Afonso Cruz: Impurezas

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Texto e ilustração: Afonso Cruz
Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

Os pitagóricos não comiam feijões, nem favas, nem tremoços. Pitágoras preferiu ser morto pelos soldados que o perseguiam a escapar-lhes atravessando um campo de feijões.

Há várias teorias para sustentar esta estranha superstição. Alguns especulam que seria devido à flatulência provocada pelas leguminosas que, de algum modo, poderiam contaminar a alma. Havia na filosofia pitagórica, bem como mais tarde em Sócrates e Platão, uma espécie de ódio ao corpo, como se este fosse uma doença que necessita de cura.

As últimas palavras de Sócrates, depois de tomar o veneno, foram: “Críton, devemos um galo a Asclépio.” Asclépio era o deus da Medicina e faziam-se-lhe oferendas como agradecimento pela cura. Sócrates estaria finalmente curado do fardo e do facto de ter um corpo, de ter matéria, de ter paixões.

Pitágoras pensava da mesma maneira e temia consumir qualquer coisa que pudesse implicar com a pureza da alma, recusando tudo aquilo que sugerisse putrefação, como é o caso da carne ou da flatulência provocada pelos feijões. Aldous Huxley citou certa vez Lotário de Conti, que viria a ser o Papa Inocêncio X, que dizia que os animais são sacos de vermes e pus e mau cheiro e fezes e urina, enquanto as árvores e as plantas exsudam óleo, seiva e perfume. Seria por isso que os feijões entrariam na categoria do saco de vermes em vez da do frasco de perfume.

Hoje em dia, os pitagóricos tomariam suplementos de vitamina E e ómega-3, comeriam superalimentos, teriam horror ao glúten e à lactose e jamais tocariam num pão ou num copo de leite, mesmo que fossem perseguidos por soldados. A higienização do corpo não é apenas uma procura de saúde e bem-estar, mas também um ideal de pureza, e o que parece uma preocupação legítima com a saúde revela também a postura de um déspota puritano, sempre vigilante, que recusa ao corpo qualquer forma de hedonismo ou excesso. É por esse motivo que se crê ser desintoxicante beber um suco de couves. Porque estamos poluídos e impuros e precisamos de purgas, de limpeza.

Há uns tempos alguém comentou que, na Califórnia, o medo ao glúten é tão grande que seria possível assaltar um banco com uma baguete.


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