Afonso Cruz: de nómada a artista faz-tudo

 

Afonso Cruz

Naturalidade
Figueira da Foz, Coimbra, Portugal

Data de nascimento
Julho de 1971

Primeiro livro publicado
A Carne de Deus (2008)

 

 

 

 

 

 

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Enciclopédia da Estória Universal

 

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

 

Flores

Flores

 

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Nem Todas as Baleias Voam

 

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Jalan Jalan

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Afonso Cruz é escritor, ilustrador e músico. É pai, fã de blues e de cerveja. É também autor do recém-publicado livro Jalan Jalan, no qual recupera 12 anos de viagens pelo mundo.

É o chamado homem dos sete ofícios. Um faz-tudo. Escritor, mas também músico, ilustrador, realizador de filmes de animação e produtor de cerveja artesanal. Afonso Cruz é, acima de tudo, curioso e obstinado por natureza. Não interessa se lhe dizem que não tem jeito para isto ou para aquilo. Se gosta, vai aprender. E se aprende, fá-lo com uma dedicação invulgar.

Essa sua tenacidade já vem de criança, quando passava os dias a desenhar. Cresceu, quis aperfeiçoar a técnica, foi para a Faculdade de Belas Artes e arranjou o primeiro emprego na área da animação infantil, em séries televisivas como Rua Sésamo ou O Jardim da Celeste.

Depois descobriu as viagens. Deambulou por mais de 60 países sozinho, sem máquina fotográfica, e ocupou o tempo a ler e escrever. A escrita seria a sua próxima obsessão.


“Nunca pensei em ser escritor. Mas creio que o grande combustível, a grande matéria-prima para depois escrever, foi gostar muito de ler. Leio diariamente desde que me lembro de ser gente. E hoje sinto-me quase incapaz de escrever se não ler.”

Afonso Cruz

Depois de 12 anos a percorrer o mundo, estreou-se como ilustrador, em 2007, num livro partilhado com Alice Vieira: Livro com Cheiro a Baunilha. No ano seguinte, assentou com a família num monte alentejano e foi aí que começou a trabalhar nas suas obras de ficção. Já são mais de 20 as publicadas.

Esta obra vencedora do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco nasceu na Internet – num blogue privado. A dada altura, Afonso Cruz pegou nos vários textos que aí publicou e uniu-os sob o mesmo conceito: o de uma enciclopédia da história universal fictícia. É composta por citações, curiosidades, mitos, anedotas, e, claro, um toque apreciável de ironia.

É possível que uma pequena aldeia alentejana se transforme, de repente, em Jerusalém? No mundo de Afonso Cruz é. A premissa é simples: visitar a Terra Santa era o maior sonho de uma idosa dessa aldeia e a sua neta, incapaz de levar Maomé à montanha, arranja forma de trazer a montanha a Maomé. Uma história que tem tanto de tragédia como de comédia e que valeu ao autor o Prémio Time Out para Melhor Livro Português de 2012.

Como o próprio autor resumiu numa entrevista à Estante, “o livro conta a história de um homem que perde as suas memórias afetivas, aquelas que são mais caras”. Há ainda outro personagem, um vizinho jornalista, que tenta recuperar-lhe as memórias perdidas, entrevistando as pessoas que tiveram contacto com ele. Flores mereceu, em 2016, o Prémio Literário Fernando Namora.

Fã incondicional de blues e jazz, Afonso Cruz sempre nutriu um fascínio pelo programa Jazz Ambassadors, desenvolvido pela CIA com o fim de ganhar a Guerra Fria através da música. Foi sobre isso que escreveu em Nem Todas as Baleias Voam. “A cultura é sempre muito desprezada, mas depois, quando olhamos para a História, apercebemo-nos de que tem sido utilizada, muitas vezes pelas próprias pessoas que a desprezam, com a crença de que tem um poder imenso”, realçou o autor em conversa com a Estante.

Termo indonésio que significa “passear”. De facto, este livro acabadinho de chegar assume-se como “uma leitura do mundo”. Noutras palavras, consiste num conjunto de textos filosóficos, poéticos e pensamentos do autor que derivam das dezenas de viagens por ele realizadas. “Muitas das minhas viagens começaram pelos livros. Curiosamente, muitas culminaram na escrita, já que depois da viagem há o desejo ou a necessidade de solidificar a experiência, fazer da viagem um espaço imutável, parado, mas acessível aos outros.”


“Tudo aquilo que leio, tudo aquilo que ouço, as viagens que faço, as minhas experiências afetivas. Tudo isso é material para a escrita. Ainda que depois não seja passado no mesmo contexto ou com as mesmas vestimentas.”

Afonso Cruz

Além do desenho, das viagens e da escrita, Afonso Cruz tem outra grande paixão: a música. Pertence aos The Soaked Lamb, uma banda de blues na qual atua como compositor, letrista, vocalista e instrumentista, algo que nunca teria feito se não fosse – como bem avisámos – tão persistente e teimoso.

“Sempre me disseram que era duro de ouvido, que não tinha jeito. Mas insisti. Comprei uma guitarra e estraguei muitos discos a tentar imitar os guitarristas de quem gostava. Tenho e sempre tive uma grande curiosidade: se eu gosto muito de uma coisa, quero saber como se faz. Eu gosto de beber cerveja, quero saber como se faz. Gosto de pão, quero aprender a fazer. Tenho essa vontade de desmontar e ver as entranhas para saber como funciona”, explicou à Estante.

Há, no entanto, pelo menos uma coisa, com a qual sonhava em criança, que ainda não se atreveu a fazer: banda desenhada. A julgar pelo seu padrão, não deverá demorar muito a desbravar esse caminho. Ficaremos à espera.

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Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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