facebook, voltei a desligar-me, mas a minha cabeça precisa de estar ligada ao Brasil. Há razões do romance que envolvem o ativismo nas redes sociais e isso está a ser absorvido pelo livro. É uma gestão complexa, uma disciplina que tenho de tentar. É difícil  uando há muitos amigos à distância.


estante-video-entrevista-a-alexandra-lucas-pires  Veja o vídeo desta entrevista.


Saiu de ambientes fervilhantes, no Rio de Janeiro e em Jerusalém, e agora vive no meio do sossego. Já se habituou?
É uma experiência de maravilhamento.

Acorda muito cedo?
Achava que ia acordar cedo, mas não. Trabalho até muito tarde. No Rio acorda-se muito cedo, é uma cidade barulhenta. Tive várias experiências, e a mais forte foi viver em Cosme Velho, que não é um bairro ruidoso. Mas os meus últimos meses no Rio de Janeiro foram extremamente ruidosos, praticamente não conseguia dormir. No Alentejo estou naquela paz, tudo o que eu ouço são os sinos, os galos, os cães, os zumbidos dos insetos. Estou numa felicidade. Sei, porque me conheço, que estarei nesta felicidade vários meses, mas precisarei de ir e vir, preciso desse movimento. Pus no começo do Vai Brasil uma frase do Herberto Helder: “É preciso que as pessoas entrem e saiam. Que vivam por toda a parte.” É isto mesmo. Mas gosto de estar quieta. As 70 páginas de texto do romance com que cheguei ao Alentejo foram feitas em 40 dias de isolamento em Minas Gerais, em maio e junho de 2013.

E está a refazer esse texto inicial?
Reformulei vários personagens. Na verdade, reformulei o livro todo e estou a reformular parte do que escrevi. É uma experiência totalmente nova, nunca fi z nada assim. Alguns personagens secundários são um pouco inspirados em figuras que conheci, mas os protagonistas, não sendo totalmente inventados, têm mil bocados de mil pessoas, são a minha experiência do Rio de Janeiro. Eliminei um dos protagonistas, coitado, ele tinha voltado da Síria e deixei-o estar em Nova Iorque, não vai para o Rio de Janeiro. E de repente inventei-lhe um irmão.

Um poder quase divino?
É uma experiência extraordinária poder fazer dos meus protagonistas o que eu quiser. Há um lado de jogo e há várias fases. Há o desespero total, o bloqueio. A maior parte dos dias penso: para quê? Gosto da ideia de fazer uma coisa que não sei fazer. Não me interessa repetir fórmulas. Já fiz, vamos para outra coisa. Tenho na cabeça outro romance que tem a ver com a minha adolescência. Será uma experiência diferente e implicará embrenhar-me no Portugal dos anos 70 e 80. Vai ser uma fantasia musical.

Já tem rotinas no Alentejo?
Como diz o Flaubert, preciso de uma rotina porque a minha cabeça é caótica. Normalmente não escrevo de manhã, faço outras coisas, vou andar. Escrevo à tarde e à noite.

Depois de escrever lê outras coisas?
Sim, mas sempre relacionadas com o livro.

Ouve música quando escreve?
Não conseguiria viver sem música. Exatamente por isso, não consigo escrever a ouvir música, são duas coisas muito fortes. Se começo a ouvir, mesmo que não tenha palavras, fi co concentrada na música. A não ser que esteja a escrever sobre aquela música.

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VAI BRASIL
Uma narrativa onde se constata que o presente e o passado estão presentes no futuro, assim como o futuro está contido no passado. A pergunta é se esses tempos conseguirão em alguma medida libertar-se uns dos outros: o passado deixando de condenar o futuro e o futuro escolhendo de qual dos seus passados se quer servir, para se reinventar.

Ando a ouvir três playlists de música brasileira do séc. xx (até aos anos 60) também por causa do romance.

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historia_escravaturaA História do Rio de Janeiro de Armenlle Enders e História da Escravatura de James Walvin [Tinta da China, 2008]. Tenho na mesa de cabeceira vários autores brasileiros. Procuro livros antigos Samba – Sua História, Seus Poetas, Seus Músicos e Seus Cantores de Orestes Barbosa, e a biografia do Noel Rosa. Todos têm a ver com o livro que estou a escrever.

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