Afonso Cruz: “O amor mais durável é aquele que nos custa a conquistar”

Em conversa com a revista Estante, Afonso Cruz fala de jazz, revela o seu processo de escrita e apresenta-nos o novo romance, Nem Todas as Baleias Voam

Nem Todas as Baleias Voam
O novo romance de Afonso Cruz tem como protagonista Erik Gould, um pianista que vê sons, pai de um rapaz que vê pessoas e coisas que não existem, que procura a melhor forma de lidar com a súbita partida da mulher.

Em Nem Todas as Baleias Voam, voltamos ao personagem de Erik Gould, que já foi utilizado noutros livros e que terá nascido num texto para o primeiro número da revista Granta, em 2013. Ou não?

Na verdade, o primeiro texto que escrevi sobre o Erik Gould foi publicado numa coletânea chamada Histórias Daninhas. Mais tarde, foi incluído num dos volumes da Enciclopédia da Estória Universal. Voltei a utilizar o personagem no conto da Granta – essa parte da história está toda incluída no novo romance.

O que o levou a querer continuar a explorar a história deste personagem?

Várias coisas. Gosto bastante da ideia do Erik Gould, da sua tristeza e sofrimento. No volume Mar, da Enciclopédia, escrevi duas histórias em que ele é muito importante e desenvolvi um pouco mais a personagem. O que acontece é que vamos criando amizades com as personagens, vamos passando muito tempo com elas, elas vão-se entranhando, não as esquecemos e mais tarde sentimos que lhes devemos qualquer coisa como contar a sua história. Porque elas próprias o vão pedindo à medida que se tornam mais sólidas. No caso de Nem Todas as Baleias Voam, peguei nele e também no Isaac Dresner, protagonista de A Boneca de Kokoschka. Ainda hei de escrever um terceiro, também com o Isaac Dresner.

Existe alguma relação entre o novo romance e A Boneca de Kokoschka?

Sim. Não se passam na mesma altura – este passa-se depois de uma das partes e antes do final de A Boneca de Kokoschka –, mas é mais um período da vida de Isaac Dresner, no qual este mantém, mais uma vez, uma relação de amizade muito próxima com um músico. Em A Boneca de Kokoschka era com Mathias Popa, um músico um pouco diferente de Erik Gould, também muito talentoso, mas o que gostava de fazer era escrever e não tocar. Este não, este é mesmo músico.


Todos os quadrados perfeitos são iguais; só um quadrado imperfeito é que é único. É quando encontramos a imperfeição que encontramos a identidade e a diversidade. E é precisamente nesse ponto que vamos encontrar também o extraordinário.


Falamos de semelhanças entre livros através de personagens, mas não existe também uma relação temática entre Flores e o novo romance, no sentido em que o primeiro fala sobre a necessidade de recuperar memórias e o segundo, pelo menos parcialmente, sobre a necessidade que também existe de as esquecer?

Claro que a memória é muito importante, tal como a identidade, em Flores – na verdade, o tema da primeira Granta era o “eu”. Mas, em Nem Todas as Baleias Voam, não me foco tanto nisso como na ideia de o sofrimento e a alegria, a felicidade e a dor, andarem de mãos dadas, engendrando-se mutuamente e tendo uma relação quase perversa.

Muitas vezes necessitamos de uma para ter a outra, ou uma nasce da outra, o que faz com o que o mundo não seja ideal. Se eu fosse um deus criador, imaginaria um mundo de bondade e não necessariamente um mundo perdedor. E, no entanto, precisamos dessa coexistência para manter a coerência e para sentirmos que o mundo vale a pena.

Não sendo um elogio ao obstáculo ou à dificuldade, sentimos que não existe nada valioso que não tenha esse lado de luta, sofrimento e dor. De conquista e desafio. Acabamos por não gostar de nada que recebemos de graça. Ou melhor, gostamos no imediato mas não é um amor durável. O amor mais durável é aquele que nos custa a conquistar.

O livro tem como pano de fundo um projeto bem real, chamado Jazz Ambassadors [através do qual os Estados Unidos procuraram utilizar grandes músicos de jazz para espalhar uma imagem mais positiva junto dos países comunistas em plena Guerra Fria], e é engraçado que, logo na introdução, o Afonso recupera uma citação de Goran Petrovic que diz que a realidade é apenas uma fantasia exageradamente bem penteada. Para que lado pende mais este romance: fantasia ou realidade?

Apesar de serem sempre uma visão pouco comum do quotidiano, os meus romances não deixam de ser quotidiano. Não tenho elementos mágicos no livro. Tenho, isso sim, elementos que podem ser inusitados, mas depende da maneira como olhamos para o quotidiano.

Qualquer pessoa que se debruce sobre um tema qualquer ou que se aproxime o suficiente de determinadas coisas para as ver com atenção vai encontrar o inusitado. À medida que nos aproximamos de um quadrado que de longe nos parece perfeito, vamos vendo as imperfeições. E são essas imperfeições que o tornam único. Todos os quadrados perfeitos são iguais; só um quadrado imperfeito é que é único. É quando encontramos a imperfeição que encontramos a identidade e a diversidade. E é precisamente nesse ponto que vamos encontrar também o extraordinário.

Gosto de olhar para as coisas à minha volta e tentar encontrar o ângulo que normalmente não usamos para observar o mundo. Podem ser coisas muito pequeninas. Uma expressão tão simples como “dar à luz” tem um significado relativamente poético quando comparada com “parir”, mas utilizamo-la sem lhe dar nenhuma relevância especial. A verdade é que, se nos focarmos sobre ela, volta a ter essa luminosidade que perde com a rotina.

Há pouco tempo estive no Canadá e vi um monumento que tem um agradecimento aos portugueses que ajudaram a construir o país. Tem o texto em português e em inglês. O agradecimento em português é para os cidadãos anónimos e em inglês é para os “unsung heroes”, ou seja, para os heróis não cantados. Há aqui uma beleza muito maior do que em “anónimos”, que não é uma tradução que faça jus a esta expressão. Mas, provavelmente, quando alguém que fala inglês usa a expressão, também a usa sem se aperceber de todas as dimensões que tem.

Nem Todas as Baleias Voam
tem como pano de fundo o programa
Jazz Ambassadors, instituído pelos
Estados Unidos durante a Guerra Fria
a fim de transmitir uma imagem
mais positiva junto dos países
comunistas através de alguns dos
seus principais artistas de
 jazz. 

Também quis dar uma perspetiva nova sobre o projeto Jazz Ambassadors ou foi apenas um tema que lhe interessou pessoalmente e que desejou dar a conhecer à generalidade das pessoas?

Interessa-me por muitos motivos, mas acima de tudo porque a cultura é sempre muito desprezada, mas depois, quando olhamos para a História, apercebemo-nos de que tem sido utilizada, muitas vezes pelas próprias pessoas que a desprezam, com a crença de que tem um poder imenso.

Se calhar este Jazz Ambassadors é criado por pessoas que não acreditam nada na cultura mas que são capazes de imaginar que a música pode vencer a Guerra Fria e alterar por completo a perspetiva que se tem dos americanos – desde logo a perceção sobre o racismo, mas inclusivamente mudar o estado de espírito dos jovens e propiciar um estado de espírito mais vocacionado para o capitalismo ou para os ideais americanos. Só o facto de acreditarem nisso e colocarem este programa em prática mostra a importância que a cultura tem, mesmo para as pessoas que a desdenham.

Ainda que não tenha havido uma guerra ganha ou perdida através da cultura, a verdade é que se tentou fazê-lo. E é impressionante porque, entre mísseis e bombas atómicas, invasões aqui e acolá, abrigos nucleares, informação e desinformação, havia um programa com jazz.

A música é uma das suas principais influências. Que outras influências tem a sua escrita?

Tudo aquilo que leio, tudo aquilo que ouço, as viagens que faço, as minhas experiências afetivas. Tudo isso é material para a escrita. Ainda que depois não seja passado no mesmo contexto ou com as mesmas vestimentas.

Leio muita coisa distinta. Alguns livros influenciam-me mais pela maneira de escrever, outros pela profundidade do conteúdo, outros pela maneira como conseguem contar uma história, outros pela capacidade de nos colocarem no meio da narrativa simplesmente com as descrições.

Depois há a música, que sempre fez parte da minha vida. Mas acho que faz parte da vida de muita gente, a música é omnipresente na sociedade. Gosto muito de blues, gosto muito das raízes da música popular – o chamado roots –, e por isto entende-se o jazz, o pop, o rock, todo o tipo de música que não é erudita.

O rock’n’roll nasce quando os músicos brancos começam a tocar músicas de negros. O Jerry Lee Lewis ia para bares de blues – onde se calhar não podia entrar – e aprendeu a tocar piano a ouvir clandestinamente estes pianistas. Começou a tocar aquelas músicas que eles já tocavam, rhythm and blues. Nasce assim o rockabilly, com brancos pobres que tocavam hillbilly e absorvem a cultura negra – casos de Elvis Presley, Carl Perkins, inicialmente de Roy Orbison, que depois se torna um cantor romântico, Johnny Cash. De repente a música negra chega aos brancos. É exatamente o contrário do que Charlie Parker e [Dizzy] Gilespie tentam fazer com o bebop, que é: “Se a música dos negros só tem sucesso se for cantada por brancos, nós vamos fazer uma música de negros que os brancos não saibam tocar.”

Algumas destas coisas têm um lado negativo, porque havia – e há – um racismo muito grande latente em várias sociedades e que era muito evidente nos Estados Unidos nesta época. E a música também o sentia. Mas foram estas fusões que foram permitindo novidades e o aparecimento de um estilo musical que mudou o mundo, como é o caso do rock. É uma mostra cabal de que as misturas são uma das melhores coisas que podemos fazer e promover na sociedade.


A cultura é sempre muito desprezada, mas depois, quando olhamos para a História, apercebemo-nos de que tem sido utilizada, muitas vezes pelas próprias pessoas que a desprezam, com a crença de que tem um poder imenso.


Voltando à escrita, o ano de 2016 voltou a ser bastante produtivo para si. Quem escreve por gosto não cansa?

É uma das justificações. Gosto muito de escrever, passo muito tempo a escrever, e quando se gosta não há fronteira entre o trabalho e o ócio. Quando estou a descansar, estou na realidade a trabalhar. Claro que é trabalho à mesma, mas é o que gosto de fazer. Vou ler para descansar de escrever ou vou escrever para descansar de ler.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Tenho poucas rotinas. Passo muito tempo a viajar, passo muito tempo fora de casa, e é difícil estabelecer uma rotina quando vivemos assim. Em casa, prefiro escrever à noite pelo silêncio, porque não tenho de responder a e-mails ou telefonemas e porque tenho a possibilidade de “quase isolamento”.

Costuma escrever primeiro à mão ou logo no computador?

Computador. Até com as ilustrações. É muito raro utilizar papel. Mesmo para tomar notas. Evidentemente nem sempre foi assim, sempre andei com muitos blocos, mas aos poucos fui aprendendo a substitui-los pelos smartphones, pelos iPads, que ajudam bastante e sincronizam. Quando estou a conduzir e tenho uma ideia, também é muito fácil gravá-la e não a perder.

Costuma planear os detalhes do livro antes de começar?

Costumo ter uma estrutura fixa. Sei que história vou contar. Às vezes não tenho os detalhes todos. Vou criando, acrescentando e colocando outros. Normalmente escrevo a acrescentar. Há escritores que escrevem a retirar. É uma diferença de método.

Se eu me sentar em frente ao computador e escrever uma história sem planeamento, escrevo muito e sem muita noção do equilíbrio entre as partes. Neste caso, depois há muito trabalho: é preciso retirar muita coisa, é preciso embelezar coisas que saíram de maneira torrencial. Normalmente, funciono exatamente ao contrário: começo com uma história muito pequena mas já pensada com princípio, meio e fim. Nem Todas as Baleias Voam é um bom exemplo, já que a história do Erik Gould e também das personagens da CIA, agora muito mais desenvolvidas, já estavam naquele conto inicial da Granta.

As pessoas perguntam-me: “Então mas isso não retira espontaneidade?” Não, porque uma pessoa tem à mesma esses momentos torrenciais, mas dentro de uma estrutura. E, pelo menos para mim, é mais fácil gerir os tempos, os equilíbrios, e saber que determinadas coisas acontecem a meio e que não estou a prolongar demasiado a introdução e que não acabo por chegar ao fim de maneira abrupta.

Já tem essa estrutura pensada para o próximo romance?

Sim. Completa. Já tenho uma boa parte escrita. Porque é um romance com várias linhas narrativas, é um pouco mais complexo. Isso também ajuda: quando a estrutura é complexa, se não a pensarmos antes, é muito mais trabalhoso conseguir depois conciliar tudo sem deixar uns cantos à mostra.

Foram dois os livros de Afonso Cruz
que chegaram às livrarias neste final de ano.
Além de Nem Todas as Baleias Voam,
o autor publicou um novo volume
da sua Enciclopédia da Estória Universal,
intitulado Mil Anos de Esquecimento

Lembra-se de qual foi o último livro que leu?

Sim. E não. Estou sempre a ler muitos livros ao mesmo tempo. Estava a ler um livro da Inés Garland chamado Pedra, Papel e Tesoura [Piedra, Papel o Tijera]. Um livro juvenil.

O que achou?

Gostei muito. Conheci-a na Argentina e comprei o livro dela. Estive agora no México e também trago alguns livros de alguns autores que conheci lá. Tive algumas boas surpresas, conheci escritores que me fascinaram. Como Luis María Pescetti, que não creio estar publicado em Portugal e escreve para crianças. Tem uma perspetiva muito engraçada sobre as histórias que se contam às crianças e como devem ser contadas. Também é músico. Toca guitarra e canta, especialmente para crianças. Tem um grande sentido de humor.

O que é para si um bom livro?

Os fatores variam. Se for ilustrado, as ilustrações têm um papel fulcral. Apesar de tentar não descurar aqueles cuja ilustração não me agrada mas cuja história poderá ser uma agradável surpresa. É o caso do Pescetti, de quem os livros não são esteticamente muito bons. Depois é pela sinopse: tipo de história, tema, conteúdo que me possa interessar. Outras vezes é porque abro o livro, normalmente no primeiro capítulo e depois numa página a meio, e às vezes, mesmo que o tema ou a sinopse não me digam nada, compro pela maneira como escreve.

Qual é, na sua opinião, a pior parte de se ser escritor?

Acho que a pior parte – e a melhor – é o permanente contacto com o mundo. Estamos constantemente a ser avaliados e criticados. Tem coisas muito boas e muito más. Mas dificilmente nos deixa descansar.

É curioso. Já fizemos esta mesma questão a vários escritores e em grande parte dos casos a resposta tem sido precisamente a oposta. Muitos apontam o isolamento.

[Risos] Os escritores passam pouco tempo isolados. Obviamente que quando se está a escrever há um isolamento que é inerente ao próprio ato de escrever. Curiosamente, esse isolamento não é um isolamento de solidão. Ninguém sente solidão quando está a escrever. Pelo menos eu nunca sinto. Posso sentir-me sozinho é se não estiver a escrever ou a fazer alguma coisa. Quando se está tão concentrado como normalmente estamos enquanto escrevemos, não há espaço para a solidão ou para a tristeza a não ser a das personagens que estamos a ajudar a fazer viver. É um isolamento distinto de ir para o deserto meditar.


Ninguém sente solidão quando está a escrever. Pelo menos eu nunca sinto. Posso sentir-me sozinho é se não estiver a escrever ou a fazer alguma coisa. Quando se está tão concentrado como normalmente estamos enquanto escrevemos, não há espaço para a solidão ou para a tristeza a não ser a das personagens que estamos a ajudar a fazer viver.


Que conselhos daria a um jovem aspirante a escritor?

Às vezes perguntam-me isso e eu tenho alguma dificuldade, até porque me sinto um pouco paternalista com a ideia. Não acho que seja uma regra ou um dever, mas acho que a coisa mais importante para escrever é ler. É fundamental.

Um conselho mais prático – costumo dá-lo nas oficinas e é normalmente a única coisa que se aproveita – são duas regras que cito de um escritor de ficção científica, o Heinlein: 1) escrever; e 2) acabar o que se escreve.

Há muitos aspirantes a escritor que não escrevem. Têm várias ideias mas estão à espera da secretária ideal, da paisagem ideal, da casa ideal. Mas não há situações ideais, nem na vida, nem na escrita, nem em coisa nenhuma. Se gostamos e queremos, fazemos em qualquer circunstância. Parece um conselho um pouco absurdo, mas é fundamental.

E depois há que terminar o que se escreve, porque o que também acontece com muita frequência é que se escreve um primeiro capítulo de uma ideia que se teve e se faz esse primeiro capítulo vezes e vezes sem conta até que aquela história já não nos diz nada. Se começarmos e acabarmos naquela altura, mesmo que não fique bem, podemos embelezar depois. Claro que é verdade que, se tivermos muitos, também podemos fazer um livro só de primeiros capítulos.

Como Italo Calvino [em Se Numa Noite de Inverno um Viajante].

Exato. E o Stanislaw Lem tem um livro de prefácios. É possível. Mas só podemos fazer isso uma vez e não construir uma carreira de escritor com primeiros capítulos.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

[Risos] Não estou a contar escrever um livro sobre a minha vida… Mas quase. Para o ano, é muito possível que publique um livro de não ficção com muitas histórias de viagens e outras mais pessoais que fui vivendo ao longo destes anos de pseudonomadismo. Algumas tenho-as publicado no Jornal de Letras e na Notícias Magazine.

O título do livro – acho que posso dizer – é Jalan Jalan. Significa “passear”. É um termo indonésio. E o que me agrada nele é a repetição. Quando é só “jalan“, significa “rua” ou “andar”. Quando se repete a palavra, passa a ser “passeio”. E o passeio tem uma virtude que o andar não tem: não tem objetivo. É inútil como a arte e como a poesia. Há ali uma componente que eu acho muito bonita e que faz com que a vida valha por si só e não para um objetivo ulterior.


Por: Tiago Matos
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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